Qual o futuro das incubadoras de empresas no Brasil?

Começar um negócio de base tecnológica nunca é fácil. No Brasil, quase impossível. E foi nesse sentido que, na década de 1980, chegava ao Brasil o modelo das incubadoras de empresas de base tecnológica (em 1987, era criada a ANPROTEC, Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas). Mas de lá para cá muita coisa mudou e essas organizações se encontram, em muitos casos, fragilizadas com o cenário atual. Surgiram as aceleradoras absorvendo uma parte dos interessados em apoio para negócios nascentes de tecnologia, vieram os coworkings com seus modelos de espaço a baixo custo e a política pública deixou de priorizar o apoio às incubadoras. E quais as saídas para as incubadoras? Como se diferenciar? Vamos às respostas que temos desenhado na Wylinka depois de alguns anos apoiando a modernização dessas entidades, prestando serviços para as principais do Brasil, como Habitat, Centev e dezenas de outras.

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Contexto prévio: por que as incubadoras?

As incubadoras nascem em torno de um ponto chave: liability of newness, ou a fragilidade do novo. Entende-se que empresas nascentes possuem diversas desvantagens em relação às estabelecidas — não têm cases para atrair clientes/talentos, faltam recursos para grandes estratégias, ainda não tem um relacionamento afinado com fornecedores e muito mais — , se fazendo necessário algum nível de proteção para a organização de recursos iniciais e minimização de riscos. Para o caso das empresas de base tecnológica, o desafio ainda aumenta, pois muitas vezes as tecnologias ainda precisam passar por um amadurecimento e a infraestrutura laboratorial mostra-se inviável de ser financiada. As incubadoras de base tecnológica nascem portanto como proteção para esses negócios embrionários, provendo espaços a baixo custo, auxiliando nos primeiros passos com suporte em gestão, na atração de recursos, no direcionamento de bons relacionamentos com fornecedores/parceiros e em uma melhor interface, geralmente a baixo custo, com uma infraestrutura laboratorial de universidades e centros de pesquisa em que se inserem. Com modelos competidores, como aceleradoras e coworkings, diversos desses ativos perderam seu diferencial, com espaços mais interessantes e baratos surgindo, com aceleradoras bem conectadas com o mercado se diferenciando e com entidades de incubação se tornando obsoletas e pouco capacitadas para lidar com os novos modelos de negócio e de crescimento. E agora, josé?

Saída 1: incubadora como infraestrutura para crescimento

Existe uma citação famosa que um dos gestores da Wylinka usa para diferenciar incubadoras de aceleradoras, citação que inclusive ele escreveu em seu paper “Um fim, dois meios: aceleradoras e incubadoras no Brasil”, junto com a profa. Luciane Ortega (coordenadora geral no MCTIC) e prof. Guilherme Ary Plonski (USP) :

“Filosoficamente, incubadoras foram desenhadas para nutrir negócios nascentes amortecendo-os de seu ambiente, provendo aos mesmos local para crescer em um espaço protegido das forças de mercado. Aceleradoras, em contraste, são desenhadas para aumentar a velocidade das interações com o mercado visando ajudar negócios nascentes a se adaptar rapidamente e aprender.” (Cohen e Hochberg - Accelerating Startups: The seed accelerator phenomenon.)

Nessa premissa, as aceleradoras entram em um primeiro momento com foco em validação e construção de um modelo de negócios — mas depois disso é preciso de foco (no paper do nosso gestor, foi encontrado que muitas startups se perdiam depois de programas de aceleração, participando de um programa atrás de outro, sem se concentrar em produto e se perdendo em oba-oba do ecossistema). Aí entram as incubadoras — foco no produto, foco em crescimento consistente. Nesse momento os ativos da incubadora podem se estabelecer como os melhores para empresas nascentes: acesso a infra-estrutura laboratorial, espaço a custo interessante e acesso ao capital humano das universidades. O grande esforço a incubadora passa a ser transformar seu espaço no ambiente com a melhor atmosfera vibrante para empreendedorismo e inovação da região em que se insere, atraindo pesquisadores, alunos e rede de outras empresas de base tecnológica para trocas profundas. Esse é um momento em que as startups precisam se concentrar no produto, e o acesso a especialistas técnicos, a jovens das melhores graduações interessados no tema e rede de fornecedores se torna chave — e nesse espaço as incubadoras podem ser imbatíveis por sua localização. Não é fácil e não vem do dia para a noite, mas pode ser um grande diferencial.

Saída 2: Incubadoras como escolas sofisticadas em inovação

O Brasil se encontra em uma nova fase em seus ecossistemas: a efervescência de 4 anos atrás começa a dar frutos e já temos algumas startups caminhando para suas centenas de funcionários, bem como grandes empresas olhando para o cenário de inovação do Brasil com maior carinho. Um horizonte que se abre? Formação de capital humano. As empresas estão sedentas por talentos e essa demanda não está conseguindo ser suprida.

