eDemocratize
May 12, 2016 · 5 min read
Foto: Felipe Malavasi/Democratize

EXCLUSIVO: Em conversas por e-mail que foram vazadas, funcionários e pais articulam desocupações nas escolas de São Paulo. Na Etesp, o professor e diretor Nivaldo Jesus dos Santos chega a cogitar confronto entre estudantes como forma de acabar com as ocupações.


Uma série de e-mails trocados entre diretores, professores e pais de alunos acabaram vazando na Internet nesta semana, em São Paulo. O Democratize teve acesso e realizou uma investigação para entender o conteúdo de cada um deles.

O e-mail mais grave relata sobre a Etesp, uma das primeiras escolas ocupadas em São Paulo neste ano pela falta de merenda na rede pública.

Na conversa estão o Diretor da unidade, Professor Nivaldo Jesus dos Santos, e o professor Julius Cesar José Capellini.

Logo na primeira mensagem, Nivaldo relata sobre o “comunicado da superintendência”, que “não pode incentivar o confronto” (para desocupar as escolas). Porém, o diretor da Etesp sugere a possibilidade de utilizar um possível conflito entre estudantes pró e contra a ocupação para desmantelar a mobilização, seguindo o exemplo de outra ETEC ocupada em São Paulo, a Basilides de Godoy. Veja:

“Julius, boa tarde!
O comunicado da superintendência não pode incentivar o confronto, porém ela confidenciou para os diretores que se os alunos do noturno desejarem assistir aula, que entrem em confronto com os manifestantes garantindo o direito as aulas, mas que os professores e a equipe de gestão procurem não se envolver, deverá ser entre alunos. Veja o que aconteceu ontem (3 de maio) no Basilides de Godoy, os alunos do noturno derrubaram o portão e passaram por cima literalmente dos manifestantes e foram ter aulas.
Atenciosamente,
Nivaldo”

O diretor da Etesp é conhecido por conta de seu autoritarismo, segundo secundaristas que estudam na escola.

Vários seguranças fazem a “guarda” da Etesp para evitar a entrada de jornalistas no local, mesmo quando ocupado pelos estudantes — ordem que foi dada diretamente por Nivaldo.

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

No primeiro dia de ocupação na Etesp, uma mãe de um dos secundaristas que ocupavam a escola afirmou que “o Nivaldo não tem diálogo nenhum sobre merenda, sobre absolutamente nada”.

O e-mail acima escrito pelo diretor da Etesp logo foi respondido pelo professor Julius Cesar, que fez questão de alertar Nilvado sobre a possibilidade de “confronto” entre os alunos.

“[…] O referido comunicado diverge da informação passada por você para os professores (inclusive eu) e alguns alunos que se encontravam junto aos professores no final da tarde/inicio da noite de ontem ao lado da entrada do prédio Ary Torres.

A informação que você nos passou é que o Centro Paula Souza apoiava o confronto entre alunos que desejavam assistir as aulas e professores contra alunos que realizavam a ocupação no prédio. Entretanto, conforme pode ser visualizado no item 3 do comunicado publicado, o conflito deverá ser evitado.”

O “item 3” citado por Julius faz parte do comunicado do Centro Paula Souza aos pais e alunos que são contra as ocupações. Veja abaixo:

3) Evitar a ocorrência de conflitos com alunos/manifestantes, tendo sempre como diretriz as disposições da legislação institucional e demais normas aplicáveis;

O Democratize procurou o diretor da Etesp para conversar sobre o conteúdo encontrado nos e-mails, mas não foi respondido pela assessoria. O Centro Paula Souza afirmou não ter declarações sobre os e-mails vazados, incluindo o do diretor Nivaldo.

Outras mensagens graves foram encontradas na lista.

Em uma delas, um homem chamado Tulio Schargel, em conversa com Rosangela Cavalcante, sugere o corte de água e luz “contra o Centro Paula Souza e a Etesp posteriormente”.

Veja abaixo.

No final do e-mail, em “PS: Rosangela: cortes de água e luz podem ser usados contra CPS/Etesp posteriormente…”

Durante a ocupação no Centro Paula Souza, que começou no dia 28 de abril, estudantes alegavam que a diretoria colocava o ar condicionado no máximo para espantar os alunos — a ocupação ocorreu justamente no período em que as temperaturas abaixaram em São Paulo.

A mesma Rosangela Cavalcante aparece em outro e-mail tentando articular uma “desocupação com viés dos alunos” na Etesp e nas demais ETECs ocupadas — só que na realidade tratava-se de ações da APM, Associação de Pais e Mestres.

Em um e-mail encaminhado para um homem chamado Odair S. Almeida (que é diretor executivo da APM), Rosangela diz que “não imagina que os manifestantes se rendam a isso [as táticas colocadas em prática pela APM para desocupar as escolas]”. Dizendo que os ocupantes lhe “parecem determinados”.

Ela vai além e fala sobre uma página da APM no Facebook que se encontra desatualizada: “Pensei que poderíamos fazer algumas publicações esclarecendo aos jovens e suas famílias sobre as consequências da perda de aulas”. Ela também cita a questão da merenda, como algo que apenas se resolveria a longo prazo por conta da burocracia: “Até para que entendam que a vida é assim, normalmente não existem soluções imediatas”.

No mesmo e-mail, um homem chamado Kazuo Nishimoto questiona sobre a existência de “professores apoiando estudantes radicais [ocupantes]”, incitando uma espécie de caça aos docentes que apoiam as ocupações nas escolas do Estado. A mensagem foi encaminhada para a professora Marcia Xavier Cury.

“Cara Profa. Marcia

Obrigado!
Existem alguns professores que dão apoio a estes estudantes radicais? Os que estão ai, que querem aulas, poderão ajudar em diversas atividades que estou propondo.
Preparar lista dos alunos (todos os alunos de manhã, tarde e a noite), ter e-mails de todos os pais de alunos (menores) e alunos maiores, telefones de todos os pais se tiverem, etc.
Mas, precisamos alinhar com todos do APM para estas ações.

Kazuo”

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Para ter acesso aos e-mails detalhados nesta matéria, veja a lista abaixo:


Reportagem por Francisco Toledo, com informações de Carol Nogueira, para a Agência Democratize

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