Precisamos falar sobre Negócios de Impacto: grandes oportunidades para o mundo da Ciência e Tecnologia

Wylinka
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Apr 14 · 8 min read

Negócios de Impacto Social e Ambiental: o que você já sabe sobre eles? Sabe, por exemplo, que o Brasil já tem mais de mil empresas equilibrando lucratividade e solução problemas socioambientais? Que em 2018 tivemos o primeiro caso de exit em um fundo de impacto? E que os investimentos globais em impacto estão crescendo em curva exponencial? O último relatório de investimento de impacto realizado pelo GIIN — Global Impact Investing Network — contabilizou mais de chocantes US$220 bi aportados ao redor do mundo só no ano de 2017.

Na Wylinka, acompanhamos de perto a evolução desse setor, que ficou conhecido como 2.5 — um ponto intermediário entre empresas e organizações não governamentais. Estando dentro do ecossistema de Negócios de Impacto, vemos um ambiente efervescente e dinâmico que vem fomentando o nascimento e desenvolvimento de mais e mais empresas que conciliam lucro e impacto positivo. Porém, basta sair da bolha pra ver quanto o tema ainda é desconhecido no Brasil por muitos atores que podem contribuir e muito pra esse bolo crescer. E aqui estamos falando não só de investimento, mas também de educação, pesquisa, ciência e tecnologia.

Para entender mais desse contexto, você pode baixar o e-book que publicamos ano passado sobre Inovação e Negócios de Impacto.

Já no final de março desse ano, foi publicado o 2º Mapa de Negócios de Impacto, da Pipe.Social, a maior vitrine de negócios de impacto socioambiental do Brasil. A Wylinka contribuiu com reflexões para a publicação e nesse artigo vamos trazer insights sobre o que foi apresentado e estender a discussão para o campo da Ciência e Tecnologia.

Em 2017, o 1º Mapa de NI indicou um dilema: o investidor de impacto quer, além do impacto, menor risco e garantia de retorno financeiro. Para isso, precisa de empresas mais maduras e com potencial de escala. Do outro lado, temos o empreendedor de impacto, com uma jornada mais complexa e que não consegue amadurecer por falta de apoio e investimento nas fases iniciais. Essa discussão permeou os eventos e iniciativas do setor de lá pra cá e, felizmente, podemos perceber boas mudanças.

Na sua 2ª edição, o Mapa mostrou que foram criados mecanismos pra diminuir o risco do investidor e dar mais flexibilidade para o empreendedor. A filantropia também começou a olhar com bons olhos para os Negócios de Impacto, que são uma opção mais comprometida com a mensuração e gestão do impacto, além de buscarem independência financeira e ampliação da atuação. A nossa aposta é que o investimento não retornável de institutos e fundações possa ser catalizador do desenvolvimento de mais e melhores negócios em fases iniciais.

Essa evolução se refletiu no aumento de negócios castrados no Mapa: de 579 para 1002 nesses 2 anos. E se refletiu também no aumento da taxa de sobrevivência dos negócios e na verticalização do ecossistema em áreas como cidades, educação, cidadania, serviços financeiros, saúde e tecnologias verdes. Essa verticalização permite mais maturidade, repertório de campo e inclusão dos NI na cadeia econômica como um todo, favorecendo o seu desenvolvimento. Outros desafios permaneceram, como baixo acesso a capital (apesar da diversificação de mecanismos), pouca diversidadepoucas mulheres e não brancos encabeçando os empreendimentos — e falta de acesso a programas de desenvolvimento como incubação e aceleração.

Aqui chegamos num ponto muito interessante. Sobre as iniciativas intermediárias, — aquelas que apoiam o desenvolvimento dos negócios como aceleradoras e incubadoras — o mapa concluiu que: (i) os negócios acelerados são muito mais propensos a vencer o vale da morte e (ii) 50% dos negócios de impacto desejam, mas ainda não receberam nenhum suporte desse tipo. Assim como o investimento, as iniciativas intermediárias aumentaram e se desenvolveram mas continuam não suprindo a demanda nos NI. Mais uma vez, nossa aposta é a criação de mais iniciativas que desenvolvam os negócios em suas fases iniciais, gerando mais diversidade, maturidade e sensibilizando novos públicos para o tema.

Gráfico do 2º Mapa de Negócios de Impacto que mostra a porcentagem de empreendedores que tiveram acesso a programas de aceleração.

Porém, não basta surgirem mais programas de incubação e aceleração. Os especialistas entrevistados apontaram um fator importante: os territórios e os empreendedores demandam programas customizados. Ou seja, nichos como NI surgidos na periferia ou liderados por mulheres demandam atendimento específico, pois os desafios são diferentes. Um exemplo claro é o surgimento de iniciativas como a ANIP — Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia — encabeçada pelo DJ Bola, cujo trabalho e visão vale muito a pena acompanhar. Outro exemplo foi a constatação de como os NI que utilizam tecnologia são liderados quase que totalmente por homens e de como as empreendedoras de impacto tem muito mais dificuldade para acessar capital.

Pela ótica dos NI de base tecnológica, nós acreditamos que essa customização também é necessária por uma série de motivos. O primeiro deles: a empresa baseada em hard science gasta mais tempo e mais recursos pra validar seu protótipo, pois depende não só da aceitação do mercado, mas também do desenvolvimento da tecnologia emergente. Em seguida, entra a equação do modelo de negócio. O empreendedor de base tecnológica tem perfil técnico e precisa de apoio na modelagem para viabilizar e escalar a sua proposta de valor. Somado a isso, entram as questões de propriedade intelectual e regulamentação.

