Polícia precisou prender assessor de Feliciano para mídia abordar caso de estupro

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Editorial: O ‘caso Feliciano’ só demonstrou com maior clareza que o problema do jornalismo brasileiro não é apenas institucional, mas principalmente moral.


“Nenhuma moralidade se pode fundar a partir da autoridade, mesmo que a autoridade seja divina.”

A citação acima é de Alfred Jules Ayer, educador e filósofo britânico, considerado um especialista quando o assunto é o individuo humano — e seus grupos sociais, políticos e culturais.

Apesar de ter falecido ainda nos anos 80, e o auge do seu trabalho ter sido atingido nos anos 50, a citação de Ayer nunca fez mais sentido do que agora.

Fica claro que o jornalismo brasileiro, corporativista e burocrático, considera-se o o grupo social e político defensor e praticante da moralidade. Gosta de vender a imagem de confrontador, apontando o dedo para a classe política quando acha necessário apontar. Porém, quando essa moralidade se funda a partir de uma autoridade, mesmo que “divina”, todo esse trabalho é refletido num mar de fracassos.

A mídia corporativa ter mantido o silêncio sobre o ‘caso Feliciano’ foi exatamente isso. O deputado, que se considera uma autoridade representante de “causas divinas”, anda do mesmo lado defendido pelo jornalismo corporativo brasileiro de hoje. O da falsa moralidade.

É o jornalismo que gosta de colocar o dedo na ferida de grupos opositores aos teus interesses. E com essa falsa embalagem, tenta vender a imagem de guardião da moral brasileira, da verdade e do respeito ao cidadão. É uma farsa.

Em qualquer país do mundo, um deputado acusado de ter estuprado e agredido uma jovem que pertence ao seu partido já seria motivo de reportagem de capa. Porém, não se trata de qualquer deputado. Além de seu cargo político, trata-se de um homem que ainda carrega nas costas o título de pastor, de fundador de uma igreja frequentada por milhares de pessoas — em sua maioria, pobres de bolso e ricas de esperança, talvez resultado de uma falsa moralidade vendida por um farsante.

Ele é deputado federal. Ele é pastor e fundador de uma das maiores igrejas cristãs do Brasil. É o representante político e religioso de um grupo conservador da sociedade que cresce cada vez mais. Foi cotado para disputar a prefeitura de São Paulo em 2016. Conta com centenas de milhares de seguidores nas redes sociais. Defensor da moralidade, dos bons costumes, e de ideias as quais não consegue seguir.

Mas isso não foi o suficiente.

Estadão, Folha de São Paulo, O Globo, Globonews, e tantos outros meios de comunicação tradicionais preferiram manter o silêncio.

Pensamos: onde foi parar o jornalismo investigativo?

Durante a semana, após a primeira matéria do blog Coluna da Esplanada, do UOL ter sido divulgada com printscreens confirmando a conversa entre a jovem vítima e o deputado do PSC, foi a vez de um áudio incompleto ser publicado. Na gravação, uma conversa entre o Chefe de Gabinete do deputado, Talma Bauer, junto com a jovem.

A partir daquele momento, bastava procurar as fontes próximas da jovem e dos jornalistas do blog para entender algumas coisas. E foi isso que fizemos. Descobrimos que:

  1. O áudio divulgado não estava completo, faltava um trecho;
  2. Os contatos dos amigos da jovem acreditavam que ela havia sido sequestrada pela equipe de Feliciano;
  3. Os vídeos publicados pela jovem após a primeira reportagem do UOL teria sido algo forçado pelos assessores do deputado.

Em menos de 2 dias de investigação, conseguimos entrevistar o melhor amigo da jovem, que também pertence ao PSC, além do professor procurado por Patrícia para denunciar o caso. E claro, conseguimos acesso ao áudio na íntegra, além de mais printscreens que deixavam claro o sequestro da vítima.

Na parte não divulgada pelo UOL do áudio, ainda conseguimos identificar o trecho da conversa onde a jovem admite que teve relação sexual com o deputado — porém, o ato não foi consensual, ou seja, estupro. Ela deixou isso bem claro para Bauer, que disse: “Isso morreu aqui”.

Os sinais eram óbvios.

Se os jornalistas da Folha ou do Estadão quisessem, teriam conseguido acesso muito antes que nós. Com maior estrutura, nome e bagagem, não conseguiram. Ou talvez não se interessaram.

Na manhã desta sexta-feira (5), a jovem foi com sua mãe para a polícia denunciar o caso. Só a partir deste momento que a mídia corporativa resolveu se interessar sobre toda a situação. Investigar, pra que? O importante é não trabalhar com suposições. Afinal, onde enfiamos aquele papo de moral mesmo?

Jornalismo investigativo no Brasil só existe quando o alvo é opositor ao programa político, econômico e social dos grandes meios de comunicação. De resto, é publicidade.

No final das contas, Bauer foi acusado de sequestro. Foi preso pela Polícia Civil. O Ministério Público, agora, vai atrás de Feliciano. Não apenas dele, como também de todo o grupo que comanda o PSC — até mesmo o ex-presidenciável Pastor Everaldo, presidente do partido que teria ameaçado a jovem caso ela divulgasse informações sobre o estupro cometido pelo deputado federal.

Agora imaginem se a jovem tivesse aceitado a oferta de Feliciano e de seus colegas.

Ou pior: que os capangas do deputado sumissem com Patrícia.

O que o jornalismo corporativo teria feito para evitar tal desastre? Absolutamente nada.

Pensem então na quantidade de casos similares, envolvendo figuras políticas, religiosas e sociais ligadas aos grupos de mídia no Brasil. Não se enganem: casos parecidos devem ter acontecido em nossa história, e nem ficamos sabendo disso.

O ‘caso Feliciano’ não serve apenas para demonstrar que a falsa moralidade da classe política não tem limite. Talvez, o protagonista de tudo seja justamente aquele que fez o máximo para se isentar sobre o assunto. O jornalismo brasileiro não existe. É um jornalismo baseado em interesses econômicos e políticos. Um falso jornalismo investigativo que cada vez mais se torna em uma publicidade caricata, digna de jornalecos de fofoca do Reino Unido.

Mais um sinal que precisamos, mais do que nunca, falar sobre regulamentação e democratização dos meios de comunicação.