A Maria Antônia de 1968 não se repetiu em 2016

Foto: Alice V/Democratize

Apesar do clima de tensão no ar, o ato pela democracia e contra o impeachment ocorreu sem menores problemas. Após a ‘Batalha da PUC’ na segunda-feira, onde manifestantes pró e contra o impeachment se confrontaram, o mesmo não se repetiu nesta quarta na Rua Maria Antônia, palco de uma verdadeira batalha em 1968.

Em 1968, estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (FFCL) entraram em confronto com alunos do Mackenzie, na Rua Maria Antônia. O fato ficou reconhecido historicamente como a “Batalha da Maria Antônia”.

De um lado, estudantes da USP se posicionavam contra a ditadura militar imposta no país por mais de 4 anos na época. Do outro, os estudantes do Mackenzie protagonizaram o polêmico grupo CCC (Comando de Caça aos Comunistas) — incluindo o jornalista Boris Casoy, que participou do confronto.

A batalha na Maria Antônia tirou a vida do secundarista José Carlos Guimarães, do Colégio Marina Cintra, de apenas 20 anos, após ser atingido por uma bala perdida disparada por Osni Ricardo, que era membro do CCC e também informante da polícia.

Hoje, décadas depois, a história foi diferente.

Foto: Alice V/Democratize

Alunos do Mackenzie organizaram nesta quarta-feira (23) um ato pela democracia e contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O clima era de tensão, principalmente após estudantes da PUC protagonizarem nesta segunda-feira (21) um confronto com a Polícia Militar na frente da universidade, em Perdizes. Lá, um grupo a favor do impeachment realizava um ato em defesa da Lava Jato, provocando os estudantes — que eram maioria. A Polícia Militar teve de intervir, reprimindo os alunos e deixando um rapaz ferido, com tiro de bala de borracha no rosto.

Os alunos do Mackenzie chegaram a tentar dialogar com a Polícia Militar antes do ato desta quarta, para evitar possíveis confrontos. A resposta foi a de que “o que ocorrer na Maria Antônia será responsabilidade de vocês (alunos)”.

Mesmo assim, e com a chuva caindo na capital, centenas de pessoas compareceram e fizeram uma noite histórica naquela rua que um dia foi palco de um verdadeiro massacre.

Foto: Alice V/Democratize

Marcaram presença: o ativista negro Douglas Belchior, o Levante Popular da Juventude, alunos da PUC e FFLCH, além da União Nacional dos Estudantes e diversos outros grupos e movimentos sociais, como o MST.

Um clima de tensão ocorreu quando um pequeno grupo resolveu interferir no ato pela democracia.

Apesar das discussões, nada de pior aconteceu.

A noite de ontem mostrou que o movimento estudantil parece muito mais consolidado para reagir a possíveis avanços conservadores no país, de teor anti-democrático.

Diversas outras universidades já se mobilizam para realizar atos como o da PUC na semana passada e o de ontem, no Mackenzie.

Ao mesmo tempo, “alunos pró-impeachment” devem promover na segunda-feira (28) um ato em favor da saída de Dilma Rousseff e em apoio a Operação Lava Jato. Não se sabe qual será a reação dos estudantes, mas ainda existe um risco da Batalha da Maria Antônia de 1968 se repetir em 2016.

Grupo pró-impeachment interfere no ato de ontem, no Mackenzie | Foto: Alice V/Democratize

Por enquanto, o massacre na Maria Antônia ficou pra trás.

E que continue assim.