Temos no país uma massa de talentos enorme nas universidades, com professores e pesquisadores reconhecidos internacionalmente formando mais e mais gente de primeira linha. Agora é preciso transformar esse potencial teórico em resultado prático, e isso passa por formação específica em tópicos como gestão de operações em startups, marketing digital, experiência do usuário, programação e outros temas que exigem um bom conhecimento de ferramental e de rotinas de trabalho. Incubadoras que aproveitem de suas interfaces com as universidades para trabalhar em formação e direcionamento para empresas de base tecnológica podem criar modelos de negócios interessantes no desenvolvimento de programas patrocinados pelas startups em crescimento. Além disso, mais e mais grandes empresas estão criando áreas de inovação e alta tecnologia, podendo as incubadoras atuarem na formação de pessoas mais qualificadas em tópicos como pesquisa aplicada, aspectos jurídicos, maturidade tecnológica e outros.

Saída 3: Incubadoras como grandes tradutoras

Já falamos em um dos nossos posts mais famosos: universidades — a inovação mora na tradução. O que isso significa? Universidades e empresas falam línguas muito diferentes, e não é somente conectar os dois universos para se conseguir resultados. É preciso construir programas diferenciados de aproximação, como fizeram MIT e algumas outras Universidades com seus Translational Programs, ou desenhar processos centrados em direcionar cientistas para empreender, como é o I-Corps. A oportunidade se torna mais gritante com um duro cenário para os próximos anos: o número de doutores e pós-doutores formados no Brasil não consegue ser absorvido pelo baixo volume de vagas de professores de Ensino Superior que tem sido criadas. Esses professores precisarão ser absorvidos ou pelo mercado, em esperadas áreas de tecnologia, ou pela criação de novos negócios. E aqui entram as incubadoras — podendo criar programas patrocinados por grandes empresas que querem absorver esse capital humano em áreas de P&D robustas ou em áreas de inovação com startups de alta tecnologia atuando como fornecedoras e como futuras aquisições. Programas de tradução nesses dois formatos têm sido super intensificados lá fora, e as incubadoras brasileiras têm aqui um horizonte interessante para serem protagonistas de uma sofisticação tecnológica inevitável para o Brasil.

“The trial-and-error approach, which is natural to research but alien to business school, has distinct advantages. MBAs approaching a start-up typically want only to execute a pre-designed business model, based on standard principles about sales, marketing and customer reaction, which they regard as facts. By contrast, scientists recognize such variables as hypotheses. And so they tend to be happier than MBAs to test their business models with empirical data — the reactions of their prospective customers. It is a truth not always universally acknowledged that no business plan survives its first interaction with customers. And, faced with such failure, it is scientists, not MBAs, who are most able to rethink their approach.” (Steve Blank, sobre o I-Corps)

Concluindo: hora de apertar os cintos e decolar!

O cenário tornou inevitável a necessidade de mudança das incubadoras, o que é bom para um aumento de competitividade geral. Agora é momento para que essas organizações se redesenhem de modo a absorver novas formas de receita que, segundo nossos horizontes, podem inclusive as colocar como grandes protagonistas da inovação no país. O importante é compreender os grandes ativos que as incubadoras podem oferecer e trabalhar para o desenvolvimento de capacidades internas que permitam essas mudanças na modelagem das incubadoras. Possivelmente isso vai exigir profissionalização da gestão, mais foco temático (como é a Habitat e seu foco em ciências da vida) e uma operação ágil para aguentar o ritmo das empresas que estão vindo. Se você atua em alguma incubadora, ou até mesmo aceleradora/coworking/afins, equer desenhar novos horizontes, que tal nos mandar um e-mail? Esse já é um trabalho que fazemos com incubadoras no Brasil inteiro e talvez possamos utilizar todo o nosso know-how para implementar diversos dos modelos que falamos acima e transformar a sua realidade por aí. É o nosso sonho pessoal :) E só mandar um email para a Anna Bolívar, que tem cuidado de avançar com nossos clientes e potenciais interessados — anna.bolivar@wylinka.org.br

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Recomendamos:

Um fim, dois meios: aceleradoras e incubadoras no Brasil.

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Embrace Failure to Startup Success — Steve Blank (I-Corps)

Nosso case: Programa de desenvolvimento estratégico de empresas incubadas no CENTEV-UFV

Nosso case: Bloombtech — programa de direcionamento estratégico para mais de 100 empresas de incubadoras em Minas Gerais.

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Autor: Artur Vilas Boas.