Já teve golpe: o esquecimento e a lentidão da justiça na Chacina de Osasco

Foto: Cae Oliveira/Democratize

A turbulência na política em Brasília parece não fazer efeito na periferia de Osasco, palco de uma chacina brutal no ano passado. Para os moradores, a sensação de esquecimento e de injustiça é o verdadeiro golpe — dado não só pelo poder público, como também pela mídia e pela própria população.

“O que a senhora acha do Lula ser preso?”, perguntei para uma comerciante com quem conversei três dias depois da chacina no bairro do Jardim Munhoz. A encontrei novamente na semana passada, enquanto andava pelo centro da cidade e ela me reconheceu.

“Pra gente tanto faz, né? Se prender o Lula aparece um pior, dai prende esse depois e aparece outro, e a gente fica no esquecimento né? Tanto faz”, me respondeu com um misto de desesperança e humor.

Na época da chacina, no mês de agosto do ano passado, ela não quis conversar conosco em vídeo. Disse que temia mostrar o rosto, já que por ali todos se conheciam, e o bar onde mais de 5 pessoas foram assassinadas era cerca de 50 passos de seu comércio, uma pequena lojinha de doces e salgados. Então havíamos conversado “em off”, onde ela nos disse que sabia quem tinha cometido os crimes. “O bairro todo sabe. Não é segredo pra ninguém, né? Mas a gente não pode falar”, lamentou.

Foi a primeira reportagem da Agência Democratize. E como todo jornalista, a primeira é sempre inesquecível. O problema é que até hoje nada foi solucionado, e isso torna a pauta ainda mais viva do que se imagina.

Os últimos dias tem sido uma verdadeira avalanche de informações. A situação caótica no cenário político faz com que assuntos verdadeiramente importantes acabem ficando em segundo plano. Na última semana, dormi pouco e meu notebook se tornou parte do meu corpo, de tanto ter que escrever, acompanhar, editar material, etc. Mas para os moradores do Jardim Munhoz, na periferia de Osasco, tanto faz.

Aquela quinta-feira, 13 de agosto, não terminou até hoje.

O verdadeiro golpe contra a liberdade, democracia e justiça foi lá. Mas ninguém liga.

Conversei com aquela comerciante por cerca de 10 minutos, esperando o ônibus. Pra ela, o que aconteceu na política brasileira é um teatro, uma distração para os verdadeiros problemas da sociedade, principalmente da periferia. O Lula ser preso não vai mudar a vida deles, assim como ele ser eleito presidente novamente também não.

Recentemente, a PM matou um suspeito de crime considerado estopim da chacina em Osasco. Justamente a PM, maior suspeita de ter quadros internos envolvidos no massacre.

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

Foi no dia 29 de fevereiro, quando Thiago Santos de Almeida, suspeito do latrocínio do policial militar Ademilson Pereira de Oliveira, foi assassinado pela PM. A morte de Ademilson ocorreu no dia 7 de agosto de 2015, em Osasco. Essa foi a mais provável causa da chacina ocorrida 6 dias depois, que deixou mais de 19 mortos na grande São Paulo — Osasco e Barueri.

A morte de Thiago é um tiro no pé das investigações sobre a chacina, pois trata-se de uma peça chave para descobrir as reais motivações por trás dos assassinatos.

No dia 12 de fevereiro, poucos dias antes da morte de Thiago, a Justiça Militar revogou a prisão de 4 policiais militares presos por suspeita de participação na chacina.

Para a comerciante do Munhoz, esse foi o verdadeiro golpe.

“A gente sabe né? Eles foram soltos, e aconteceu isso ai. Quem disse que vão pra cadeia de novo? A gente sabe. O careca (secretário Alexandre de Moraes) não liga pra gente não. O governador também não. A Dilma tá nem ai. O Lula nunca pisou aqui, e isso porque ele diz que foi gente que nem a gente. Esse povo não se importa”.

A lentidão no processo de investigação, graças ao fato da Polícia Militar e a SSP interferir nas investigações da Polícia Civil, mostra uma face autoritária e repressora do poder público em São Paulo.

Enquanto manifestantes pró-impeachment alegam que o governo Dilma tenta manipular as investigações da Polícia Federal na Lava Jato, parecem não olhar para o próprio quintal quando o secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, faz com que a PM se envolva em investigações para blindar a organização e posteriormente o próprio governo estadual, do PSDB.

Por isso, o verdadeiro golpe já aconteceu. E ninguém fez nada sobre isso.

“Vamos vivendo. Tenho três filhos e uma neta pra criar, né? Não tenho tempo pra ficar nessa ai de protestar por isso e aquilo. A gente elege eles, eles deveriam fazer tudo por nós, já que votamos neles. Nem precisava protestar. Mas fazer o que?”


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize