Let’s Eat vai limpar seu paladar na Era de #PeakTV

Depois de algum tempo escrevendo sobre televisão, em especial a TV que é produzida nos Estados Unidos e na Inglaterra, senti que precisava de um descanso da frequente enxurrada de boas comédias e dramas premiados, alguns deles criados justamente para isso…

Fonte: Print screen 식샤를 합시다 OP

Ainda assim, não imaginei que iria encontrar um descanso e, mais do que isso, um novo interesse em televisão, num drama produzido do outro lado do mundo. Bastante famosos e com fãs fiéis, os dramas coreanos (doramas) já estão presentes no Brasil faz um bom tempo, mas cheguei neles com um considerável atraso.

Graças à combinação fortuita de recomendações de amigos e os misteriosos algoritmos da Netflix, recentemente pude assistir Let’s Eat, um drama que também é comédia e tem uma pitadinha de thriller. Contando a história de Lee Soo-Kyung, que trabalha como secretária num escritório de advocacia, Let’s Eat narra uma vida solitária mas, com o perdão de todos os trocadilhos que são obrigatórios num texto sobre essa série, cheia de sabor.

Divorciada num país relativamente conservador, Soo-Kyung é apaixonada por comida, mas nem sempre consegue ir nos restaurantes que gostaria porque ou não dá conta de refeições fartas ou se sente incomodada de ser vista sozinha na mesa.

Eis que entram seu vizinho Goo Dae-Young, um vendedor de seguros, e a recém-chegada no prédio Jin-yi, a filha de um grande empreiteiro que foi preso por corrupção. Juntos, os três redescobrem valores simples, mas universais, como a importância da amizade e solidariedade entre pessoas que moram próximas, intermediados quase sempre por muita comida. De pratos bastante elaborados até pipoca de cinema e cachorros quentes, os três intercalam conflitos do cotidiano fazendo refeições fartas, filmadas com o cuidado de tomadas publicitárias que querem te deixar com fome.

Enquanto estrutura, Let’s Eat possui a dinâmica de uma boa e velha novela. Um casal que inicialmente se odeia descobre ao longo de 16 episódios uma série de similaridades que os aproximam. Ao seu redor, coadjuvantes cômicos — em especial a advogada Oh Do-yeon que roubava as cenas somente com sua presença física — enriquecem um universo que também retrata diversos desafios, em destaque, a importância de Soo-Kyung se reafirmar como uma mulher que está convicta de sua independência e precisa navegar por uma sociedade que a encara com desconfiança.

Apesar da estrutura familiar que, como brasileiros conhecemos muito bem, vai juntar o casal, resolver os conflitos e ensinar lições para todos os personagens no final, Let’s Eat me surpreendeu porque não só executa muito bem os princípios básicos do melodrama e romance, como tem um tom muito bem definido de comédia e, acima de tudo, é uma declaração de amor à importância da comida. Tanto na esfera individual, é pela comida que Soo-Kyung se realiza e que Dae-Young se mostra maduro, quanto no social já que dividir a comida é o que faz todos os personagens aprofundarem seus relacionamentos e amadurecerem.

Em um momento muito particular, quando Oh Do-yeon percebe que não vai realizar o sonho de ter a atenção romântica do colega de trabalho, Kim Hak-moon, a advogada se farta numa série de pratos dos quais ela sempre se privou. Enquanto come e chora, a Srta. Oh percebe que existem prazeres dos quais ela não precisava mais recusar e que, por meio deles, poderia conquistar muito mais do que apenas seu chefe.

Num cenário televisivo em que uma certa ideia de complexidade é procurada à todo custo, Let’s Eat mostra que, tal qual uma boa receita caseira, ingredientes simples ainda são capazes de produzir as melhores refeições ou, no caso, as melhores séries.

Let’s Eat foi ao ar na Coréia do Sul entre 2013 e 2014 e está disponível na Netflix.

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