Esse cenário se repete dentro de incubadoras e parques tecnológicos de todo o Brasil, não importa se o negócio é de impacto ou não. Mas para os NI incubados, temos mais um fator a considerar: a mensuração de impacto. Esse é um desafio dentro do setor 2.5 que também tem avançado graças à criação de repertório. Hoje conseguimos chegar a modelos como o Lean Data, da Acumen, desenvolvido pra coletar dados com baixo custo e dar subsídio para a tomada de decisão do empreendedor, além de entregar ao investidor comprovação do impacto e da aceitação da proposta de valor pelo público beneficiário.

Como anda o Impacto dentro dos ambientes de Ciência e Tecnologia?

Essa discussão já começou há alguns anos. Iniciativas como o Programa de Aceleração e Incubação de Impacto — promovido pela Anprotec, ICE e Sebrae — nascem para capacitar incubadoras e parques para desenvolver negócios de impacto. Os resultados trazem avanço no tema, gerando ótimos cases como o Porto Digital, referência no trabalho de impacto de base tecnológica no Brasil. Porém, precisamos somar mais forças nessa frente.

Em entrevistas realizadas para uma pesquisa interna, observamos alguns desafios. O primeiro deles é a estigmatização do tema Impacto Social: as incubadoras e os seus empreendedores não compreendem a extensão do campo que está se abrindo no Brasil e raramente veem a base da pirâmide como mercado potencial. Em segundo lugar está a complexidade do trabalho das incubadoras, que tem prioridades na sua gestão, seleção e desenvolvimento de negócios. Isso dificulta a inclusão da vertente de impacto em suas estratégias.

Com isso, criamos um novo ciclo vicioso: para que mais negócios de impacto nasçam dentro das incubadoras e centros de ciência e tecnologia é preciso criar repertório e maturidade no tema. Porém, não se amadurece no tema sem negócios de impacto demandando trabalho especializado dentro das incubadoras. Nossa aposta: precisamos de mais iniciativas externas, aportando recursos e fazendo parcerias para que o mundo da ciência e tecnologia se aproxime do ecossistema de impacto, entendendo seu potencial e entregando boas soluções.

Mas afinal…

Por que acreditamos na junção do mundo da C&T com o mundo de Impacto?

Os motivos são vários! No 2º Mapa de NI, nós ajudamos a desenvolver a visão de Prontidão x Potência na aplicação da ciência e tecnologia para a solução de problemas sociais e ambientais.

  • Prontidão: uma questão de curto prazo. Dentro do ecossistema de impacto existem muitos empreendedores demando soluções tecnológicas para conseguir viabilizar seus modelos de negócio ou para construir soluções escaláveis e que resolvam problemas complexos, como acesso à água, prevenção e tratamento de doenças, entre muitos outros. E já existem tecnologias prontas para vencer muitos desses desafios. Precisamos de iniciativas de conexão e tradução entre os dois mundos, para acelerar a viabilização de negócios de impacto inovadores e tecnológicos. A inovação pode estar, muitas vezes, no modelo de negócio, que vai equacionar o acesso de novos públicos a recursos já existentes.
  • Potência: uma questão de longo prazo. Por outro lado, existem as tecnologias emergentes de base científica, ou seja, que ainda estão sendo desenvolvidas na academia. Elas têm potencial para atender problemas ainda sem solução ou desafios que vão surgir nos próximos anos. Esse trabalho demanda mais tempo de desenvolvimento, fomento da semente do impacto desde o nascimento dos projetos de base tecnológica — ponto fundamental para que as soluções estejam bem alinhadas com as oportunidades — e, consequentemente, a aproximação do pesquisador e do empreendedor com os desafios do campo.
O 2º Mapa de NI mostrou a evolução do tema Tecnologia entre os negócios mapeados de 2017 pra cá.

Quem já está familiarizado com os conceitos de abundância difundidos pela Singularity University já compreendeu a big picture aqui. No livro Negócios com Impacto Social no Brasil, Marcel Fukayama, fala sobre o potencial de disrupção dos negócios criados para atender a base da pirâmide (BoP). Ao abandonar a competição com as grandes empresas (que atendem consumidores que podem pagar), esses negócios criam inovações disruptivas, simplificando produtos e serviços para atender consumidores à margem do mercado.

Ao se consolidar na BoP, essa tecnologia emergente continua a se desenvolver, criando novos padrões que afetam os mercados já estabelecidos, por meio de produtos mais simples, mais baratos e de bom desempenho. Esse conceito não se aplica apenas ao mundo de impacto e foi difundido no livro Dilema da Inovação, de Clayton Christensen. Você já deve ter visto essa figura aqui na Deep:

Gráfico Inovações Disruptivas. Fonte: Christensen; Raynor (2003) Adptado Clemente, 2008 (https://bit.ly/2DdMkvQ)

Por fim, queremos deixar uma reflexão que também é um chamado para que novos stakeholders se engajem no ecossistema de impacto. Lá em 2012, no Seminário Internacional Sobre Pequenos Negócios, Stuart Hart, autor de O Capitalismo na Encruzilhada (2008), falou do “Futuro de Baixo Pra Cima”, defendendo o potencial disruptivo dos pequenos negócios e alertando para os riscos ambientais da adaptação em massa de produtos as partir do topo da pirâmide. “Essa maneira de pensar pode nos levar ao caos se acabarmos com 6,7 bilhões de pessoas consumindo como os norte-americanos.” Enquanto estivermos na zona de conforto da inovação incremental, vamos contribuir para a perpetuação de problemas. Para mudar o jogo, será preciso encontrar olhares e soluções totalmente novas. O futuro é bottom-up, humano e diverso.

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Para conferir o mapeamento completo realizado esse ano pela Pipe.Social, baixe gratuitamente o estudo aqui.

Clique aqui para fazer o download!

Autora: Maristela Meireles

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