O que muda com tanto dinheiro injetado no cenário brasileiro de startups?

Wylinka
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May 19 · 5 min read

2019: o ano das IPO's de tecnologia. Esse ano que marca a abertura de capital de grandes startups, como Uber, Slack, Zoom, carrega consigo alguns sinais de transformação que pedem por análises mais criteriosas para o desenho de estratégias futuras. O primeiro dos sinais é a injeção de capital e o retorno conquistado por parte de fundadores, investidores e primeiros funcionários que apostaram no sonho: são bilhões de dólares que passam a estar nas mãos de pessoas experientes e com disposição a risco no suporte a novas startups. Capital este também que passa a ir para os caixas das empresas, direcionando mais e mais investimento em competitividade, como salários e benefícios para desenvolvedoras e desenvolvedores de alto calibre. E o que muda? Nos Estados Unidos, por exemplo, uma das maiores consequências é o aumento descomunal no custo de vida (especialmente moradia), e isso já tem gerado um grande movimento de empresas 100% baseadas em trabalho remoto, abrindo oportunidades para novas ferramentas e estruturas de escritórios compartilhados. Uma outra consequência é a dificuldade para conseguir capital humano qualificado no caso de startups com menos recursos, fenômeno que tem sido tratado como uma ameaça ao ecossistema de Israel, como mostra esse excelente estudo da MIT Technology Review.

Mas e quanto ao cenário brasileiro? Por aqui, embora em outra escala, também vivemos um cenário de bastante injeção de capital no contexto das startups, seja por exits, como o caso da venda da 99 por 1 bilhão de dólares, ou por grandes players investindo, como a entrada do SoftBank com US$5 bilhões para a América Latina (além de o ano de 2018 já ter contado com R$5 bilhões de reais investidos por fundos em startups brasileiras). E, como a Wylinka já atua há alguns anos com isso, produzindo estudos e executando programas, esse post é para compartilhar um pouquinho sobre a nossa visão dos horizontes futuros.

Qual o cenário atual?

A mudança não é somente sobre o volume de dinheiro injetado, os resultados do ecossistema atual falam muito sobre decisões passadas. Em primeiro lugar, diversas aceleradoras e outros programas, muitos deles iniciativas públicas, não conseguiram se provar e acabaram encerrando suas atividades (ou minguando). O que anteriormente poderia ser convincente com um sonho de resultados futuros, hoje já exige maior assessment, e os projetos passam a ser avaliados com maior excrutínio (analisando casos de sucesso de empreitadas passadas, eficiência na alocação de capital e números relativos ao impacto gerado). A seriedade de um agente passa a conseguir ser melhor avaliada por meio da consistência de resultados concretos dos últimos anos, o que beneficia todos os envolvidos. Em segundo lugar, é um período em que o capital humano qualificado começa a gerar os efeitos percebidos no Vale do Silício: fundadores em sua segunda/terceira empreitada de sucesso (como Yellow e Loft), funcionários experientes saindo para criar startups de altíssimo crescimento (como é o caso da Kovi, de ex-funcionários da 99, que recém criada já foi para a Y Combinator) e a existência de uma primeira leva de gestores que consegue tocar operações mais robustas voltadas para escalabilidade. Por fim, a "cadeia de investimentos em startups" começa a se estabelecer com agentes experientes: investidores-anjo com background de sucesso em startups (como o Florian Hagenbuch); um fundo bastante focado no estágio seed (Canary), o que era mais raro no Brasil; fundos estabelecidos alcançando unicórnios em seus portfólios (Redpoint eVentures e Monashees).

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E o que muda?

O primeiro impacto é na questão do capital humano - e o cenário é similar ao apresentado sobre o contexto internacional: startups recebendo aportes na casa das centenas de milhões precisando contratar em massa (saindo de 50–100 funcionários e caminhando para a casa dos milhares). A demanda tem sido geralmente por desenvolvedoras e desenvolvedores, assim como executivos com competência para gerenciar escala, mas temos visto vagas para todas as áreas. O desafio é a escassez de talentos no país. Não formamos gente o suficiente com qualificação necessária para ser rapidamente absorvida, e isso torna-se um grande gargalo, além de tornar a realidade para as startups que estão começando muito mais difícil na atração de seus primeiros talentos. O investimento em marketing passa a ser não somente para a aquisição de clientes, mas, talvez principalmente, para a atração de talentos.

Um segundo impacto é o surgimento de novos formatos de apoio a empreendedores. No campo dos investimentos, temos visto um movimento interessante para o modelo de Venture Builders — que é um modelo que aposta no investimento não só financeiro, mas também de gestão, no qual a VB assume muitas atividades operacionais, focando assim em um pequeno número de startups, mas em uma ajuda mais aprofundada (para entender melhor, confira esse artigo do Diogo Dutra, sócio de uma). Um outro modelo ainda não tão estabelecido no Brasil é o formato de Search Fund, que tem uma interface maior com private equity (mapear potenciais negócios, investir em um formato de quase aquisição e profissionalizar a gestão). Os modelos de Corporate Venture também tornam-se mais maduros, visto que startups de melhor gabarito permitem retorno sobre investimento claro (menos como investimento e mais como melhoria operacional/novos mercados), atraindo uma maior disposição ao risco por parte dos mesmos (recomendamos esse texto do prof. Marcelo Nakagawa sobre o assunto).

Por fim, as universidades ganham papel estratégico na formação de jovens talentos para trabalhar em startups. Um entendimento chave é que alunos trabalhando em startups são futuros empreendedores com maior chance de sucesso, e esse esforço em formação de talentos acaba sendo um investimento de médio prazo para uma rede de alumni muito mais ativa em empreendedorismo. Há também o horizonte de colaboração das universidades com empresas para o direcionamento de pesquisadores (mestrandos, doutorandos e pós-docs) para departamentos privados de P&D, de modo a oferecer uma via de empregabilidade e elevar a competitividade nacional com mais inovações de fronteira surgindo por aqui.

Conclusões

O cenário está mudando, e com ele vêm novos desafios, gargalos e oportunidades. Os próximos anos poderão ser super frutíferos para as startups nacionais se empreendedores e agentes de suporte se organizarem de maneira efetiva. Essa realidade mais madura exigirá (i) bastante foco por parte de empreendedores — que terão maior competição por mercados e talentos; (ii) diligência por parte de financiadores — que já podem exigir resultados prévios em vez de apenas discurso baseado em wishful thinking; (iii) seriedade por parte de gestores públicos — que já têm condições de saber o que funciona e o que não funciona, podendo construir políticas de maneira mais assertiva e eficiente.

Você pode conhecer mais estudos realizados pela Wylinka nos seguintes links:

E se quiser fazer algum projeto conosco, é só mandar um email para nossa chefe do comercial, a Anna Bolívar (anna.bolivar@wylinka.org.br).

Because when you rock, #wyrock! =D

Autor: Artur Vilas Boas

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A DEEP é uma plataforma de conhecimento criada pela Wylinka com o objetivo de estimular o desenvolvimento de ecossistemas de empreendedorismo e inovação por meio de conteúdos relevantes.

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