Sobre ser líder e mulher no universo de Ciência e Tecnologia

Nesse nosso post especial do dia das mulheres, nossa presidente Ana conta um pouco sobre sua visão da realidade atual :)

Muito se tem falado sobre os desafios das mulheres nos dias de hoje… e eles são vários. Ser boa filha, boa mãe, boa companheira, boa profissional. Tudo ao mesmo tempo! Também é clara a contribuição que o feminino tem para a sociedade e nas organizações. Por questões naturais e também fruto de construções sociais e culturais, mulheres geralmente tem maior interesse em pessoas, maior sociabilidade e estilo de trabalho mais cooperativo. No entanto, ainda há uma desproporção no número de mulheres em altos postos quando comparado aos homens e as condições de trabalho continuam desiguais, como várias pesquisas já comprovam. Nos ecossistemas de inovação e empreendedorismo, nos quais a Wylinka atua, observamos os mesmos desafios para as mulheres e o resultado é que ainda temos poucas de nós liderando no universo da ciência e tecnologia.

Tenho me atentado aos drivers desse fenômeno, o que tem me levado a pensar em como estimular mais mulheres a compreender e vencer esse desafio. Ao falar desse fenômeno na Ciência e Tecnologia, logo me vem à cabeça um dos ecossistemas mais fortes no mundo no tema: Cambridge/Boston. Por duas vezes tive a oportunidade de interagir de forma profunda com a região. Em 2014, participando do curso "Professional Education — Technology, Organizations, and Innovation" no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e em 2016, quando tive a oportunidade de atuar por um período com o MTTC (Massachusetts Technology Transfer Center), instituição que catalisa o desenvolvimento econômico do Estado de Massachusetts por meio da comercialização de tecnologias desenvolvidas nas instituições locais.

Nas duas oportunidades foi perceptível o alto nível de contribuição das mulheres nos mais diversos tipos de ações e organizações do ecossistema (capacitações, eventos, escritórios de transferência de tecnologias, incubadoras de empresas, startups). Inclusive, o MTTC é liderado por uma mulher. No entanto, em um estudo sobre empreendedorismo e inovação no MIT (2015), é mostrado que a participação de mulheres ex-alunas em atividades relacionadas a inovação (empreendedorismo, invenção, investimento) é, de forma geral, metade das dos homens (22%/12%). E a desigualdade se amplia quanto se trata de cargos relacionados a liderança científica ou de negócios tecnológicos (12% e 5%). Desde a década de 60, quando o primeiro caso de empreendedorismo feminino de ex-estudantes do MIT foi reportado, a taxa de mulheres empreendedoras continuou em torno de 4%, enquanto a dos homens subiu para 20%. O mesmo estudo demonstrou que empresas fundadas por mulheres são menos propensas a falir e a ser adquiridas ou abrir capital, o que sugere um perfil menos propenso ao risco. A questão é: como ampliar essa contribuição visivelmente relevante para o desenvolvimento dos nossos ecossistemas com mais mulheres na liderança?

Diversos estudos demonstram que o menor número de mulheres em papéis de liderança são fruto de alguns fatores como: menos tempo dedicado ao trabalho (devido à maior dedicação a tarefas em casa), comportamento menos competitivo, menor direcionamento ao poder, além ter que lidar com expectativas conflitantes sobre agir como líder e como mulher. Desde a Universidade e no Mestrado na UFMG, nunca foi clara pra mim a opção de ser uma liderança nos projetos em que participava. Os estereótipos sociais que a universidade me mostrava era que esse era um lugar para homens. Fui uma das fundadoras da Empresa Júnior do meu curso, mas não me passou pela cabeça na época ser a presidente.

