O que aprendi trabalhando com o lixo

É a primeira vez que escrevo sobre isso…

E posso dizer que trabalhando com lixo que aprendi grandes e valiosas lições…

Estava com medo de compartilhar isso… são poucas as pessoas que sabiam disso.

Pensei que poderia ser julgado… novamente, medo do que os outros iriam pensar… o que falariam a meu respeito…

Logo que abandonei minha carreira, uma das minhas principais tarefas era supervisionar um processo de reciclagem.

De cara, me senti mal.

Me senti menos, me senti pequeno, não mais digno, sem status, havia perdido todo o falso “glamour” que tinha… para que? Trabalhar com lixo…

Não me interprete mal, mas isso é a transcrição do que vinha da minha cabeça.

Como se fosse uma desonra sair de uma posição de Oficial para trabalhar com isso…e foi muito pesado para mim…

Mas não era só eu que achava isso. Quem estava a minha volta, vinha com uma cara de incrédulo: o que, você largou tudo para trabalhar aqui?!?

E isso foi me consumindo, comecei a acreditar que tinha feito merda em ter largado tudo… é o risco que se corre ao tomar uma decisão assim…

Comecei a acolher o que os outros achavam que seria melhor pra mim…

Até que eu percebi que era um processo de desintoxicação e purificação, pode-se assim dizer.

Literalmente um desapego… onde eu estava, havia material valioso que era simplesmente descartado e destruído.

Foi uma metáfora brilhante que a vida me apresentou na prática…

Como se o Universo estivesse dizendo: “olha meu velho, pra você começar algo novo, precisa por um ponto final no antigo, destruir e, a partir disso, construir…”

Aí foi o ponto de virada.

A penitência que eu julgava estar passando em intermináveis 12h à 14h de expediente tornaram-se minha escola e meu laboratório…

Desapegar da falsa identidade que eu acreditava, de julgar que eu era o tenente, que eu era bem sucedido, que eu era alguém com status.

Tudo isso ruiu.

Foi muito doloroso, “triturar” insígnias, condecorações e méritos… para quê?

Hoje eu entendo. Não joguei tudo fora… Honro todo meu passado, meu trabalho, minha dedicação e tudo o que conquistei.

E isso se encaixou perfeitamente como uma referência para mim, como um sinal, mas não mais como minha identidade que me definia como alguém foda ou não…

“Aceite o que quer que venha para você nas tramas do destino, pois o que se ajustaria mais adequadamente às suas necessidades?” — Marco Aurélio há mais de 2 mil anos…

Aprendi a ser grato pela vida. Analisando por um certo ângulo, depois que eu larguei minha carreira, minha parte profissional piorou.

Mas esse tipo de julgamento não cabe mais hoje. Se não nos apegamos mais a uma imagem construída, faz sentido ser melhor ou pior?

O que faz sentido pra mim hoje é ser grato pela vida, algo que desaprendi por um bom tempo e a vida me fez reaprender.

Grato pelo que vem, acredito que seja um bem supremo a todo instante que por vezes pode incluir um certo “mal” para ajustar o prumo.

Aprendi que não são os escritórios luxuosos que também frequentei vão me proporcionar a verdadeira felicidade ou andar em carros mais caros que vão me realizar profissionalmente.

É esse senso de “falta”, de estarmos sempre correndo atrás de algo maior, melhor, que está levando nossa geração ao bornout e outras doenças prematuras.

Aprendi a respeitar meu coração e a intuição.

Entendi do que se trata a nossa essência e que, sem vivermos nela, a vida torna-se vazia e sem sentido.

Estou liberto das máscaras e personalidades que tive que carregar até aqui.

Foi revirando o lixo (literalmente) que descobri o verdadeiro fim de um bem material de luxo que tanta gente cobiça…

Por vezes, deixamos de realizar aquilo que queremos, temos que trabalhar mais naquilo que não gostamos e, em troca, termos um adorno para poder sustentar uma imagem de bem sucedido...

Por fim, acredito que a nossa vida pode ser como aquele velho jogo de vídeo game, onde precisamos aprender a passar de fase.

E só conseguimos quando todas as “lições” foram aprendidas.

Foram momentos duros, porém necessários para me “permitir” desfrutar da vida que hoje eu levo sem uma carreira ou emprego formal.

O mundo que está a minha volta hoje é, pra mim, um reflexo de toda essa limpeza que fiz internamente, essa desconstrução e esse novo recomeço.

Gratidão a todas as pessoas que cruzaram por mim nesses quase 2 anos, as “boas” e as “más”. A paz que vivo hoje tem a contribuição de vocês!