O que os políticos brasileiros podem aprender com Bernie Sanders

Foto: Whitney

Na eleição presidencial do ano passado, tanto a então candidata Dilma Rousseff (PT) quanto seus maiores opositores, Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (então PSB) usaram e abusaram da chamada “publicidade negativa”, com o simples objetivo de denegrir a imagem do seu rival. O problema é que a sociedade se cansou desse jogo político e quer ouvir soluções. Nos Estados Unidos, o senador e presidenciável pelo Partido Democrata parece ter entendido a mensagem, e tem muito a ensinar aos políticos brasileiros.

Uma ação vale mais do que mil palavras: no recente debate realizado pela CNN com os cinco presidenciáveis pelo Partido Democrata, o socialista Bernie Sanders tinha em suas mãos a oportunidade de dar um possível cheque-mate na sua principal “rival”, Hillary Clinton.

Após a ex-secretária de Estado ter sido questionada sobre a polêmica envolvendo a divulgação de seus e-mails, o senador Sanders poderia ali se aproveitar da polêmica e tumultuar o debate, questionando Clinton sobre sua moralidade — ou falta de. Não o fez. Pelo contrário: “O povo americano está cansado de ouvir sobre essa droga de e-mails”, esbravejou o senador pelo estado de Vermont. Antes, disse concordar com o posicionamento de sua rival na indicação do partido para as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016, afirmando que a mídia norte-americana tem dado muito destaque para uma pauta que não interfere nas preocupações do povo americano, e que com isso ignora assuntos importantes — como os defendido por ele em sua campanha: a luta contra a influência de 1% da sociedade, os mais ricos, em cima da grande maioria que compõe os 99%.

Agora imaginem uma situação dessa no Brasil.

Imaginem um debate entre Aécio Neves e Dilma Rousseff, onde a atual presidenta se encontra envolvida em uma polêmica que coloca sua moralidade em questão. Qual seria o posicionamento de Aécio Neves, caso questionado sobre o fato? O mesmo vale se trocarmos os lados. O mesmo vale se incluirmos Marina Silva e outros nomes políticos que possuem status de presidenciável no Brasil.

Publicidade negativa é uma forma de confronto político rotineiramente utilizado por quem: 1) sofre por desespero de atenção/números; 2) é acomodado com o jogo político que tornou o sistema atual insustentável; 3) não possui propostas concretas, feitas com embasamento para discutir e debater entre candidatos e população.

Não pensem que trata-se de algo que não exista nos Estados Unidos: o debate entre os presidenciáveis pelo Partido Republicano neste ano foi um verdadeiro espetáculo para a mídia, no pior estilo TMZ que possa existir. Acusações, piadas sem graça, indiretas e mais acusações. Claro, a mídia adora isso — tanto lá como aqui, e acaba dando mais destaque para fatos assim do que para candidatos como Bernie Sanders, que colocam como lema de sua campanha o debate sobre propostas claras para a sociedade norte-americana, e não o oportunismo praticado cotidianamente pela classe política ocidental.

Foto: Natalie Behring

Não por acaso, sua popularidade tem crescido de forma inacreditável desde junho deste ano. Considerado inicialmente pela grande mídia como um nome fraco, que carrega nas costas o termo político mais odiado historicamente pela sociedade norte-americana — o velho socialismo — , poucos consideravam o senador uma ameaça para a imagem de Hillary Clinton.

Porém, hoje, Bernie Sanders é o candidato mais rockstar já visto nas últimas décadas a disputar as primárias pelo Partido Democrata e Republicano juntos. Suas convenções tem lotado estádios, colocando cerca de 20 mil pessoas em Los Angeles, 25 mil em Portland, e por ai vai: onde ele passa, os números são parecidos. Mas não se trata de apenas lotar arenas: seu crescimento em pesquisas feitas pela mídia sobre em quem o eleitorado democrata vai escolher para ser seu presidenciável em 2016 é absurdo: em pesquisa feita em setembro, o senador ultrapassava Hillary Clinton em pesquisa feita no estado de New Hampshire, colocando-se 7 pontos percentuais a frente da ex-secretária de Estado. O mais impressionante é que, dois meses antes, Clinton contava com uma vantagem de quase 20%. No estado de Iowa a situação parece caminhar para o mesmo destino: Clinton contava com uma grande distância para Sanders, que hoje caiu para menos de 5% — e a tendência pós-debate é que ele a ultrapasse nas próximas semanas.

Não se trata apenas de suas ideias que inspiram sonhos ao povo norte-americano: sua sinceridade e sua postura de acreditar naquilo que fala acaba aproximando o eleitorado, acostumado com a política ao modo Hollywood. É algo diferente, intenso e verdadeiro.

Enquanto aqui políticos mudam de sigla partidária como mudam de automóvel, são raros os exemplos de nomes que realmente praticam aquilo em que acreditam. E é disso que precisamos.

Um exemplo de publicidade negativa e falta de compromisso com aquilo que defende, foi a campanha da atual presidenta Dilma Rousseff no ano passado.

Um ano depois de acusar Marina Silva de defender a autonomia do Banco Central, e afirmar que tal ação traria consequências terríveis ao bolso e para a mesa do trabalhador, a vitoriosa presidenta Dilma Rousseff indica um neoliberal convicto para o Ministério da Fazenda, e aplica medidas de austeridade e ajuste fiscal, afetando diretamente as classes menos favorecidas, incluindo desempregados e aposentados. Meses depois, reafirma o corte de R$25 bilhões no orçamento da União, afetando programas sociais como o Minha Casa Minha Vida.

Ou seja: Dilma fez o que de pior existe nos dias de hoje em campanhas políticas — se utilizou de uma publicidade negativa com o objetivo de desgastar a imagem do oponente, e posteriormente não cumpriu com sua palavra com seu eleitorado, cortando aquilo que havia prometido não cortar — “nem que a vaca tussa”.

Vale recordar que não se trata de um problema exclusivo de Dilma Rousseff ou do Partido dos Trabalhadores. A tática de atingir a imagem do seu rival político, denegrindo sua imagem, é histórica e utilizada por todos os círculos partidários do Brasil. Quem não se lembra de 1989, quando Fernando Collor dizia que o então presidenciável Lula acabaria com a propriedade privada, entregando sua casa para alguns sem-teto, fazendo você dividir aquilo que você havia conquistado com pessoas que você nem conhecia?

É preciso ficar de olhos bem abertos nas eleições dos Estados Unidos, principalmente nas primárias dos Democratas, e ainda mais na figura do senador Bernie Sanders. O socialista democrata que, transformou a palavra “socialismo” de algo visto como quase satanismo para algo cool, hipster, inovador.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize