Por que autoajuda não funciona, mas viraliza.

As modas da autoajuda vêm e vão: um dia é um novo método infalível para superar a preguiça, outro é um empreendedor de sucesso com o growth hack do momento, num dia à frente é uma prática sobre como encontrar a iluminação desligando-se dos apegos do mundo. São livros e mais livros que chegam aos milhões de vendas, mas, após meses (ou anos), caem no esquecimento. O que acontece? Aquela receita infalível para o sucesso parece funcionar num primeiro momento, mas não se sustenta a longo prazo. O curto prazo atrai os grandes evangelistas do método (que realmente tem os ajudado), mas, com o tempo, a baixa efetividade faz com que eles desistam e se agarrem no próximo método, guru ou boa prática infalível. Essa primeira onda de evangelistas leva à viralização, e a ineficácia da solução mágica leva ao esquecimento. E por que isso funciona? Tentamos, para esse post, organizar algumas reflexões interessantes sobre o assunto, dado que essas ondas muitas vezes desencadeiam em má alocação de recursos por parte de gestores — que passam a investir em modas, em empreendedores de palco e em outros, deixando de lado gente que está fazendo muito no arroz com feijão da disciplina nossa de todo dia.

Por que as receitas milagrosas sempre parecem funcionar?

Não dá para simplesmente achar que uma montanha de pessoas adere às fórmulas de sucesso sem motivo — muitos inclusive podem comprovar o resultado dessas receitas de sucesso. O erro aqui é que correlação não é causalidade. A mudança ocorre, mas não por causa da receita infalível. Para explicar, primeiro vamos recorrer a um dos nossos textos preferidos — o "why procrastinators procrastinate".

Quando queremos fazer alguma mudança, ela sempre parece fácil. Mas de repente vem o "macaquinho irracional" que nos faz não seguir os planos e toma o controle da nossa vida:

"Esse é um ótimo momento para cumprir alguma meta" // "Não!", diz o macaquinho.
Em vez disso, vamos nos perder no youtube, facebook e outras distrações!

A única coisa que espanta o "macaquinho irracional" é o monstro do último minuto, aquele medo que surge quando as coisas já estão fora de controle — e aí estudamos na última hora, terminamos aquele trabalho que estávamos enrolando, fazemos o que precisava ser feito, mas tudo de um jeito descuidado e no sufoco.

O monstro do último minuto entra em ação e o macaquinho foge.

Já falamos em um outro texto sobre procrastinação: o momento em que o macaquinho assume o controle, ou seja, o momento em que mergulhamos em distrações nada mais é que um momento de fuga, um momento em que estamos tentando silenciar uma voz nossa que diz "eu não sou bom o suficiente para isso, não vou conseguir, vou passar vergonha". Esse padrão de fuga só some quando surge um medo maior, uma voz mais forte que diz "eu tenho que fazer isso porque se não irá tudo por água abaixo". E assim a gente se mantém em um padrão vicioso nas dinâmicas de prazos e períodos de entregas/provas/fechamentos.

E o que a auto ajuda tem a ver com isso? A autoajuda nos dá uma confiança inicial, ela minimiza a primeira voz de fracasso que nos leva à fuga, que nos leva a ceder o comando para o macaquinho irracional. Ao ver histórias de sucesso que seguiram a receita milagrosa, sentimo-nos impelidos a fazer o mesmo, a seguir a receita confiantes de que aquilo vai dar certo. Correlação não é causalidade: o segredo não estava na receita, mas na confiança que nos empurrava e atropelava qualquer macaquinho irracional no caminho. E, como em toda jornada de aprendizado, altos e baixos vêm e esse poder vai minimizando. Após alguns meses, já não seguimos mais a receita, já não temos mais a mesma força de vontade e aquele sonho vai ruindo. E isso se aplica não só à promessa de autoajuda, mas a planos de mudança de vida e tantas outras coisas que dão um gás inicial, mas não se sustentam com o tempo. O pior? Nas primeiras semanas, nas quais parece funcionar, as pessoas engajadas na receita infalível divulgam a solução para os quatro ventos, e, como uma reação em cadeia, a viralização acontece (e a receita nunca funciona). E isso se mantém até a próxima onda ou moda de autoajuda.

