É hora de dar nome aos (donos dos) bois

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Não é acaso a falta de lógica dos editoriais jornalísticos nas grandes empresas. É cinismo puro e precisa ter fim.


Por Victor Amatucci

13 de junho de 2013. Nos porões onde vivem os ratos que se julgam jornalistas da folha de São Paulo — mas que praticam publicidade das mais sórdidas — é publicado um editorial com o título “Retomar a Paulista”.

O editorial terminava com as seguintes palavras de ordem: “É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na avenida Paulista, em cujas imediações estão sete grandes hospitais.”

15 de junho de 2013. Nos mesmos porões, os ratos pressionados pelos poucos seres humanos — melhor seria dizer seres jurídicos, dada a modalidade de exploração local — resolvem publicar outro editorial. Desta vez, com o título: “Agentes do Caos”.

O lixo em forma de texto desta vez terminava com: “De promotores da paz pública, policiais transformaram-se em agentes do caos e da truculência que lhes cabia reprimir, dentro da lei, da legitimidade e da razão.”

Um ou outro ser humano mais ingênuo talvez pensasse que a folha não soubesse o que é “pôr um ponto final” para a tropa de choque da polícia paulistana. Para estes poucos, o tempo é sempre um bom remédio. Passamos então, a setembro de 2016.

2 de setembro de 2016. Voltamos ao porão onde os ratos alugam seus corpos — e de seus humanos-jurídicos — aos deuses do mercado. O editorial desta vez é intitulado “Fascistas à solta”.

O panfleto fascista — o título é o que, no ‘psicologuês’, é chamado de projeção — desta feita solta “Grupelhos extremistas costumam atrais psicóticos, simplórios e agentes duplos, mas quem manipula os cordéis?”

6 de setembro de 2016. Do sistema excretor dos editores é publicado outro surto democrático, com título “Basta de confronto”, com dizeres tais quais “Aos agentes da lei compete trabalhar para neutralizar os provocadores, garantir o direito de livre manifestação e, no geral, desarmar os espíritos.”

Eu respeito os profissionais que alugam sua força de trabalho para as ratazanas. A gente sabe como o mundo funciona e nem todo mundo está disposto a ficar sem grana em nome da própria ética e lisura. O que não entendo e, talvez por isso mesmo, não respeito é a falta de cobrança desses profissionais ao patrão-ratazana. O que falta para cobrar do patrão que cale a boca e não ponha a sua própria vida em risco? União da classe? Sentido DE classe? Coragem ?

Não haverá democracia continuada num país onde as grandes mídias incentivam massacres, distorcem fatos e fazem o jogo do status-quo. Não haverá, para falar claramente, imprensa no país enquanto a população não tornar essas ratazanas alvo de protestos.

Não haverá democracia enquanto as pessoas — e profissionais — calarem-se diante de tais absurdos. Não dá para encarar com normalidade práticas publicitárias em forma de notícia. Se há crise (institucional, política, financeira) ela precisa atingir também esses executivos de notícias. Enquanto o conforto do ar-condicionado permitir a eles todo tipo de deturpação, não pode haver paz. Haverá, no máximo, medo.

Que o medo, então, chegue no patrão. Que se tire o motorista dos carros oficiais e se queime o carro com as edições. Que se afunile a disputa. Que se finde, antes tarde que nunca, o Lacerdismo 2.0.

Ou então que se engula, a seco, bombas de gás e manifestantes presos por portarem vinagre — ou estilingue. É hora de dar nome aos (donos dos) bois.


Victor Amatucci é repórter e jornalista pela Agência Democratize em São Paulo; blogueiro pelo ImprenÇa