Os novos horizontes do ensino de empreendedorismo e inovação ao redor do mundo

Embora muito se fale da importância de se formar estudantes mais empreendedores e inovadores, pouco se tem falado das estratégias desses processos educacionais — caindo no tóxico comportamento do excesso de críticas sem muitas sugestões ou realizações concretas. Por atuarmos muito no contexto das universidades, resolvemos organizar muito do que já vimos e aprendemos como Wylinka — e a proposta desse post será trazer para vocês algumas referências interessantes, a explicação de seu modelos e conteúdos legais para se aprofundar (afinal, nossa plataforma se chama DEEP, não é mesmo?).

O primeiro ponto do texto é uma elucidação em uma confusão de termos: muitos usam o termo “educação empreendedora” para falar sobre o ensino de empreendedorismo, sendo que, sintaticamente, há uma firme diferença. O caminho fácil é pensar no termo “educação inovadora”: o que vem à sua mente? Uma abordagem mais inovadora para a educação, não o ensino de inovação. Os termos “inovadora/empreendedora” entram como adjetivos, dando uma caracterização ao termo educação, o que não é o caso. Logo, a melhor maneira de se referir à formação de empreendedores é “ensino de empreendedorismo” ou “educação para empreendedorismo”. Mas esse é só um detalhe, agora vamos ao importante: trazer novos horizontes para as práticas de ensino ao empreendedorismo e inovação no Brasil.

Um pouco antes da metade do século XX, com o crescimento dos conceitos de destruição criativa e a importância do empreendedorismo para a competitividade das nações (Schumpeter, 1942), as universidades passaram a se atentar à formação de profissionais com competências compatíveis, nascendo assim os primeiros cursos com a temática de empreendedorismo e inovação, como um dos primeiros registros de ensino de empreendedorismo em uma turma de MBA em Harvard, em 1947, para 188 alunos. A partir daí, muitas práticas foram se desdobrando, havendo na atualidade algumas referências super interessantes que podem ser replicadas em universidades brasileiras. O primeiro passo para entender o estado atual das boas práticas de ensino de empreendedorismo e inovação é compreender que muito do que se fala hoje se baseia em três pilares: (i) o design e a prototipagem como um elemento de criatividade; (ii) a aprendizagem vivencial e sua eficácia no ensino de empreendedorismo; (iii) o poder dos alunos na construção de novas dinâmicas de formação.

A força do Design para a inovação em Stanford

Para muitos, a criatividade e a inovação são ligados a lampejos de genialidade que não podem ser estimulados ou replicados, mas uma das coisas que os estudos em Design trouxeram foi a compreensão de que a criatividade nasce em um contexto de processos, de etapas relativamente sistematizadas que culminam em melhores ideias ou insights. Desses processos do Design (que vem de designare, ou “dar significado”), muito começou a ser aproveitado na criação de processos para soluções de problemas em contextos empresariais, tecnológicos ou de engenharia — a consequência natural foi sua implementação nas salas de aula, como a histórica disciplina ME310, criada em 1967 com o objetivo de trazer os processos de Design para o ensino de engenharia em Stanford.

E o que seriam os elementos desses processos? Equipes multidisciplinares, pensamento divergente-convergente (pensar em muitas ideias inicialmente para depois afunilar), desenvolvimento orientado ao usuário, ciclos de prototipagem e feedback para o desenvolvimento das soluções e outros. Na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, foi criada inclusive uma disciplina baseada na ME310, contando com envolvimento direto de Stanford em sua idealização — e ela é uma boa maneira de compreender essa abordagem. Inicialmente, a seleção de alunos para a disciplina é focada em multidisciplinaridade: dos 60 alunos, 30 são da Politécnica (engenheiros de diversos cursos), 10 da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, 10 da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design e 10 de outras unidades USP, os alunos formam equipes de 6 alunos que devem seguir a mesma proporcionalidade. Um outro elemento é a aprendizagem baseada em problemas (PBL), na qual empresas vêm com seus problemas reais — problemas que se tornam os desafios da disciplina para os grupos resolverem. Durante o semestre, os alunos passam por ciclos de prototipagem e apresentação, de modo a receberem feedbacks em um contexto de negócio, além de avaliação técnica da solução. Da disciplina já saíram diversas premiações e patentes, e há sempre uma volumosa concorrência para a participação, fenômeno que também ocorre na ME310 de Stanford.

