Estudantes e professores vão à ALESP exigir a abertura da CPI da Merenda

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Aconteceu na tarde da última terça-­feira (23) um protesto exigindo a abertura de CPI para apurar a Máfia das Merendas. Cerca de 1000 pessoas foram à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Houve tumulto e empurra-­empurra, graças a mais uma ação desastrada da PM.

O escândalo das merendas não parece tomar muito espaço na mídia tradicional brasileira, mais preocupada com criacionismos e ficções do que investigar, por exemplo, o fechamento das salas de aula por parte do governo Alckmin, apesar da decisão em contrário da justiça.

Informações do blog ImprenÇa dão conta de que o escândalo é antigo e remonta ao ano 2000. Já foi investigado pelo Ministério Público na pessoa do antigo Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Fernando Grella. A informação de que o dono da empresa investigada à época é amigo íntimo do pré­-candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSDB, João Dória Jr, também não parece ser relevante para a grande mídia.

E como o governador decretou recentemente sigilo nos registros policiais por módicos 50 anos, a PM que mais mata no Brasil seguirá atuando com truculência e ineficiência — apenas 2% dos crimes em São Paulo são “investigados”; não por acaso o mesmo número de flagrantes no Estado — fato relatado recentemente por este Democratize.

Cientes de tudo isso, APEOESP e entidades estudantis resolveram não esperar 50 anos para fazer alguma coisa — esperar a imprensa anunciar seria brincar de “A Espera de um Milagre”, com o perdão do filme antigo — e foram até a Assembleia Legislativa de São Paulo para pressionar os deputados a respeito da criação da CPI das Merendas.

Para que a CPI saia do papel seriam necessárias 32 assinaturas. O deputado estadual do Partido dos Trabalhadores, João Paulo Rillo, afirma ter 22 assinaturas, entre elas a do próprio Fernando Capez (PSDB), um dos principais envolvidos no desvio de verbas — o que demonstra a certeza de que a CPI não existirá ou, caso exista, não fará seu papel.

Izabel Noronha, a Bebel, presidenta da APEOESP falou com a reportagem a respeito do protesto. “Aqui da APEOESP tem 500 pessoas, somos a maioria. Mas aqui tem movimentos sociais, estudantis, todo mundo. A gente sabe que as crianças que mais precisam são aquelas que vão para as escolas públicas. Eu tenho esperança de que ela [a CPI] saia sim. A esperança é que a pressão popular faça algum efeito.”

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Durante a sessão deputados governistas falaram sobre os mais variados temas, para não entrar na questão das merendas. O deputado Telhada (PSDB) mostrou um vídeo onde um policial auxiliava um jovem — branco — acidentado e foi vaiado. Durante a vaia citou o regimento interno para pedir à presidenta da sessão que expulsasse as pessoas que estavam na galeria, inclusive com o uso da força se necessário.

O deputado do PSOL, Carlos Giannazi interrompeu a fala de Telhada para lembrar da máfia das merendas. Já Lecy Brandão (PCdoB) foi mais explícita “Nós temos lado. E não é o da mídia corrupta. E, Coronel Telhada, ninguém aqui é contra a PM. A gente é contra o extermínio da juventude negra” ­ disse antes de ser ovacionada. Depois, fez um discurso a respeito da importância da CPI e afirmou que o PCdoB jamais se furtaria de assinar o pedido, mas que quer uma Comissão que apure de verdade, não uma que seja superficial.

Enquanto os deputados e deputadas discursavam a PM tratava de iniciar uma confusão. Estudantes queriam entrar na galeria (que estava quase completa, mas não inteiramente lotada) para acompanhar a sessão e foram impedidos pela PM.

A 1a tenente Danielle Munhoz, além de tentar impedir que a imprensa fizesse seu trabalho — empurrando profissionais e pedindo para um sujeito entrar na frente das câmeras — resolveu que iria fechar a porta que dava acesso à galeria, apesar de estar diante de cerca de 70 estudantes que gritavam palavras de ordem. Desnecessário dizer que a medida imprudente poderia ter acarretado em agressões de ambos os lados.

Veja o vídeo:

O estudante que fecha o vídeo é Igor Gonçalves, 20 anos, diretor da União Paulista dos Estudantes Secundaristas afirmou que a intenção dos estudantes com o ato era constranger os deputados que ainda não assinaram o pedido da CPI. “Nós sabemos que esta casa é o berço dos tucanos e que o principal agente do roubo das merendas é Fernando Capez, então a gente acredita que só com muita pressão dos movimentos populares e dos estudantes é que vamos conseguir emparedar o governo.”

É a mesma opinião de Douglas Izzo, presidente da CUT de São Paulo e dirigente da Frente Brasil Popular — que reúne mais de 65 entidades do campo, da cidade e entidades sindicais. “Nós estamos aqui fazendo uma mobilização para pressionar, em especial a bancada do governo, para abertura de CPI, diante da investigação que está sendo feita pela Polícia Civil. Nós achamos que esta casa tem a obrigação de apurar os fatos que envolvem o desvio de recursos da merenda escolar.”

Alguns estudantes puderam entrar na galeria após a intervenção de deputados de oposição, que negociaram com a Polícia Militar, encerrando o tumulto e evitando agressões.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Por Victor Amatucci do Blog ImprenÇa, exclusivo para o Democratize