Hoje, como diretora presidente da Wylinka, consigo perceber que eu tenho um conjunto de características e competências que me fortalecem no papel de liderança, entre eles a capacidade de trabalhar de forma cooperativa com um time de feras que reúnem diversas outras competências indispensáveis pro sucesso da nossa missão. Ter a oportunidade de estar diversas vezes falando para grandes públicos me fez enxergar o quanto outras meninas e mulheres passam a pensar que essa também é uma possibilidade para elas. Diversas vezes sou abordada com olhares surpresos, admirados, questionadores e sonhadores. Observar essas situações e participar dessas discussões tem me feito pensar em como posso atuar para que mais mulheres possam se sentir estimuladas a liderar. Com um grupo de mulheres incríveis, líderes no ecossistema de tecnologia em São Paulo, dedicado a estimular o protagonismo feminino falamos dessas questões e identificamos ações que cada uma das nossas organizações pode promover. No texto "Se sozinhas já conquistamos tanto, imagina juntas", a Dany Carvalho, uma das integrantes, conta um pouquinho das ações do grupo e das atividades nesse sentido realizadas no Cubo Itaú, onde atua como Community Manager. Em Belo Horizonte, ações de empoderamento feminino em tecnologia também são lideradas pela Ciranda de Moraes com a She’s Tech, que se dedica a inspirar mulheres a buscarem conhecimento e empreenderem em carreiras e negócios com base tecnológica.

E o que cada uma de nós pode fazer para sermos mais protagonistas no universo de ciência e tecnologia? Aqui vão algumas percepções:

# Se arrisque mais!

Mulheres são menos propensas ao risco e em geral se lançam quando tem muita certeza de sua competência. Na próxima vez que encontrar a oportunidade — aquela vaga de emprego, a proposta pra assumir o cargo, o programa, a capacitação — e você pensar “será que é pra mim?”, se joga! 
Para aprofundar no tema, a Maitê Lourenço conta a sua história criação da Arena BlackRocks nesse texto.

# Tenha consciência de seus diferenciais e se mostre

Como já disse, mulheres geralmente são diferentes de homens em relação às principais contribuições para um negócio. Por exemplo, trabalhamos melhor em equipe e somos mais intuitivas. Conheça suas principais competências e comunique o valor que você pode agregar para o time. Nesse texto a Fernanda Caloi conta que a manifestação da diversidade é um dos pilares do Campus São Paulo, onde atua como Program Manager.

# Seja inspirada e inspire

Somos guiados pelo exemplo e infelizmente temos poucos exemplos de mulheres liderando em tecnologia. Busque uma mulher referência com a qual se identifique e se inspire! Se você é uma líder em tecnologia, tenha consciência de seu papel em inspirar outras mulheres. No texto “Contratam-se… homens”, a Marcela Drummond, CEO na Myleus, nos conta como se inspira com sua equipe majoritariamente feminina (e nos inspira!).

#Nós podemos!

Devido a N fatores, especialmente a construção social, nós mulheres não somos tão orientadas à dominância e ao poder quanto os homens. Não tenha medo do poder. Isso tem que mudar. Ter poder nos permite realizar nossos sonhos e propósitos com mais autonomia e impacto. A Carine Ross com o pessoal da UPWIT tem feito um ótimo trabalho nesse sentido com o Programas ELAS.

E, homens: entendam que mulheres geralmente se mostram muito menos do que são e tem competências que agregam muito ao trabalho de um time. É comprovado que equipes com mais diversidade tem melhor desempenho. Aliás, no texto “O porquê de pessoas talentosas se subestimarem tanto” falamos um pouco sobre a síndrome do impostor, que se aplica muito a essas questões femininas. Lá discutimos um pouco sobre o por quê de pessoas talentosas, criativas, inteligentes não conseguirem tirar o melhor de si por conta do medo de não serem boas o suficiente. Vale lembrar do excelente texto da The Economist com o estudo da HP mostrando que mulheres aplicam para vagas apenas quando possuem 100% de certeza que cumprem com os requisitos, ao passo que os homens aplicavam já com 60% (apliquem mesmo se o medo bater!).

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Como mulher e líder, espero ter contribuído para essa discussão tão relevante, principalmente no mês da mulher. Porque nós na Wylinka acreditamos muito na importância de uma maior diversidade e de mais mulheres no universo da ciência e tecnologia (because when SHE rocks, #wyrock!)! Se houver interesse no que fazemos, é só conferir no nosso site clicando aqui ou nos seguir pelo facebook por aqui!

Referências úteis:

Entrepreneurship and Innovation at MIT- Continuing Global Growth and Impact. MIT Sloan School of Management, 2015.

Artigo da The Economist sobre o estudo da HP e a síndrome do impostor.

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