É preciso falar sobre o ataque contra estudantes em Goiás

Foto: Reprodução/Youtube

Relatos nas redes sociais denunciam uma onda de brutalidade policial e perseguição política com iniciativa das direções das escolas e do governo estadual contra estudantes secundaristas que ocupam 27 escolas contra terceirização do ensino e a militarização da rede escolar.

Fora do foco da grande mídia nacional, estudantes no estado de Goiás resolveram ocupar várias escolas desde o final do ano passado, inspirados pelo movimento secundarista em São Paulo.

Cerca de 27 escolas foram ocupadas, contra o projeto de terceirização do ensino (as OSs), além da militarização da rede escolar pública.

Recentemente, uma onda de brutalidade policial e perseguição política tomou conta do cenário em Goiás, por conta das ocupações. Longe das manchetes dos grandes jornais, restou aos secundaristas e ativistas denunciarem os casos através das redes sociais.

Em uma postagem, escrito por Marina Lopes Barbosa, é feito uma grave denúncia do que tem ocorrido nos últimos dias:

“ Escrevo esse relato aos prantos, como, aliás, estive em boa parte do dia de hoje. Escrevo porque acho que todos devem saber o que está acontecendo no Estado de Goiás; escrevo por proteção, já que a perseguição começa a se instaurar; escrevo para tentar aliviar a dor de ver aquelas crianças espancadas.
Às 07:00 da manhã recebi o relato de estudantes do Colégio Estadual Ismael Silva de Jesus de que a polícia havia entrado na escola às 05:40, quebrado várias coisas lá dentro, agredido vários deles e saído. Logo em seguida, chegaram várias pessoas da comunidade e um carro de som que já começava a anunciar as matrículas na escola. As pessoas da comunidade entraram no colégio e agrediram mais ainda essas crianças e as expulsaram de lá. Eles permaneceram na porta, abraçados, resistindo à todas essas agressões.
Quando cheguei ao colégio já tinha um advogado do movimento lá e alguns outros apoiadores, que estavam tentando acalmar xs meninxs, comprando lanche para elxs e ajudando a pegarem seus colchões e mochilas para levarem para outra escola.
Havia também duas viaturas da PM na porta, algumas pessoas da comunidade (bastante agressivas), o diretor e o sub-secretário de Educação. 
Conseguiram um frete e colocaram todos os colchões, mochilas e objetos pessoais delxs na caçamba de uma pampa. Saímos em comboio para levar esses objetos para uma outra escola e depois levar xs meninxs ao Ministério Público para denunciar as agressões. Éramos três carros: o do frete, o de um professor e o que eu estava.
Ao passarmos por uma rua um pouco mais afastada da escola e bem vazia, nossos carros foram fechados por mais três carros, sem nenhum tipo de identificação policial, nem nos veículos e muito menos uniformes ou distintivos nos policiais. Fecharam a gente, sairam de seus carros com arma na mão mandando a gente descer e colocar a mão na cabeça. Assim fizemos. Nos trataram com muita truculência. Gritaram com as crianças, não nos deixaram pegar nossos celulares para avisar o advogado, revistaram os carros, revistaram nossas bolsas, jogaram as cosias dxs meninxs no asfalto. Depois, tiraram todos os colchões do frete, revistaram todas as mochilas que estavam lá dentro (e nem eram dos estudantes que estavam conosco), fizeram perguntas intimidatórias e ameaçaram: disseram que houve denúncia de furto e depredação da escola e que seríamos acusados por isso.
Mas não encontraram nada! O que tinha lá eram esses objetos! O que fomos fazer lá foi ajudar essas crianças e adolescentes que haviam apanhado a fazerem uma denúncia, a levar quem precisasse no hospital e a levar suas coisas a uma outra escola.
Como não tinham encontrado nada, perguntamos se então estávamos liberados. Eles disseram que estávamos convidados a irmos à delegacia. Perguntamos se podíamos não aceitar o convite e responderam que se nos negássemos a ir, PODERÍAMOS SER ENCAMINHADOS A FORÇA, e nesse momento um deles retirou algumas algemas do bolso.
Fomos então, acompanhando os carros dos policiais, para o 22º CIOPS, no Jardim Curitiba. Lá pegaram nossos nomes completos, endereços e telefones e nos entregaram mandados de intimação para prestarmos depoimentos nos dias 02 e 03 de fevereiro. Detalhe: os menores também receberam intimações!
Saindo da delegacia, um pouco mais tarde, orientados pelos advogados, fomos finalmente ao Ministério Público onde as crianças e adolescentes relataram sobre as agressões que sofreram e posteriormente foram encaminhados para o IML para fazer exames de corpo de delito. Apresentamos também a denúncia da abordagem que nos fizeram.
Estamos mobilizando todo tipo de apoio neste momento. As perseguições políticas começaram com o claro intuito de criminalizar apoiadores maiores de idade. Mas vão criminalizar o quê? Criminalizar pessoas que iam às ocupações diariamente levar comida, cozinhar, fazer oficinas? Que crime podem me acusar? De ter ido ao Ismael e em tantas outras escolas discutir com as meninas sobre violência contra a mulher? De ter feito comida pra eles vários dias e levado doações que recolhíamos de diversos apoiadores espalhados na cidade? De oferecer ajuda quando apanharam? De dar uma carona ao Ministério Público?
Confesso que ainda estou muito chocada com tudo o que aconteceu, estou profundamente triste e assustada. Espancar crianças é muito baixo, é muito cruel.”

Através da página “Secundaristas em Luta — GO”, outras denúncias são feitas, como por exemplo tentativa de invasão policial em escolas sem pedido de reintegração de posse — algo que já havia sido feito também em São Paulo, a partir de ações similares ao relatado acima, com homens encapuzados invadindo escolas ocupadas e depredando equipamentos e estrutura escolar.

Três horas atrás, a página da “Ocupação do Villa Lobos” alertou:

“Mais uma vez! Sem reintegração de posse, Marconi e Raquel ignoram a justiça do estado e mandam a PM para a porta de outra escola.
Não é à toa que Goiânia está entre as 30 cidades mais violentas do mundo. A polícia aqui é política.
Agora na ocupação do Colégio Estadual Vila Lobos a polícia se prepara pra invadir quem puder vir dar apoio. Inclusive tem gente que ajudou a desocupar o Ismael ontem ta aqui pra desocupar. Cai pra cá galera.”

No vídeo abaixo, diretor incita pais dos alunos a invadir o Colégio Estadual Bandeirantes, enquanto havia uma reunião entre ocupantes e pais. Os secundaristas ainda alertam a possibilidade de haver policiais infiltrados incitando uma possível invasão contra o colégio ocupado.

A situação é cada vez mais tensa, segundo os secundaristas. Não existe qualquer sinal de recuo por parte do governador do estado, o tucano Marconi Perillo.