Todos nós pagaremos o preço da escolha de quem não nos representa

Foto: Felipe Malavasi/Democratize

EDITORIAL | Em 2013, nós ocupamos as ruas acreditando que poderíamos fazer parte do processo político, forçando os engravatados de Brasília a nos ouvir. Três anos depois, são 81 senadores que decidirão o futuro de 200 milhões de brasileiros.


“Eu sei o nome dos responsáveis. Eu conheço todos os nomes e todos os fatos dos quais são culpados. Eu sei. Mas não tenho as provas. Não tenho nem mesmo os indícios.”

A frase acima é dita por um dos personagens criados pelo cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, marxista e figura histórica do cinema europeu assassinado nos anos 70. E o que essa citação representa hoje, no atual contexto brasileiro?

Muita coisa.

“Eu sei o nome dos responsáveis”, dizem aqueles 81 engravatados dentro de um grande salão em Brasília. Ao mesmo tempo, não conseguem reconhecer o próprio pecado que cada um carrega — e a própria responsabilidade perante tais pecados, seja desvios em uma estatal mineira ou trabalho escravo no campo.

Eu conheço todos os nomes e todos os fatos dos quais são culpados. Eu sei”, gritam eles, crentes no teatro montado para satisfazer uma necessidade midiática absurdamente irracional.

Mas não tenho as provas. Não tenho nem mesmo os indícios” — isso, não dizem. Talvez falte a sinceridade que o personagem criado por Pier Paolo carregava nos senadores que temos no Brasil.

Chega a ser uma loucura pensar como nós chegamos até aqui em um espaço de três anos, onde misturamos a bela utopia do impossível com o medo do conservadorismo arcaico que tanto já afundou o Brasil. Vale a reflexão: três anos atrás, ocupamos as ruas para mostrar ao político brasileiro que quem manda nesse país somos nós. Da periferia de São Paulo até cidades do interior da Bahia.

Reforma política? Achamos pouco. Nós colocamos na mesa a possibilidade de algo maior, de uma Assembleia Constituinte Popular com participação do povo. A tarifa zero era um assunto sério, que fez os empresários e prefeitos tremerem em seus contratos superfaturados. Grandes eventos internacionais para satisfazer a classe mais rica do país viraram motivo de uma revolta irracional e apaixonante do brasileiro.

Trocamos o grito de “gol” pelo grito de “vai cair”. É a tarifa que vai cair. É a Copa que vai cair. É a classe política que vai cair.

Mas no final das contas, somos nós que acabamos caindo.

Caindo no velho discurso midiático, pintado de espetáculo pra gringo ver.

Foto: Fábio Martins/Democratize

Dois anos depois de 2013, as ruas foram ocupadas, mas não havia mais paixão. Daquele amor irracional que o brasileiro gritava e sufocava na garganta, sobrou apenas a irracionalidade. Restou o sentimento de ressaca, de fim de festa. As bombas foram trocadas por bonecos gigantes. O jovem da periferia foi trocado por um pato gigante. Tudo gigante. Um espetáculo visual que não seria possível sem a transmissão em tempo real na TV.

E hoje, enfim, pagaremos o preço da escolha de quem não nos representa. Todos nós.

Podemos usar o pato da Fiesp para exemplificar o tamanho do estrago que devemos esperar: será gigante, feio, irracional, sem compaixão, espetacular.

E para entender os efeitos disso tudo, precisamos ter noção do que temos pela frente para compreender os motivos pelos quais esse salão em Brasília não nos representa.

Um exemplo: temos em nossa frente um Senado Federal composto por 81 cadeiras. Destas, apenas 12 são ocupadas por mulheres. Estamos falando de um país onde o sexo feminino é predominante: 51,4% do nosso país é composto por mulheres.

São caciques da política brasileira, montados em um valor exorbitante de dinheiro empresarial, capaz de mover montanhas com alianças sujas carregadas de podridão. Não são dos nossos interesses que eles querem saber — e sim da opinião daqueles que os colocaram lá. O eleitor? Não. O dinheiro. A fonte do dinheiro.

Foto: Fábio Martins/Democratize

O Senado Federal não nos representa.

A política institucional como assistimos tragicamente não nos representa.

Tudo isso foi dito três anos atrás. E hoje, mais do que nunca, mostra seu sentido no cenário mais traumático possível.

Não se trata mais da defesa da uma presidente afastada que cometeu seus erros políticos — o maior deles, talvez foi confiar ou achar que fazia parte desse grupo em específico.

Trata-se do que temos o risco de perder. De direitos trabalhistas até universidades federais. Da Previdência até o horário de almoço na empresa. Da liberdade de manifestação popular e sindical até o ato de levantar uma bandeira contra o presidente interino durante um jogo de futebol.

Se colocar contra o impeachment de Dilma Rousseff não é evitar o pior.

O pior já vivemos.

Amarildo não poderá voltar para sua família, nem o garoto DG. Sérgio Silva não conseguirá recuperar a visão de um de seus olhos. As comunidades removidas no Rio de Janeiro nunca mais irão voltar para suas casas. Os indígenas em Belo Monte nunca mais terão paz. Os sem-terra continuarão sem o sonho da reforma agrária. O preto e pobre continuará sendo preto e pobre.

O pior já vivemos.

Mas o trágico é a extensão do pior. O trágico é irracional, conservador, maléfico e blindado de críticas. O trágico é irreversível.

E não podemos tolerar isso.

A Agência Democratize, composta por jornalistas, escritores, fotógrafos e entusiastas da Comunicação, se posiciona no dia de hoje contra o afastamento da presidente Dilma Rousseff, e contra o plano político traçado por meia duzia de homens engravatados em Brasília.

Que fique registrado na História.