Cristovam Buarque sim, é a esquerda que a direita gosta

Foto: Edmilson Rodrigues/Agência Senado

Não se trata apenas do posicionamento do senador diante do processo de impeachment de Dilma Rousseff. E sim das suas convicções para ter decidido tal posição: para Cristovam Buarque, “o lugar da esquerda hoje não é mais na economia” que tem que ser “eficiente e não justa”.


Por Francisco Toledo

Algumas pessoas rasgam a sua história aplicando medidas impopulares e questionáveis. Outras não precisam nem ocupar a presidência para carregar tamanha façanha.

E esse é o caso do senador Cristovam Buarque (PPS).

Ex-militante do grupo Ação Popular, que serviu de resistência contra a ditadura militar, foi exilado na França. Filiado ao PT, ocupou o cargo de governador no Distrito Federal nos anos 90. Lá, deu o primeiro passo do que seria a política de educação do governo Lula, adotando iniciativas como o programa Bolsa Escola, criado para promover a permanência na escola pública de crianças de 7 a 14 anos, beneficiando mais de 25 mil famílias.

Como ministro do governo Lula na pasta da Educação, conseguiu aplicar de forma efetiva a mesma política pública em nível federal.

Mas isso foi até 2006.

De lá, se filiou ao PDT por reconhecer uma suposta “identidade ideológica” com o programa defendido pelo ex-governador Leonel Brizola. Foi candidato do partido para a presidência naquele ano, ficando em 4ª colocado no primeiro turno, com 2,64% dos votos — ficando atrás de Heloisa Helena, então candidata do PSOL, que ficou em terceiro.

E mesmo após sugar o PDT, tendo em vista a possível candidatura do ex-governador Ciro Gomes para a presidência em 2018, mudou para o PPS — partido no qual ele deseja ser mais uma vez candidato daqui a dois anos.

Sua trajetória mostra claramente os caminhos escolhidos por Cristovam Buarque, ainda mais nos dias em que vivemos — delicados para a democracia e para a estabilidade dos direitos trabalhistas conquistados pela população brasileira.

Em busca de uma suposta auto-promoção política, visando o ano eleitoral de 2018, Buarque deve seguir o caminho do senso comum na votação final do impeachment de Dilma Rousseff, se posicionando a favor de seu afastamento. Até ai nada mais do que o já esperado por um político que busca “apoio popular” para as próximas eleições presidenciais.

O problema começa quando o senador fala sobre os motivos que o levaram a tal decisão.

Não foram as pedaladas. Não foi a corrupção.

Segundo publicado pelo Huffpost Brasil, o impeachment de Dilma “vai ajudar a esquerd a rejuvenescer”. De forma completamente egoísta, Cristovam tenta agora se apegar ao campo progressista da sociedade como uma suposta “alternativa de esquerda” ao projeto político do Partido dos Trabalhadores.

Mas tem mais: para Cristovam, a esquerda precisa desapegar na economia: “O PT e outros partidos precisam entender que o lugar da esquerda hoje não é mais na economia. (…) A economia tem que ser eficiente e não justa. A sociedade é que tem de ser justa”, disse o senador.

Aquele mesmo homem que trabalhou nas décadas passadas com a intenção de mostrar o papel do Estado como articulador de políticas públicas em benefício da população mais pobre e periférica da sociedade, hoje acredita que o Estado não tem a legalidade de dar pitaco sobre a economia — promovendo exatamente a mesma política do presidente interino Michel Temer.

Será que Cristovam ficará satisfeito com os cortes nos direitos trabalhistas, que já devem ser encaminhados até o final deste ano no Congresso?

Ou pior. A privatização em massa do sistema carcerário federal, além dos riscos que a educação pública hoje sofrem diante de um possível avanço do mercado aliado ao governo Temer.

Por isso a expressão “a esquerda que a direita gosta” nunca fez tanto sentido para mim quanto agora, em relação ao senador Cristovam Buarque.

Ele faz parte daquela esquerda inofensiva, que apesar de ter um belo histórico, hoje vive de restos. Não produz absolutamente nada de novo e concreto para o debate em torno de pautas populares. Pelo contrário, anda de mãos dadas com aquilo que de pior existe hoje na política brasileira: os grupos que antigamente ele mesmo combatia, por causa da corrupção em massa e das políticas anti-populares praticadas.

Cristovam é mais do que uma decepção.

Cristovam é a imagem daquilo que jamais poderemos nos tornar.


Francisco Toledo é co-fundador e fotojornalista pela Agência Democratize em São Paulo