A autoajuda corporativa

Em ambientes corporativos o padrão é o mesmo, só que com maior sofisticação. As modas surgem, métricas de vaidade começam a ser apresentadas e o FOMO (fear of missing out — traduzido como um medo de ficar de fora da tendência) ataca. As empresas começam a injetar dinheiro em estratégias/boas práticas que sequer têm compreensão porque esse é tema do momento. Foi assim com Oceano Azul e Design Thinking, agora tem sido mais forte com Cultura Ágil ou Transformação Digital, todos conceitos importantes, mas vendidos em cima da ignorância de um coletivo de pessoas que não quer parecer que não está entendendo nada. E infelizmente muita coisa é vendida como o segredo do momento. Dois grandes elementos da sofisticação da autoajuda corporativa que se deve atentar:

(i) Viés do sobrevivente: grande parte das ferramentas/boas práticas corporativas de sucesso é apresentada contando um caso de uma empresa que as implementou e foi bem sucedida com isso. O viés do sobrevivente fala sobre a estratégia de apresentar o caso que se utilizou da prática e sobreviveu — sendo que ninguém sabe dos muitos casos que também seguiram o mesmo caminho e morreram afogados. É mais um caso de correlação apresentada como causalidade. Casos únicos vivem sob o risco de apresentar sobreviventes tratando suas estratégias como as causadoras do sucesso, e, muitas vezes, essas estratégias estavam presentes nos muitos outros casos que fracassaram.

(ii) Overfitting data: o "overfitting data" é a tendência de encaixar todos os dados de modo a tentar comprovar um modelo. Por exemplo, pegar pontos específicos de uma situação empresarial para explicar como esses pontos foram o uso da "estratégia XPTO" que você também deveria implementar na sua empresa. Na verdade, a única diferença foi a lente que a pessoa utilizou para analisar um caso de sucesso e encaixar em um discurso de vendas elegante. Fique muito atento, pois é algo bastante comum em livros de liderança ou gestão.

Uma excelente leitura sobre a autoajuda corporativa está no livro "O lado difícil das situações difíceis", do Ben Horowitz:

“Toda vez que leio um livro de gestão ou de autoajuda, me pego dizendo: 'tudo bem, mas isso não foi realmente a coisa mais difícil da situação'. O difícil não é definir um grande, complexo e audacioso objetivo. O mais difícil é demitir as pessoas quando se perde esse grande objetivo. O difícil não é contratar pessoas ótimas. O difícil é quando essas 'pessoas ótimas' desenvolvem um senso de grandeza e começam a exigir coisas irracionais. O difícil não é criar uma estrutura organizacional. O difícil é fazer com que as pessoas se comuniquem dentro da organização que você acabou de estruturar. O difícil não é sonhar grande. O mais difícil é acordar no meio da noite suando frio quando o sonho se transforma em um pesadelo. O problema com esses livros é que eles tentam fornecer uma receita para desafios que não têm receitas. Não há receita para situações dinâmicas e realmente complicadas. Não há receita para construir uma empresa de alta tecnologia; não há receita para liderar um grupo de pessoas sem evitar problemas; não há receita para fazer músicas de sucesso em série; não há receita para ser um quarterback da NFL; não há receita para concorrer à presidência; e não há receita para motivar equipes quando a sua empresa se torna um lixo. Esse é o lado difícil das situações difíceis: não existe uma fórmula para lidar com elas."

E como sair disso tudo?

Bom, não há muita resposta. O importante é ter uma atenção redobrada com as ondas e as febres: muitas delas são importantes e podem ensinar muito, mas isso exige a mentalidade correta, racional, sobre o que se está consumindo. O maior perigo é seguir uma boiada que abraça o discurso do momento muito mais por desespero que por possibilidades concretas. Não existe fórmula mágica, não existem atalhos: consistência e disciplina serão sempre o segredo. E para essa disciplina e consistência, como já falamos, o caminho é sempre um processo lento e gradual de autoconhecimento e ir trabalhando nos nossos desafios emocionais. Às vezes essas ondas podem até te dar uma motivação inicial, e aí é usar isso a seu favor e tentar construir suas rotinas com mais profundidade a partir disso. Este texto não é sobre uma negação 100%, mas uma chamada de atenção sobre fórmulas mágicas e receitas infalíveis — geralmente o único que sai bem sucedido da situação é o autor que vende milhares de livros e palestras enquanto está na crista da onda.

Alguns outros livros interessantes sobre o assunto são: (i) O lado difícil das situações difíceis, como citamos acima; (ii) Criatividade S.A., no qual o fundador da Pixar conta como ele, um nerd de tecnologia, não conseguia lidar com os livros de gestão na melhoria da sua empresa; (iii) Rápido Devagar, uma aula sobre vieses de pensamento (outro livro, o "Projeto Desfazer" é uma biografia dos autores do livro, também recomendamos). Lembrando que nós já escrevemos um texto bem legal com dicas de livros interessantes. Confira clicando aqui!

Quer ver o que já escrevemos sobre produtividade? Então confira nossos textos:

Recomendamos também essa série do Wait but why sobre procrastinação.

Esperamos que tenham gostado! Nós da Wylinka temos tentado nos dedicar bastante na formação de pessoas para um país melhor, atuando bastante com desenvolvimento de líderes em universidades, desenvolvimento de tecnologias e projetos de impacto social. Se quiser conhecer nosso trabalho, confira no site: www.wylinka.org.br

Because when you rock, #wyrock. =D