Não há nada de errado, quebrado ou imperfeito com você

Kintsukuroi — A arte de consertar com ouro peças quebradas, valorizando a história e as transformações dos objetos.

Eu quero de te pedir para, por um único instante, colocar em uma caixa todos os pensamentos que te fazem se sentir, de alguma forma, imperfeito. Tranque nessa caixa a vozinha tão comum que repete “você não é bom o suficiente” ou aquela outra que diz “você não tem o que é preciso”.

Guarde também as ideias de que você não consegue fazer nada porque está sempre triste, que é uma pessoa preguiçosa, ou procrastina demais. Todo o resto que é só seu e eu, aqui de fora, não tenho como saber, ponha nessa caixa, pelo menos até o final desse texto.

Estamos prontos? Então vamos lá!

A primeira coisa que eu tenho para te falar é que não há nada de errado, quebrado ou imperfeito com você. Vou repetir, em letras bem grandes para que os seus olhos sejam obrigados à ver.

Não há nada de errado, quebrado ou imperfeito com você.

Todas essas vozes que te fazem se sentir assim, os pensamentos negativos, as dúvidas sobre o que é capaz de conseguir, nada disso é um defeito. A sua mente não está quebrada; pelo contrário — ela sempre dá a melhor resposta que pode aos estímulos que recebe.

Já ouviu falar em auto-sabotagem, por exemplo? É o nome para quando nós damos um passo atrás, se precisamos fazer algo muito importante, mas que também (parece) muito arriscado.

Quando, por exemplo, você tem uma ideia no meio de uma aula, ou de uma reunião, que poderia contribuir para esse momento, e acaba não falando nada por medo de ser visto como errado e por isso ser ridicularizado.

Um outro nome que poderíamos dar a isso é auto-preservação. Claro, levantar a mão e sugerir algo não vai fazer com que as outras pessoas na sala te matem, caso você esteja errado. Mas você, mesmo que não pense racionalmente nisso no momento, acredita que elas vão te afastar do grupo.

E durante a maior parte da evolução humana, ser afastado do grupo significava, de fato, a morte. Imagine quando viver em uma tribo de 200 pessoas já era arriscado, tanto por conta de grandes animais, quanto outras tribos, ou mesmo pela dificuldade em encontrar e armazenar comida e lidar com doenças que hoje são simples.

Ser expulso dessa comunidade e ter que lidar sozinho com todos esses problemas levaria qualquer um de nós a morrer em poucos dias, ou com sorte, viver mais alguns anos da forma mais precária possível, se escondendo no topo das árvores, tendo que caçar algo todo santo dia e cuidando das próprias feridas.

Hoje em dia, ser expulso da tribo seria o equivalente à uma demissão, por exemplo. Mesmo que os riscos não sejam mais tão grandes quanto encontrar um tigre faminto, ainda temos medo de deixar a nossa família desamparada, perder os benefícios que conquistamos naquele emprego, e até mesmo do julgamento das pessoas que consideramos importantes.

Não é sabotagem, é proteção.

E só para constar, eu não estou tentando te dizer que continuar se calando, mesmo quando tem uma grande ideia, é o ideal ou o correto. Eu só estou dizendo que é um comportamento com um alicerce de milhares de anos.

Na verdade, a única coisa que pode determinar se qualquer comportamento seu é certo ou errado são os seus objetivos.

Um ônibus para São Paulo não pode te levar para Nova York

Se você chegou num lugar em que não queria, foi o resultado do caminho percorrido. Não há nada de errado, além do caminho. Você não precisa ser uma pessoa melhor para chegar onde estava tentando ir, basta encontrar um mapa e seguir.

O mesmo vale para o que chamamos de fracasso. Você queria escrever um trabalho para a faculdade e tirar 10, mas passou dias enrolando e conseguiu apenas um seis com o que foi capaz de fazer na noite anterior à entrega.

Pesquisar e escrever um trabalho durante uma noite, quando deveria ter levado uma semana, não é o caminho certo para tirar uma nota 10. Você não precisa ser uma pessoa melhor para ter nota máxima no próximo trabalho, basta seguir o mapa e dedicar o máximo de atenção possível à ele.

Claro que o mapa não é o caminho, e pode ser que um professor meio perturbado não vá com a sua cara e te dê um 9.5 só para provocar. Da mesma forma, pode ser que um engarrafamento no caminho te faça chegar atrasado no compromisso aonde estava indo.

Não podemos controlar os resultados, mas temos domínio sobre os esforços — e se você faz tudo que pode para criar o melhor trabalho, mas não tira 10 porque o professor simplesmente não quis, você ainda terá conquistado o melhor resultado possível nas circunstâncias existentes.

Nesse caso, você sabe que mereceu um 10, mas também sabe que simplesmente não havia caminho possível para chegar até ele. É diferente que fazer um trabalho meia boca, tirar seis e se culpar por não ter dedicado o esforço necessário. Você saberá que não mereceu mais do que isso.

