A casa azul e branca

Hoje é uma data especial. Hoje o Sr. Abdias Sinfrônio de Araújo faria 93 anos, se ainda estivesse aqui. 
Pensando nele, lembrei da viagem que fiz à Araripina em julho de 2009. Fui até lá para visitar familiares que há muito não via e também por saber que meu avô materno, Sr. Abdias Sinfrônio, se encontrava bem debilitado pelo peso dos seus 84 anos de vida.

Muitas coisas me marcaram naquela viagem… Não foi uma viagem qualquer. De forma alguma!

Rever a casa azul e branca me fez voltar ao passado, aos memoráveis momentos vividos ali. Era lá que os 11 netos se encontravam nas férias (a 12ª neta, Nathalia, ainda não tinha vindo ao mundo). 
Nesse tempo o sono não chegava, nós passávamos a noite em claro na ânsia por um novo amanhecer. Um mês era pouco para os 11 netos tão apegados se reunirem para brincar, brincar, brincar…

Bons tempos… nunca esquecerei o tempero incomparável da comida de vovó, as cadeiras de balanço ultra-confortáveis, a chuva de balas de hortelã que vovô jogava da janela do seu quarto, o doce de leite em barra mais delicioso da Terra que vovô dividia em quadradinhos exatos para cada um dos seus netos, as muitas histórias de assombração da casa azul e branca de 1º andar, os pulos na escada que faziam vovó perder a cabeça, a árvore com florzinhas que viraram lindas pulseiras e colares, a buzina inconfundível do fusquinha azul de vovô, sempre em conformidade com a sua pontualidade inglesa… Tantas coisas!!! Tantas lembranças!! Tanta saudade!!

A questão era que em 2009 eu não estava ali para desfrutar de mais um mês de férias. Agora, a situação era outra. Eu estava lá principalmente para visitar meu avô, que já não podia se deslocar para João Pessoa.

As boas lembranças do passado contrastavam com a dura realidade do presente. Vovô, que nas minhas memórias fazia chuva de balas, dirigia seu fusca e consertava relógios minuciosamente, estava ali diante de mim sem andar, precisando de ajuda para comer, com dificuldades de respirar…

Passei três dias em Araripina vendo o esforço e o amor com que vovô era tratado. Vovó e tia Ângela mal podiam ir no domingo para a missa que elas tanto gostavam. Mas, como dizia um tio nosso, haveria outro lugar onde se pudesse estar mais perto de Deus senão ali, ao lado de vovô, cuidando dele? Certamente não…

Nos três dias que passei em Araripina, além de todas as lembranças que me vieram à mente, algo em especial me chamou a atenção. Uma cena que nunca vou esquecer! Todas os dias, vovô recebia um visita no final da tarde. Era o Sr. Pedro, um amigo dele dos tempos em que eram rapazes.

Toda tarde Sr. Pedro estava lá, sentado num banquinho ao lado de vovô. O mais interessante era que a presença dele era silenciosa, tanto porque vovô já quase não podia conversar e também porque Sr. Pedro não conseguia ouvir, pois devido à sua idade avançada, ele já estava praticamente surdo.

No entanto, eu nunca tinha visto um silêncio falar tanto!! Naquele diálogo sem palavras, eu ouvia frases de amor, de amizade, de incentivo, de lealdade!

Sr. Pedro passava um tempo ao lado de vovô até dar a hora de ele ir embora cambaleando na sua motocicletinha difícil de pegar. No outro dia, ele estava lá novamente, dialogando com o seu velho amigo…

Me lembro de ter perguntado a vovô se ele sabia quem era aquele homem que estava ao seu lado… e ele com dificuldade falou: “É o velho Pedro!”. Claro! Ele não iria esquecer um dos poucos que, mesmo naquelas circunstâncias, ainda reconhecia o valor de um grande amigo.

Passados três dias, mal havíamos saído de Araripina na viagem de volta à João Pessoa, recebemos a notícia de que vovô Abdias havia morrido. Voltamos, de coração partido, mas sabendo que a vida dele tinha valido à pena! Ele não viveu em vão… Os seus 84 anos de vida deixaram muitas marcas em todos que conviveram com ele e é por isso que hoje me lembro de meu avô vivo.

Hoje, dia 18 de outubro, vovô completaria 93 anos.

E hoje acho que é uma data oportuna para contar um segredo… Vovó me contou que no dia do enterro de vovô, chegou um senhor até ela e disse que gostaria de contribuir com as despesas do funeral. Mesmo na sua humildade, o senhor pediu que vovó recebesse os R$ 100,00 que ele queria dar. Vovó relutou, recusou, disse que não precisava, que aquele dinheiro iria fazer falta àquele senhor tão humilde, mas ele insistiu, implorou que vovó não fizesse a desfeita de recusar o que ele estava dando de coração. 
O senhor a quem me refiro, talvez nem precise dizer, mas é o Sr. Pedro, leal, mesmo após a morte do seu grande amigo.

Hoje, agradeço a Deus pelos anos que vovô esteve conosco, por ter tido a graça de ser neta de um homem tão inteligente e sábio como o foi Abdias Sinfrônio.

Hoje, agradeço a Deus pela vida de Sr. Pedro, pela lealdade e amizade até o “fim” e peço que Ele me permita ter amigos assim e, mais ainda, que eu seja uma amiga assim!!

Hoje, agradeço a Deus por todas as lembranças e experiências vividas na casa azul e branca…

Finalizo com uma das muitas frases que vovô sempre falava: “Nossos nervos são como burro ‘brabo’, temos que aprender a domá-los.” Abdias Sinfrônio

Obs.: Esse texto foi originalmente publicado em outubro de 2010.

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