Universidades: a inovação mora na tradução.

O papel das universidades em ecossistemas de empreendedorismo e inovação é um dos tópicos que mais batemos aqui na Wylinka, até porque este é um dos pilares da maioria dos serviços que prestamos no Brasil. Mas mesmo após atuar há anos com transferência de tecnologia, criação de empresas de base tecnológica, avaliação de tecnologias/patentes e muito mais, a gente ainda se pega perguntando — mas por que tanto conhecimento de fronteira não chega ao mercado em forma de produtos incríveis?

Esse não é um problema com respostas simples (e desconfie de quem as apresentar), mas sim um combinado de muitas variáveis. E, como todo problema sistêmico, exige trabalho em diversas frentes, colaboração, experimentação e bastante persistência — inclusive a Boulder Thesis do Brad Feld se aplica a esse contexto (desenvolver ecossistemas de empreendedorismo a partir de compromisso de longo prazo, colaboração, atmosfera vibrante e lideranças empreendedoras). Algumas das frentes inclusive já foram bastante tratadas aqui, como o desenvolvimento de mecanismos inovadores como os Proof of Concept Centers, melhoria da cultura de empreendedorismo refletindo sobre as métricas das universidades, e modernização de organizações como os Núcleos de Inovação Tecnológica. Em alguns dos nossos textos nós até tocamos no aspecto do diálogo entre universidade e mercado, mas nunca mergulhamos em um texto específico sobre, e agora chegou a hora. :)

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Diagnóstico: a falta de diálogo entre academia e mercado

A dificuldade no diálogo é real. Saindo do superficial, alguns estudos acadêmicos destrincham mais o fenômeno, que geralmente é cunhado como "o conflito de lógicas institucionais" (Sauermann & Stephan, 2013). Nessa abordagem, defende-se que há uma gama de fatores que contribuem para o não encaixe nos diálogos entre acadêmicos e industriais, sendo quatro principais:

  • Natureza do trabalho: enquanto no mercado a orientação da pesquisa é para a resolução de problemas claros e pré-estabelecidos, a academia carrega uma natureza muitas vezes mais atenta às descobertas fortuitas e às fronteiras do conhecimento puro.
  • Características do ambiente de trabalho: além de aspectos envolvendo a liberdade (sendo a academia detentora de maior liberdade nas dinâmicas de trabalho), os autores reforçam as características remuneratórias, nas quais há uma remuneração maior para a pesquisa industrial até como uma maneira de compensar a ausência de liberdade.
  • Característica dos profissionais: dialoga com os itens acima, apontando os cientistas como figuras mais direcionadas à curiosidade e ao espírito de descoberta livre, ao passo que o mercado espera maior pragmatismo e celeridade na busca por resultados.
  • Caráter do revelar das descobertas (o famoso disclosure): enquanto a ciência busca pioneirismo na divulgação de resultados e descobertas, há nas empresas um interesse maior em segredos de propriedade intelectual para maximizar a captura de ganhos na exploração do conhecimento. Esse fator muitas vezes é central, levantando cláusulas contratuais que colocam prazos máximos para divulgação de resultados em pesquisas que envolvem colaboração.

Esse caráter de oposição é comumente resumido em algumas discussões que temos na Wylinka com um paradoxo claro: enquanto o acadêmico é formado com orientação ao método(sendo um crime à pesquisa sua manipulação para garantir resultados), o mercado é guiado pelos resultados (independente dos métodos). Então como fazê-los cooperar?

Um horizonte de resposta: os translational programs

A descoberta de uma boa resposta aconteceu em uma imersão de pesquisa no MIT realizada por um dos gestores da Wylinka. Em uma atividade de coleta de dados, a gestora do MIT Translational Fellows Program destacou um fenômeno interessante: o Instituto estava formando um volume de pós-doutores que não conseguiria absorver em posições de professores, o que era um potencial problema. A resposta veio com a criação de um translational program (programa de tradução), cujo objetivo é aproximar esses pesquisadores com grandes empresas para gerar absorção da força de trabalho e ao mesmo tempo fazer com que boas tecnologias do MIT saiam das bancadas e se transformem em produtos reais nessa interface (no modelo, as empresas pagam por 20% da bolsa do pós-doc e ele se dedica um dia por semana à companhia).

Mas o ponto específico aqui não é a aproximação, e sim o esforço que dá nome ao programa: a tradução. Os pesquisadores são expostos aos desafios das empresas e vivenciam um programa de um ano envolvendo processos como Customer Development ou Disciplined Entrepreneurship. Em alguns casos, participam também funcionários das empresas, de modo a aproximar os diálogos e compreender os dois lados, criando essas estruturas de relacionamento que vão dando liga à tradução. Mergulhando no assunto para desenhar modelos para o Brasil, descobrimos inclusive estratégias criativas, como o uso de arte e outras dinâmicas em um translational program de Harvard.

Esses programas de tradução têm se mostrado saídas super interessantes para ampliar a aplicação de conhecimentos científicos em forma de inovação empresarial ou empreendedorismo acadêmico. Mas destacamos: a mensagem aqui é sobre pensar em programas profundos de transformação, para não se limitar às respostas triviais como "é só aproximar os dois universos", "é só colocar alunos de escolas de negócio para trabalhar com pesquisadores". Empreendedorismo acadêmico não é trivial, mas, quando bem trabalhado, traz transformações incríveis, como já vimos tantas vezes aqui na Wylinka. :)

Quer conhecer mais sobre os translational programs? Geralmente quando se pesquisa o tema, muito se encontra sobre "translational research", que também é alinhado, mas geralmente relacionado à área médica. Sobre os Translational Programs de maneira geral, recomendamos dois estudos:

Gostou da discussão? Havendo interesse em implementar um Translational Program no Brasil, é só procurar a gente pelo nosso site (clique aqui) ou mandar um email bacana para o contato@wylinka.org.br :)

Queremos muito ver Translational Programs surgindo para a inovação científica avançar no Brasil, e esperamos que esse conteúdo tenha plantado boas sementes. Gostou? Compartilhe! Because when you rock, #wyrock!

Autor: Artur Vilas Boas.