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May 26, 2016 · 4 min read
Foto: Reuters

Em mais uma edição do Jornal da Globo nesta quarta-feira (25), o apresentador William Waack deu mais uma aula sobre o que não é jornalismo: por diversas vezes, fez questão de lembrar que o presidente francês é “socialista”, tentando justificar os protestos. Ele só esqueceu de uma coisa: os franceses estão nas ruas contra o capitalismo.


Percebendo que é impossível ignorar a onda de manifestações e greves na França, que ocorrem desde março contra a nova Lei Trabalhista, grupos de comunicação no Brasil começaram a tratar sobre o tema — mas daquele jeitinho que todos conhecemos muito bem.

Na edição desta quarta-feira (25) do Jornal da Globo, exibido em seu canal aberto no final da noite, o apresentador William Waack deixou bem claro como o jornalismo brasileiro tenta manipular as informações — até mesmo quando o assunto ocorre lá fora, na França.

“Na França, as reformas para quebrar a rigidez do mercado de trabalho, reformas introduzidas por um presidente socialista, elas foram repudiadas pelos sindicatos com uma onda de greves…”, disse o jornalista ao apresentar a reportagem, dando destaque ao “presidente socialista”.

Foto: Yann Renoult

A reportagem em si não explica nenhum detalhe sobre a nova Lei Trabalhista imposta pelo governo do francês de François Hollande, do Partido Socialista. Pelo contrário, tenta ao máximo gerar confusão.

A realidade é bem diferente.

O Partido Socialista francês seguiu o mesmo destino dos demais partidos social-democratas na prática na Europa: com a crise econômica e o fim da Guerra Fria, passaram cada vez mais para a direita quando o assunto é economia. Bem na realidade, dentro da esquerda francesa, o PS sempre foi visto como um “partido centrista”, que sempre negou a experiência soviética e do bloco do Leste, buscando através do capitalismo encontrar uma forma de “conciliação de classes” — mais ou menos o que vemos hoje no Brasil com o Partido dos Trabalhadores.

Os franceses estão na rua sim. Mas contra o capitalismo.

A nova Lei Trabalhista, apesar de ser introduzida pelo governo francês, foi uma exigiência da União Europeia para que o país consiga pagar suas dívidas com os credores.

Além disso, a nova lei defende uma maior flexibilização do trabalho — algo que na prática e na teoria vai contra qualquer política marxista ou social-democrata.

É austeridade. Ponto. E a austeridade serve apenas para cumprir os interesses de agentes externos, os financiadores. É o ápice do capitalismo e do mercado, quando o Estado se torna refém de bancos e multinacionais, que acabam ditando políticas internas ao redor da Europa, América Latina e Ásia.

Foto: Yann Renoult

Como foi noticiado pelo Democratize logo no começo das manifestações e greves na França, com essa nova Lei Trabalhista, deixa de haver um valor mínimo de indenização em caso de demissão sem justa causa; por acordo, os trabalhadores poderem passar a trabalhar o máximo de 44 a 46 horas por semana e de 10 a 12 horas por dia; os acordos coletivos de trabalho com negociação anual passam a ser negociados a cada três anos, a duração máxima de acordos coletivos será de 5 anos, sem garantia de retenção dos direitos adquiridos, entre outros.

Por isso, os franceses estão praticamente parando o país.

Manifestações ocorrem em várias cidades. Em Paris, tanto as regiões mais periféricas quanto o Centro vivem uma onda de ocupações nas praças, além de protestos violentos. As fábricas estão fechando, com os trabalhadores cruzando os braços.

A mobilização vai além: lideranças femininas surgem diante de centrais sindicais e movimentos estudantis.

Portanto, caro Waack.

Da próxima vez que falar sobre as manifestações na França, você já sabe: os franceses estão na rua contra o capitalismo defendido com unhas e dentes por você e seus colegas da classe política e empresarial brasileira.

E não adianta temer que a população brasileira se inspire na experiência francesa. Porque isso vai acontecer — cedo ou tarde.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize


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