Geddel e a ofensiva do governo Temer em defesa do Caixa 2

Foto: Beto Barata/PR/Fotos Públicas

Depois de tentar aprovar a anistia para o Caixa 2 nesta segunda-feira (19) — sem sucesso — , foi a vez do ministro da Secretaria de Governo afirmar publicamente que existe “preconceito e histeria” sobre o tema, e que quem praticou Caixa 2 não pode ser punido. Aos poucos, se cria uma trama do governo Temer em defesa da prática.


A tentativa fracassada de anistiar políticos que utilizam da prática de Caixa 2 na Câmara dos Deputados gerou polêmica na opinião pública durante o começo desta semana.

Partidos como PSDB, PMDB, DEM e PP tentaram aprovar, sem sucesso, a anistia nesta segunda-feira (19), em uma votação feita na surdina, diferente dos discursos contra a corrupção declarados abertamente durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Após a denúncia de parlamentares da Rede e PSOL, o tema foi barrado.

Uma derrota para os partidos citados, mas principalmente para o governo de Michel Temer (PMDB), que teria articulado a votação.

Sem esconder isso, o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, deu uma declaração polêmica sobre a questão em torno do Caixa 2.

Em entrevista ao jornal O Globo, o responsável pela articulação política do governo afirmou que o Caixa 2 sofre “preconceito”, e que existe “histeria” quando é abordado. Na lógica do ministro, a prática não é criminosa atualmente — já que uma das propostas do MPF (Ministério Público Federal) é torná-lo crime, algo que ainda não aconteceu.

“Agora, quem foi beneficiado no passado, quando não era crime, não pode ser penalizado. Esse debate tem que ser feito sem medo, sem preconceito, sem patrulha e sem histeria”, declarou o ministro de Temer.

Na esquerda, o ministro Geddel Vieira durante reunião com parlamentares | Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Apesar de afirmar na entrevista que não fala em nome do governo, os sinais são claros. Trata-se de uma ofensiva da gestão comandada por Michel Temer para agradar os deputados e senadores que votaram contra Dilma Rousseff, em prol de um novo governo no Planalto. O próprio presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB), atacou de forma clara a Operação Lava Jato nos últimos dias, em mais um sinal de que seu partido não parece estar satisfeito com o avanço da operação.

Membros importantes do PMDB (como o próprio presidente Temer), PSDB (como o ministro José Serra e o senador Aécio Neves), DEM e PP são alvos constantes da Operação Lava Jato, que se avançar, deve colocar ambos contra a parede nos próximos meses.

Não por acaso, os tucanos ensaiam uma possível saída do governo Temer, mas sem nada concreto ainda estabelecido.

Em um caso similar, no ano de 2012, a defesa do ex-tesoureiro petista Delúbio Soares afirmou que a prática de Caixa 2 era um “deslize típico da democracia brasileira”. Em resposta, a ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) Cármen Lúcia afirmou: “Acho estranho e muito, muito grave, que alguém diga com toda tranquilidade que ‘ora, houve caixa dois’. Caixa dois é crime. Caixa dois é uma agressão à sociedade brasileira. Dizer isso perante o Supremo Tribunal Federal me parece realmente grave porque fica parecendo que isso pode ser praticado e confessado e tudo bem”, disse na época.

Agora, qual será a postura de Cármen Lúcia e do STF diante da ofensiva do governo Temer em defesa de tal prática?