Impeachment? Golpe? A França e sua lição de casa para a política no Brasil

Foto: Felipe Paiva/RUA Foto Coletivo

Nas últimas semanas, o Brasil e a França vivem dias de pura tensão política, mas por motivos diferentes. Enquanto no país europeu a classe trabalhadora se levanta contra a retirada de direitos trabalhistas, o Brasil vive seu FlaFlu, onde dois grupos políticos pró-ajuste fiscal manipulam a população em uma falsa polarização.

Você pode dizer: são contextos diferentes. Eu sei. Mas nem tanto.

O Brasil vive nos últimos 3 anos um crescimento significativo de políticas de austeridade aplicadas pelo governo petista para evitar uma crise mais grave na economia. A reformulação de direitos históricos como o seguro-desemprego é um sinal de alerta para a sociedade brasileira. A ampliação da política de terceirização também.

Estamos falando de medidas que servem apenas para conter o fluxo de caixa do Estado, que continua pagando valores bilionários para os grandes bancos através da infinita divida pública. Lastimável.

Do outro lado, temos uma oposição política que deseja isso e muito mais. O “plano Temer” é um verdadeiro canhão contra a classe trabalhadora ao redor do país. Barrar programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, que devem sofrer drásticas alterações em uma administração do PMDB no Planalto, terá um efeito a longo prazo muito pior do que em países que vivem situações ainda piores que a nossa, como a Grécia.

Agora reflita. Como seria a reação da classe trabalhadora na França, diante de tal cenário?

Jornalistas e escritores odeiam trabalhar com “se”. Mas faremos desse texto uma exceção, por conta do momento histórico em que vivemos.

Por muito menos que isso que já foi aplicado pelo governo Dilma nos últimos 3 anos, trabalhadores e sociedade civil estão de braços cruzados na França. Pararam as fábricas e os prédios públicos, universidades, bancos, transporte público. No dia 29 de março uma greve geral contra a nova lei trabalhista do governo do “socialista” Hollande foi iniciada.

Junto com ela, uma série de manifestações tem ocorrido por toda a França. Não apenas em Paris, como também na periferia. Imigrantes estão mobilizados. Lideranças feministas ganham voz e protagonismo dentro das centrais sindicais e dos movimentos estudantis.

Praças estão sendo ocupadas, seguindo como exemplo os Indignados da Espanha, em 2011. Até o momento, já são mais de 200 pontos ocupados por todo o país. Em Paris, o foco é na Praça da República, onde o fotógrafo brasileiro Felipe Paiva acompanhou no último sábado uma grande manifestação, que terminou em confronto com a polícia.

Quem comanda a política na França de hoje é o Partido Socialista.

Sigla histórica, fundada em 1905, conta com 218 mil filiados. Um partido que já teve como figura central o líder Jean Jaurès, assassinado em 1914. Jean Jaurès é uma das maiores figuras do socialismo francês. Orador brilhante, esta figura política toma a defesa dos mais fracos, dos trabalhadores das minas e do capitão Dreyfus. Para ele, “O capitalismo traz em si a guerra como as grandes nuvens carregam em si a tempestade”.

O Partido Socialista francês nunca foi visto como radical, e sim reformista. Assim como o Partido dos Trabalhadores, no Brasil.

Jaurès combatia os marxistas em debates e assembleias no começo do século XX, os tratando como radicais demais, utópicos, violentos. Não muito diferente de como Lula sempre tratou os comunistas no Brasil.

Sua história pode ser bem mais longa e complicada que a do PT. Mas serve de comparação, dependendo da situação. E essa é uma delas.

Assim como o Partido Socialista francês, o PT sob o comando do governo Lula adotou medidas assistencialistas, ao invés de seguir com políticas radicais em favor do trabalhador, como a reforma agrária e urbana. Privatizações, concessões, a ilusória “Parceria Público Privada”, tudo esteve presente no governo Lula, e foi ampliado ainda mais nos anos de governo Dilma.

Foto: Felipe Paiva/RUA Foto Coletivo

A diferença é que lá, a classe trabalhadora, sindical e estudantil, não permitiu que os trabalhadores se tornassem apenas números da máquina partidária — ao contrário daqui.

Independentes e unificados, a mobilização deste ano é uma prova de como a sociedade deve reagir diante de políticas absurdas de austeridade em tempos de crise, onde bancos continuam superando seu lucro a cada ano — seja aqui ou lá, como foi divulgado recentemente pelo Democratize.

Resumindo, é isso que a classe trabalhadora no Brasil deveria ter feito, desde o começo. Desde o momento em que Dilma Rousseff colocou um neoliberal na Fazenda, e uma ruralista na Agricultura. Desde o momento em que a Câmara dos Deputados passou a defender o ajuste fiscal e a ampliação da terceirização nas empresas. Não foi feito.

Algumas manifestações ali e aqui. Nenhuma paralisação que realmente demonstrasse força da classe trabalhadora. Nenhum diálogo com o movimento estudantil — e muito menos com a própria sociedade civil. Os sindicatos ligados ao governo não souberam lidar com a situação. Como parar as fábricas e ocupar as ruas, se é o governo que apoiamos que fez isso?

E agora o impeachment.

As manifestações pela democracia são válidas. O impeachment sem crime de responsabilidade é, de fato, um golpe político. Mas não estamos fazendo certo.

Simplesmente defender a atual gestão é ignorar o que ela faria caso o impeachment fosse barrado é ingenuidade, ou quem sabe mau caráter.

Para se manter no poder com certa estabilidade, o governo Dilma deve continuar aplicando medidas de austeridade, afetando programas sociais e direitos trabalhistas. E é isso que farão, sem dúvida, e sem um pingo de consideração com sua base, que tem ocupado as ruas em todo o país contra o impeachment.

Venderam uma ilusão e vocês compraram.

O que deveríamos ter feito diferente?

É só olhar pra França e verá a resposta.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize