Novo padrão de ilustração ContaAzul

Um projeto em construção que vai muito além do desenho.

Ouviu ilustração? Já pensou em pegar seu sketchbook para esboçar algumas coisas, certo? Calma aí… para um projeto de um novo padrão de ilustração de uma startup como a ContaAzul, não é só sair desenhando, aliás esse é o sonho da maioria dos ilustradores que conheço…desenhar por aí, sem lenço nem documento. Só que para construir um estilo de ilustração com consistência, os esboços no sketchbook são só uma pequena parte de todo processo.

Para começar um projeto desse nível, primeiro precisamos entender quais os objetivos que a empresa quer atingir através das ilustrações. O ContaAzul, para quem não conhece, é um sistema de gestão financeira online, sua promessa é facilitar a vida dos empreendedores para que dediquem mais tempo a estratégia de seu negócio e menos tempo a burocracias financeiras.

Essa startup quer comunicar o quanto é fácil e simples utilizar seu produto e precisa transformar esses conceitos que muitas vezes são complexos em uma didática visual rápida, descontraída e agradável de se entender. Além disso, também pretende demonstrar que não é apenas um sistema online, é um trabalho feito por pessoas para pessoas.

E por que criar um novo padrão?

Construir uma identidade própria requer pesquisa, muita pesquisa.

Hoje o sistema não possui um padrão único de ilustração entre produto e canais de comunicação como site, blog, redes sociais e muitas vezes, conforme grande demanda de conteúdo, recorre-se a banco de imagens que definitivamente não garantem uma identidade. A ideia então é unificar a linguagem visual da empresa, para assim criar unidade entre canais e ter uma identidade que seja reconhecida por ser única.

De olho nos concorrentes

Para imergir nessa área, iniciamos uma pesquisa visual focada nas ilustrações dos nossos concorrentes nacionais e internacionais. Criamos um moodboard para os comparar lado a lado e uma das conclusões foi que a maioria não possui estilo próprio e internacionalmente percebemos marcas visualmente fortes e com padrões autênticos, ótimas fontes de inspiração.

Referências reais e nossos ideais

Com algumas referências já coletadas pelo Pedro Carballo, visual designer (responsável pelo branding do ContaAzul) como Google, MailChimp, Dropbox, entre outras marcas com identidades exemplares e artistas com um bagagens representativas como: Ryan Putnam, Markus Magnusson, Justin Pervorse, Rogie King, Vic Bell, etc., pesquisamos uma centena de outros ilustradores no Dribbble, Behance, Pinterest, Instagram e todos os meios possíveis de se encontrar boas imagens relacionadas aos ideais que o ContaAzul gostaria de representar.

Agora sim você visualizou o sketchbook cheio de ideias inspiradas nos nossos artistas referência, certo? Mas ainda precisávamos de um filtro mais refinado.

Dinâmicas funcionam

Para alinhar um time em uma só linguagem

Parte do painel com as referências para a dinâmica de linguagem

Reunimos nosso time de design para aplicar uma dinâmica de linguagem aprendida pelo head Anderson Gomes numa visita a Cooper, um escritório de design e estratégia em São Francisco, Califórnia. A ideia foi alinhar os objetivos com a equipe que já trabalhava com a imagem do ContaAzul e selecionar com mais precisão nossas referências com quem mais entendia do assunto. Esse método utiliza imagens a fim de chegar num consenso do que a marca deve ou não deve ser.

Nessa dinâmica expusemos as referências e cada participante selecionou algumas imagens: quais poderiam representar o ContaAzul e quais não representavam. Com as imagens escolhidas exploramos cada ilustração com comentários sobre seus detalhes para entendermos os motivos. Além de particularidades técnicas, conseguimos extrair as palavras que essas imagens representavam, essas palavras foram a base para a elaboração uma régua de conceitos ContaAzul, com medidas que são nossas guias para o desenvolvimento e testes desse novo padrão.

Muita transpiração: foco nos sketchs

Agora sim estávamos munidas de informação conceitual e visual o suficiente para criar nosso próprio estilo de ilustração (…sim, "munidas", somos duas ilustradoras, Débora Dias e eu — Fernanda Sponchiado). Montamos uma sala de foco por 1 semana e meia, com objetivo de estudar e criar 3 estilos diferentes, baseados nos mesmos princípios. Ali mergulhamos no mundo da ilustração e sem medo, desenhamos muito, mas muito mesmo. Mudar de sala foi essencial para que conseguíssemos focar nossos esforços na ilustração. Deixamos de lado nosso traço autoral (o que é extremamente difícil para um ilustrador) e misturamos completamente nossos desenhos. Isso foi importantíssimo para falarmos a mesma língua, sempre nos ajudando e montando organizações próprias de trabalho.

Escolhemos para cada estilo uma forma geométrica base, com ela esboçamos uma família de personagens, objetos, cenários e ícones. Com essas 3 pranchas diferentes construídas, precisávamos ter certeza de que nossos conceitos tinham sido cumpridos, ou seja, fomos pra rua fazer uma pesquisa com os usuários.

Fomos pra rua

Por que a pesquisa com o usuário foi essencial

Pranchas prontas para testar os estilos de ilustração

Sim, certamente poderíamos ter validado um estilo internamente e desenvolvê-lo por completo. Porém, não estamos criando um padrão de designer para designer, temos um cliente que precisa entender o que estamos comunicando. Sem a opinião dele, ficaríamos na teoria do achismo. Então, com ajuda da nossa user researcher Marcella Medeiros: marcamos as entrevistas, construímos um roteiro de pesquisa qualitativa focada em ilustração, pensamos na métrica para aplicar nossa régua de conceitos e visitamos alguns clientes para entender a visão deles sobre nossos estilos.

Foi uma das experiências mais interessantes que tive profissionalmente, pois atrás de um computador, com comentários de amigos ilustradores e pessoas da área de design fica fácil achar que seu desenho está bom. Mas com empreendedores que muitas vezes não são desse universo, as opiniões tomam um rumo muito mais intuitivo e isso é importante para saber o quanto as ilustrações vão funcionar. Além das percepções espontâneas, conseguimos respostas de detalhes que nem esperávamos e isso nos dá base para criar um material com consistência. Mas não pára por aí: compilamos todas as informações e medimos através do retorno dos nossos usuários, se nossa régua de conceitos (aquela, que desenvolvemos depois da dinâmica) estava próxima dos estilos que criamos. E sim, estava! Conquistamos nosso primeiro objetivo.

Elegemos o estilo que mais se aproximou dos princípios ContaAzul, junto com os usuários e designers do time e agora estamos no processo de refinamento desse estilo.

E isso foi só o começo…

…Ainda estamos no início desse projeto (“nobody says it was easy…”), mas agora temos uma base estável, um alicerce sólido para continuar esse processo com certezas e com um time todo falando a mesma língua. Não estamos só buscando um padrão de ilustração, queremos ser únicos e ter "o" estilo ContaAzul. Esse projeto vai render muitos outros artigos, então ainda não guarde seu sketchbook ;)