Campanha contra a cultura do estupro chega no Metrô em São Paulo

Foto: Francisco Toledo/Democratize

A estação da Luz recebe a exposição “Nunca Me Calarei”, organizada pela ONG Rio de Paz após o caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro neste ano, com fotos do carioca Márcio Freitas. O metrô de São Paulo é palco de diversos casos de abuso contra a mulher.


Por Jefferson Gonçalves*

O alerta antecipa o aviso da voz familiar “cuidado com o vão entre o trem e a plataforma” e uma multidão de pessoas transforma a Estação da Luz numa passarela de diversidade. A cada intervalo entre os trens e metrôs, as plataformas de um dos cartões postais de São Paulo viram palco de mini horas do rush em seus horários menos movimentados. Nos momentos em que a demanda de usuários é muito grande, o fluxo é impressionante. E é nas entranhas da Estação que as exposições da Linha da Cultura acontecem. E desde a última sexta-feira (05), a exposição “Nunca me calarei”, do fotógrafo carioca Márcio Freitas, atrai todos os olhares.

“A gente passa com pressa e quase não vê. É lindo! Muito bonito!”, disse a carioca Jéssica Dotta. Funcionária pública de passagem por São Paulo, cruzava as galerias da Estação da Luz ao lado de sua amiga, a brasiliense Samara Machado, também funcionária pública e admirava o trabalho do fotografo. Mas, ambas mantinham a preocupação: “Acho que os homens não vão se conscientizar com as imagens”, avalia Samara. Jéssica é mais taxativa: “Tem que ser algo mais chocante para que a mensagem atinja o público masculino”.

A ação realizada pela ONG Rio de Paz já havia se apresentado na praia de Copacabana, Rio de Janeiro e no vão do MASP, São Paulo. Fernanda Vallim Martos é coordenadora da ONG em São Paulo e não esconde a empolgação: “Tá bem impactante, né? Bem legal!”. Fernanda expressa a intenção de realmente atrair os olhares para um assunto que ainda desconforta e é considerado tabu na sociedade brasileira: a violência doméstica e sexual contra as mulheres.

Na placa que descreve a intenção da ação é possível ler: “Olhar nos olhos das vítimas e perceber a dor que há nelas pode ser um importante passo na sensibilização de cada um de nós frente à barbárie; esse é o motivo pelo qual os painéis são tão grandes. Os rostos têm a marca de uma mão, em vermelho, que representa a tentativa de calar essas vítimas e que se tornou símbolo de luta pelo fim da violência cometida contra as mulheres no mundo todo.”. É proposital. E apesar do ceticismo (plausível) das mulheres em relação a como as fotografias afetariam os homens, muitos pararam e fitaram as imagens impressionados. Foi o caso do estudante de Administração, André Luiz: “É emocionante! Tem umas [mulheres] aqui que eu nem consigo encarar, outras eu consigo sentir a dor! Incrível!”. Sebastião Pereira de Almeida é metalúrgico e após minutos olhando modelo por modelo, revelou: “Senti como se cada uma fosse minha filha, minha esposa, minha mãe… O homem… Nós é tudo uns ogro, mesmo! [sic]”.

A exposição “Nunca me calarei” fica em exposição na Estação da Luz até o dia 25 de Agosto.


*Publicado originalmente no portal Ondda