O Diretor de Arte será substituído por um robô. E agora?

Todas as profissões serão transformadas pela tecnologia nos próximos anos, algumas deixarão de existir e outras novas surgirão. Porém, para o diretor de arte o caminho poderá ser diferente. Descubra.

Marcello Serpa. Publicitário mais premiado no Festival de Cannes.

Nos últimos anos, muito se tem discutido sobre a evolução das máquinas e a automação das profissões. Será que o mercado de trabalho vai ser dominado pela tecnologia? Se isso de fato acontecer, seria possível para um robô fazer uma direção de arte melhor do que a minha?

É bem provável que sim meu amigo!

Em 1997, Gary Kasparov era o maior jogador de xadrez de todos os tempos quando aceitou o desafio de jogar contra o supercomputador Deep Blue. “Nunca vou perder para uma máquina.” Disse confiante antes do duelo.

Porém, o que parecia impossível para Gary Kasparov aconteceu. O maior jogador de xadrez do mundo perde e Deep Blue se torna a primeira máquina a vencer o homem em um duelo de capacidade intelectual.

Gary Kasparov vs Deep Blue

Mas, apesar do feito histórico alcançado pela máquina pouca coisa mudou no mercado de trabalho naquele ano. Supercomputadores pesavam toneladas e o custo do Deep Blue em valores atuais foi de 15 milhões de dólares.

Hoje o cenário mudou. O poder de processamento de um supercomputador além de ser superior ele está em todo lugar revolucionando o mercado de trabalho e causando um grande impacto na economia de alguns países.

Nos Estados Unidos por exemplo, a Uber que já utilizava veículos autônomos top de linha da Volvo em Pittsburgh, anunciou recentemente a compra de mais 24 mil unidades para somar a sua frota.

Modelo Volvo XC90 da frota de veículos autônomos.

Na Suíça, drones estão ajudando hospitais a realizar entregas urgentes de bolsas de sangue e medicamentos. A Amazon nos Estados Unidos também faz uso de drones para entregas rápidas através do seu projeto Prime Air.

Em um teste na Austrália, uma máquina de radiografia criada por uma startup médica foi capaz de identificar o risco de um tumor malígno com 50% a mais de precisão do que 3 radiologistas experientes trabalhando em conjunto.

Essa nova realidade evidencia uma grande tendência de extinção de diversas profissões em diferentes setores da economia em todo o mundo, por isso, talvez você tenha se perguntado em algum momento:

O trabalho do Diretor de Arte também poderá ser substituído por alguma máquina?

Com o intuito de responder perguntas como essa, os pesquisadores americanos da Universidade de Oxford, Carl Benedikt e Michael A. Osborne analisaram a possibilidade de 702 profissões algum dia serem automatizadas.

Biblioteca da Universidade de Oxford

Com base em seus estudos eles constataram que quase metade dos empregos nos Estados Unidos estão em situação de alto risco de serem digitalmente automatizados ou substituídos pela tecnologia das máquinas nas próximas décadas.

Apesar do estudo ser baseado no mercado de trabalho americano, suas conclusões podem ser aplicadas mundialmente. Profissões como atendentes de caixa, contadores, taxistas e motoristas de caminhão possuem chances reais de serem automatizadas.

Todas as profissões serão transformadas de alguma forma. É bem provável também que não precisaremos mais de médicos, enfermeiros ou laboratoristas para tirar sangue, fazer ultrassom ou qualquer outro tipo de diagnóstico simples.

Mas e o Diretor de Arte? Onde ele se encaixa na lista desse estudo?

As chances reais para que um Diretor de Arte possa ser substituído por alguma máquina ou ter a sua função automatizada é de 2,3%, ou seja, é quase nula. Na lista das 702 profissões analisadas ele está na 95ª posição.

Ficou aliviado? Agora você pode ler o artigo com mais calma…rs!