Mas uma coisa ou outra não te fazem ser alguém melhor ou pior, são caminhos, você optou por um deles e chegou ao lugar onde ele leva; agora pode escolher o outro e ir até o destino em que ele termina.

Quando ficar parado deixa de ser uma opção, caminhar sem destino é o pior dos erros

É muito fácil saber quando nosso objetivo é chegar até São Paulo, Nova York ou tirar um 10, e então ter uma noção sobre estarmos no caminho certo. Mas nem todos os destinos parecem tão claros na nossa mente.

Um exemplo que me agrada bastante é a ideia de liberdade. Você conhece alguém que não quer ser livre? Eu nunca vi.

Mas nem todos nós sabemos o que liberdade significa ao certo — e na verdade, ela não significa nada ao certo. Apesar de haver uma definição por escrito no dicionário, não existe um mesmo ideal de liberdade em cada mente.

Quer ver só?

  1. Viajar para onde eu quiser, quando eu quiser
  2. Trabalhar numa empresa que me dá espaço para opinar
  3. Trabalhar 14 horas por dia no meu próprio negócio
  4. Trabalhar 4 horas por dia e já conseguir me sustentar
  5. Estar com a minha família sempre que eles precisam
  6. Me relacionar a pessoa que eu quiser
  7. Me relacionar com quantas pessoas eu quiser
  8. Não viver em uma cela fechada
  9. Ter meia hora livre para andar na praia todo fim de tarde

Essas nove eu pensei rapidinho. Nem todas são o que liberdade significa para mim, mas são definições que eu compreendo. Se mais uma dez pessoas opinarem, a lista pode passar facilmente de 100 significados diferentes para a mesma palavra.

Não basta saber que deseja liberdade sem a clareza do que isso é para você, ou então pode ser que você acabe largando tudo pra fazer um mochilão quando só queria mesmo um emprego onde pudesse se expressar.

O mesmo vale para qualquer outro desses desejos universais com significado individual. Você pode querer mais amor, e sem saber o que isso quer dizer na prática, acaba sendo infeliz com alguém que diz “eu te amo” de meia em meia hora mas não se importa com os seus projetos, que é o seu desejo real.

Tente traduzir qualquer um desses conceitos: liberdade, amor, riqueza, felicidade, força de vontade, paz… em uma situação possível de ser observada e calculada. Não podemos observar se alguém vive “liberdade” — mas é fácil observar se a pessoa está dentro ou fora de um presídio.

Quando eu digo que “ficar parado deixa de ser uma opção” é porque não importa o que você esteja fazendo, isso está te levando para algum lugar. Se você passa o dia inteiro sem fazer nada, está ensinando à sua mente que não precisa fazer nada.

Na vida “ficar parado” é caminhar sem saber para onde está indo.

E olha, eu não sei há quanto tempo você está tentando sair de um caminho que não te leva até onde quer chegar, como a auto-sabotagem ou a preguiça, por exemplo, mas é muito provável que junto com esses comportamentos, venha a culpa por eles.

Se esse for o caso, então você precisa agir de forma diferente, o quanto antes. Eu não gosto de falar que alguém precisa fazer algo, mas essa é uma exceção, pelo seguinte motivo: quando você faz algo errado, se culpa, e não muda o comportamento está acostumando sua mente a entender que sentir culpa não é algo tão ruim.

Eu sei, eu sei, você não acredita nisso e acha que sentir culpa é errado — o problema é que os nossos hábitos não se formam de acordo com o que acreditamos, eles seguem aquilo que fazemos — e se o que fazemos é sentir culpa e continuar com o mesmo comportamento, nosso hábito será de sentir culpa e continuar com o mesmo comportamento.

Então mude, AGORA! Não basta ler esse texto e pensar que mais tarde faz o que precisa fazer; isso também vai ensinar algo para a sua mente: de que está tudo bem em fazer as coisas mais tarde.

Mais uma vez, não há nada de errado, quebrado ou imperfeito com você, a sua mente ou seu cérebro. Eles continuam cumprido a função de aprender e reagir da melhor forma possível para o que chega até eles.

Se o que chega é um objetivo claro (ganhar R$ 5 mil por mês), a resposta será um plano claro para conquistá-lo. Mas quando eles recebem um objetivo confuso (ficar rico) a resposta será confusa.

O que gera frustração, tristeza ou raiva com o seu próprio comportamento é apenas a falta de informação suficiente sobre o que você quer de verdade. Se o seu desejo é ter estabilidade no trabalho, talvez ter uma ideia e não falar nada não seja tão ruim assim — essa ação vai garantir a sua estabilidade no trabalho.

Provavelmente, essa noção sobre o que você quer de verdade é a informação mais valiosa do mundo. E ela não está guardada em um cofre pesado, ou um computador ultra-seguro. Está tudo dentro da sua mente, basta fazer o esforço de olhar para o mapa por tempo suficiente para entender onde quer chegar.

Agora! Antes que sua mente aprenda, mais uma vez, que não há problema em caminhar sem direção!