Quer conhecer mais sobre o papel do design no futuro da educação para empreendedorismo e inovação? Esses artigos sobre as disciplinas são interessantes (clique para ver):

  1. Análise de abordagem multidisciplinar com foco em criatividade para inovação em contextos reais.
  2. Stanford’s ME310 Course as an Evolution of Engineering Design

Massachusetts e seu modelo vivencial

Uma das regiões de maior concentração intelectual do mundo, Massachusetts é um Estado americano que abriga 114 instituições de ensino superior, dentre elas o MIT e Harvard, o que já diz muito sobre a região. Além das famosas, Massachusetts abriga o que alguns chamam de hidden gems (as preciosas escondidas), que são instituições menores, mas que têm gerado muito impacto, como é o caso de Babson College e Olin College. A característica das instituições dessa região, com destaque especial para Olin, Babson e MIT, é a ênfase na aprendizagem com a construção e implementação real de negócios, o que é chamado de aprendizagem vivencial. Na aprendizagem vivencial o aluno é estimulado a vivenciar o processo de criação de uma empresa real, com oportunidades de criação de um negócio na sua área de interesse. Essa oportunidade, bem como os processos que acompanham a vivência, trazem uma experiência mais significativa, mais motivadora, ao aluno — tendo como consequência uma melhor relação do mesmo com disciplinas técnicas que exigem maior profundidade. Geralmente a vivência de desenvolvimento de um negócio é acompanhada da aplicação e reflexão sobre um plano de negócios clássico, um modelo de negócios aprofundado ou, como no MIT, a vivência dos 24 passos do Disciplined Entrepreneur. O grande impacto do modelo vivencial é o aluno encarar o aprendizado em sala de aula com um outro olhar por ter vivenciado o mesmo na prática antes mesmo de encontrar a teoria. O modelo é bastante fundamentado na abordagem de Kolb, que defende um processo de aprendizagem com quatro etapas interativas e cíclicas: experimentação (preparar e agir), concretização da experiência (sentir), observação reflexiva (observar) e conceptualização abstrata (pensar, compreender as teorias).

Para entender um pouco mais sobre o modelo de Kolb e sua aplicação em sala de aula, vale mergulhar nessa tese de doutorado da professora Patrícia Krakauer:
Ensino de empreendedorismo: estudo exploratório sobre a aplicação da teoria experiencial

A aposta nórdica no poder dos alunos

Apesar de também estar presente em outros países e universidades específicas (como no MIT), os países nórdicos têm se destacado pelo protagonismo estudantil nos movimentos de estímulo ao empreendedorismo. Sendo Aalto University, da Finlândia, uma das mais destacadas nesse sentido, há uma corrente bastante forte nos estudos sobre o processo de transformação das universidades que defendem a tese de que os movimentos grassroots estudantis são grandes forças propulsoras da transformação, especialmente no contexto do estímulo ao empreendedorismo e inovação. No Brasil temos o movimento das empresas juniores, as equipes de competição, os órgãos de extensão ligados a experiências internacionais, os núcleos/ligas de empreendedorismo e muitos outros que vêm se destacando nesse processo, e algumas lideranças institucionais já têm se atentado a isso e apostado nesse protagonismo, como é o caso da Escola de Engenharia da UFMG.

Quer compreender mais sobre esse tema?

1.Você pode consultar a dissertação de um dos gestores da Wylinka que se dedicou a estudar o fenômeno:
Organismos estudantis e o incentivo ao empreendedorismo nas universidades brasileiras
2. Ou então conhecer mais sobre o fenômeno nórdico que deu luz ao Startup Sauna, temos uma leitura do Steve Blank e um ensaio mais profundo sobre os processos de transformação.

Conclusão: para onde as universidades brasileiras devem caminhar?

Não existe uma regra a ser seguida ou somente uma escolha que irá transformar a realidade de uma universidade no ensino de empreendedorismo e inovação, o processo é sempre um pouco mais complexo e com estruturas complementares. Nas universidades com as quais trabalhamos em projetos de desenvolvimento de empreendedorismo e inovação, sempre apresentamos planos que envolvem diversos elementos de estímulo: disciplinas fixas, cursos de extensão, competições de empreendedorismo, suporte a organizações, apoio no desenvolvimento e transferência tecnológica, vivência prática de alunos em empresas de base tecnológica, programas de criação de startups e muito mais. A proposta é que você, que quer transformar o ensino de empreendedorismo e inovação onde se insere, mergulhe nas possibilidades, compreenda seu contexto e pense em uma estratégia com bons elementos que possa ser executada e melhorada constantemente! O mais importante é compreender os três pilares: (i) processos de design no suporte à criatividade, (ii) vivência prática motivando os alunos e (iii) apostar nas iniciativas estudantis como grandes escolas de autonomia. Gostou do texto? Compartilhe com sua rede! Irá nos ajudar bastante.

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