Precisamos falar sobre o uso do inglês em empresas de Tecnologia brasileiras

Update, wizard, squad, tribe, lead, manager, user experience, design… Esses são apenas alguns dos termos em inglês com os quais passei a conviver diariamente nos últimos meses. E não, eu não estou morando em Nova York (EUA), estou em Santa Catarina, Brasil. O bacana de ser jornalista entre programadores, designers e P.Os é que acabo tendo uma percepção diferente sobre coisas que para eles são comuns, como é o caso da utilização constante de termos em inglês nas rotinas da área de Tecnologia.

O tema é polêmico. Mas desde que entrei neste segmento observei essa tendência, cheguei a discuti-la com alguns colegas e acabei formando uma opinião — que não é definitiva e, tampouco, imutável — mas é baseada em vivências e análises, as quais compartilharei com você neste artigo.

1 — Em alguns casos, não tem para onde correr

Alguns termos, como sprint, por exemplo, estão enraizados nas mentes e nos corações das pessoas da área de Tecnologia. Eles remetem a determinado contexto, de modo que traduzi-los é inútil. Se alguém soltar em uma reunião: “A nossa próxima arrancada será em 15 dias”, quase ninguém entenderá que essa pessoa está se referindo a próxima etapa de um projeto, a tal sprint.

O termo sprint é tão popular nas muitas empresas de tecnologia que adotam a metodologia ágil mundialmente, que é desnecessário, e pouco eficaz, explicá-lo em português, seja quando ele aparece em um texto ou quando é dito em uma reunião. Também, convenhamos, é muito mais fácil falar “sprint” do que “etapa do projeto”. Então pegou. Quem precisa entender, entende. “E em time que está ganhando não se mexe”. Certo. Certo?

2 — Em outros, são estrangeirismos

“No meio do caminho há os estrangeirismos”, parodiando Carlos Drummond de Andrade, em seu clássico No Meio do Caminho. Assim, quando uma palavra em outro idioma tiver sido assimilada à nossa língua, não é necessário traduzi-la, explicá-la e, tampouco, colocá-la é itálico. Afinal, ela não existe em português. É o caso das palavras show, shopping. Essas guerreiras estão perdoadas e prometo amá-las e respeitá-las todos os dias da minha vida.

3 — Em outros tantos, é hábito

Já acontece comigo: de tanto ouvir certas palavras em inglês eu acabo as repetindo (mesmo quando sei que há equivalente em português) e faço/fazemos isso sem perceber. É o caso da palavra update na minha vida ultimamente. Simplesmente não consigo mais falar atualização. E olha que eu só entrei neste universo há poucos meses, então calculem como é difícil, para quem é nascido e criado nele, se policiar.

4 — E em muitos, capricho

Eis o meu maior incômodo em relação ao uso do inglês no ambiente empresarial, em especial, na área da Tecnologia: algumas pessoas utilizam a língua para parecerem antenadas. O problema é que de nada adianta um vocabulário internacional se o usuário não entende o que você quer dizer, seja por meio de códigos, de palavras ou de desenhos.

Mais uma vez, as áreas se misturam, e um conceito do jornalismo cabe aqui: “menos complexidade resulta em maior compreensão” ou seja, menos é mais. Se as pessoas têm que acessar o Google Tradutor ou, no caso do jornalismo, utilizar um dicionário para ler suas matérias, você não está sendo eficaz na tarefa de se comunicar.

Uma pesquisa da organização educacional British Council, realizada em 2015, mostrou que apenas 5% da população brasileira fala inglês. Para completar, entre as pessoas que se comunicam no idioma, a maioria tem “baixa proficiência”, o que quer dizer que falam e/ou entendem mal.

Se no nosso país as pessoas já têm sérias dificuldades para interpretar textos em português, então imagine se ficarmos misturando os idiomas. Por isso, quando for mesmo inevitável usar termos em inglês, vamos priorizar explicá-los.

Alguns dirão: “Aaah, mas o inglês ajuda a universalizar a tecnologia”. E eles têm razão. Isso acontece, por exemplo, com códigos escritos e comitados em inglês, ou com artigos confeccionados pela comunidade técnica e científica neste idioma, para que mais pessoas ao redor do mundo possam entendê-los — já que o inglês é sabidamente uma das línguas mais faladas no mundo. Mas é inegável que há excessos, há alguma necessidade de pertencimento e existe, até mesmo, um pouco de vaidade.

Tenho para mim que o uso exagerado do inglês é também, mas em menor grau, reflexo da conhecida — e polêmica — “síndrome de vira-lata” dos brasileiros. Bem na linha de que tudo o que os outros fazem, especialmente os americanos, é better or cooler than what we do, ou, em português, “melhor e mais legal que o que fazemos” (risos).

Mas estamos no Brasil meu povo! Nossa língua materna é linda (e complexa). Então, agora que sabemos utilizá-la, ao menos minimamente, vamos usá-la, abusá-la e valorizá-la, poxa vida.

É por isso que quando eu estou escrevendo, revisando ou editando textos, não abro mão do itálico nas palavras estrangeiras que têm tradução em português. Com isso, quero enfatizar que, via de regra, elas são intrusas naquele contexto.

Além de garantir, é claro, a tradução literal de cada uma dessas palavras entre parênteses, afim de permitir que o texto seja acessível a todos os meus compatriotas que desejarem lê-lo.

Aproveitando o gancho, o orgulho em relação às coisas boas que temos no nosso país não deve aflorar só em época de Copa do Mundo. Vamos valorizar nossa deliciosa comida, nossas belezas naturais, a generosidade do nosso povo e a nossa bela língua, entre tantas outras coisas, todos os dias do ano?

Go portuguese! (Vai português!) 🇧🇷