Pelo que tudo indica, a criatividade ainda sobreviverá por muitos anos ao avanço da tecnologia, já que as máquinas ainda são incapazes de reagir emocionalmente, o que dificulta a possibilidade delas de se expressarem em forma de arte.

Porém, o artista plástico Harold Cohen tem trabalhado incansavelmente para resolver esse problema!

Harold Cohen já dedicou pelo menos metade da sua vida trabalhando na criação de AARON, um sistema capaz de fazer o que apenas algumas poucas pessoas talentosas fazem com maestria. Criar.

Harold Cohen e sua criação AARON.

Harold começou a se interessar por programação em 1960, e a partir deste momento ele começou a se perguntar se seria possível criar um sistema que, através de regras pré-determinadas por ele, poderia criar obras, sem a necessidade da interferência direta de qualquer pessoa.

Hoje, a máquina idealizada pelo artista plástico já consegue executar pinturas com total autonomia seguindo as regras pré-determinadas pelo seu criador.

Algumas já foram inclusive a leilão com lance inicial de 2 mil dólares cada.

Mas ainda fica a dúvida. AARON poderá um dia substituir um Diretor de Arte?

Harold criou o sistema, alimentou-o com suas ideias sobre composição artística e posteriormente AARON executou a ação de acordo com esses parâmetros. A concepção criativa portanto foi de Harold, pois foi ele quem criou uma máquina capaz de executar determinado tipo de pintura, mesmo que de forma autônoma.

Imagem de uma das pinturas criadas por AARON.

Mesmo com todo este avanço, Harold Cohen reconhece que será sim possível uma máquina substituir uma parte do trabalho do Diretor de Arte mas, será muito mais complexo do que ensinar um carro a dar voltas pelo bairro sozinho e que também não ocorrerá num próximo ano e nem mesmo neste século.

Além do mais, a função de um Diretor de Arte vai muito além de apenas reproduzir, ele tem que criar, compreender o sentido do trabalho, se reinventar e aí sim fazer uma boa composição que resolva um problema de comunicação.

Marcello Serpa

Marcello Serpa é de longe o publicitário que mais ganhou prêmios como Diretor de Arte no Brasil. Serpa ajudou a criar as campanhas que transformaram a Havaianas numa das primeiras grandes marcas brasileiras a conquistarem o mundo.

Porém, antes mesmo de se tornar Diretor de Arte, Serpa também se dedicava às artes plásticas. Seu avô era pintor e professor da escola de belas artes de Recife, por isso ele cresceu cheio de referências artísticas.

Mas foi estudando arte aplicada na Alemanha em que ele aprendeu a utilizar o seu talento de pintor em função de algo. Um logotipo, a capa de um disco, o cartaz de uma peça ou uma campanha publicitária.

Recentemente em uma entrevista ele falou sobre a sua aposentadoria, a sua vida morando no Havaí, falou sobre a possibilidade de voltar ao mercado e também explicou a diferença entre ser Pintor e Diretor de Arte.

Alguns dos trabalhos que tiveram a colaboração de Marcello Serpa.

Concluindo

É verdade que com o avanço atual da tecnologia algumas profissões serão automatizadas e outras até mesmo deixarão de existir mas, apesar de ser um pouco assustador existe uma grande oportunidade em tudo isso.

A realidade é que para cada carreira que a tecnologia elimina, sempre haverá uma onda de novos caminhos profissionais a serem explorados e criados. Assim como alguns dos empregos hoje — gerente de mídias sociais, designer de aplicativos, diretor de impacto ambiental — teriam sido inimagináveis em 1995.

Hoje, mais de 4 mil empresas em todo o mundo montaram seus próprios centros de formação e treinamento.

No entanto, pode até ser que um dia as máquinas e a inteligência artificial tomem o lugar de seres humanos em várias áreas. Isso não é algo ruim, especialmente se isso levar a um aumento da riqueza e do bem estar de todos.