E se Bernie Sanders fosse candidato independente?

Com a pré-candidata Hillary Clinton avançando nas primárias após a “super terça”, candidatura do socialista democrata Bernie Sanders começa a se distanciar da realidade — pelo menos dentro do Partido Democrata. Mas, e se ele tentar a presidência de forma independente?
Nesta terça-feira (1), ocorreu a tradicional “super-terça”. Cerca de 11 estados votaram e decidiram nas primárias qual pré-candidato deve enfrentar os republicanos nas eleições gerais deste ano para a presidência dos Estados Unidos.
O socialista democrata Bernie Sanders venceu em quatro estados: Colorado, por 59% contra 40% de Hillary Clinton; Minnesota com 62% contra 38%; Oklahoma com 52% contra 42%; e seu estado natal, Vermont, com um massacre de 86% contra apenas 14% da ex-primeira dama.
O problema foram as derrotas. Cerca de 6 estados ficaram nas mãos de Clinton com facilidade, incluindo uma grande vantagem em Alabama, onde ela contou com 78% dos votos contra apenas 19% de Sanders. Em contra-partida, Massachussets foi uma disputa árdua entre os dois pré-candidatos, com um empate técnico — Clinton com 50% dos votos, e Sanders com 49%.
No total de delegados — sem contar os super-delegados -, Clinton avança com 577 contra 386 de Bernie Sanders. Para que o pré-candidato vença as primárias, ele precisa de 2.383 delegados. E é ai onde Sanders pode enfrentar problemas.
Por ser um pré-candidato com ideias que, para os Estados Unidos parecem “radicais demais”, o senador de Vermont ainda assusta boa parte do grupo majoritário institucional dentro do partido - ou seja, congressistas, prefeitos e governadores, que possuem poder de voto como super-delegados. A tendência é que Hillary Clinton consiga vencer o socialista no número de super-delegados, forçando Sanders a apostar nas primárias estado por estado.
Veja como está feita, até o momento, a divisão de votos e estados para cada pré-candidato democrata:

Teoricamente, Sanders ainda pode apostar em oturos estados-chave mais ao norte e oeste dos Estados Unidos, como a própria Califórnia. Assim, conseguiria repetir o mesmo fenômeno que o atual presidente, Barack Obama, nas primárias de 2008 - não por acaso, também contra Hillary Clinton.
O problema são, novamente, os super-delegados. Obama conquistou a maioria deles em 2008, o que parece ser um cenário não tão similar ao de Sanders atualmente.
Por isso, muitos começam a defender uma possível candidatura independente para a presidência dos Estados Unidos, por Bernie Sanders. Ou seja: fora da máquina partidária dos Democratas, se baseando principalmente na chamada “revolução política” defendida pelo senador.
Membro do conselho da cidade de Seattle, a socialista Kshama Sawant, defendeu no dia 27 de fevereiro que Bernie Sanders tentasse a presidência de forma independente, caso não conseguisse a aprovação dos democratas. Em discurso durante a “Marcha por Bernie”, reunindo 700 pessoas em Seattle, ela disse: “Nós não podemos permitir que o nosso movimento e o movimento de Bernie seja aprisionado por um sistema de dois partidos que fazem parte do establishment corporativo e capitalista… Nós precisamos de um partido novo, dos 99%!” - disse para a multidão.
Apesar do entusiasmo em uma possível candidatura independente, Sanders precisaria ser capaz de mobilizar um grande número de candidatos para o Congresso. Vale lembrar que o próprio presidente Barack Obama, mesmo com suas políticas moderadas, enfrentou dura resistência em um Congresso controlado por republicanos. O próprio pré-candidato Ted Cruz, do GOP, fez parte do boicote contra Obama, paralisando o Congresso por semanas contra o Obamacare, programa de saúde do governo federal.
Sem o Congresso, Sanders seria obrigado a governar por decreto, e enfrentar dura resistência e até mesmo possibilidades de golpe contra seu governo popular.
É preciso analisar se toda a base de mobilização criada por Bernie Sanders desde o ano passado conseguiria resistir de forma independente. A possível vitória de Donald Trump pelos republicanos, apesar de ser um desastre político internacional, é positivo para o senador de Vermont: ao contrário de Hillary, ele seria a única opção viável para derrotar o bilionário republicano, segundo pesquisas divulgadas recentemente.
Muitos críticos também apontam uma possível “divisão política” dentro dos Democratas caso Hillary vença. A base do partido em vários estados considera Clinton tão perigosa quanto os republicanos, por conta de não possuir uma estrutura de ideias e projetos estável, sempre mudando o discurso com o passar do tempo. Empolgados com a campanha de Sanders, a possibilidade de um racha dentro dos Democratas é real e pode acontecer caso a ex-primeira dama vença as primárias.