Semana 3 — É ainda pior do que parece

Um dia meu pai chegou em casa com um presente: Mau Começo. E eu, pelo que imagino que tenha sido a primeira vez na vida, rejeitei um livro. Li o texto de quarta capa, a orelha, o começo, e fui tomada por tal angústia que chorei, disse para o meu pai que não queria ler, perguntei se a gente podia ir à livraria trocar por outro livro. Acabamos, em vez disso, embrulhando para presente, porque eu tinha uma festinha de aniversário de um colega de turma e assim o livro ganhava um destino.

Acontece que, na festinha em questão, eu não quis entrar na piscina com o resto da turma, ou dançar Los Hermanos (no meu círculo social, crianças ouviam Los Hermanos em festinhas de aniversário, o que hoje em dia acho muito esquisito) — ninguém lá era realmente meu amigo e eu era conhecida por preferir ler a ir a festas. Então recorri à distração possível: peguei meu presente da pilha e li Mau Começo, acho que inteiro, até ser hora do meu pai me buscar (ler livros inteiros até alguém me buscar foi um hábito recorrente em festas, idas à praia e outros eventos sociais que eram desinteressantes para uma Sofia criança ansiosa e arrogante). Quando entrei no carro, pedi desculpas pela rejeição inicial ao livro e pedi para irmos direto para a livraria comprar o segundo. A partir daí, devorei os livros conforme eles saíam, sofrendo com os desastres dos irmãos Baudelaire, começando cada volume com a leve esperança de que as coisas fossem melhorar, mas com a certeza resignada que, cedo ou tarde, o Conde Olaf viria esmagar qualquer possibilidade de alegria.

Ao escolher a ordem desses textos para a releitura, optei por Inferno no Colégio Interno e O Elevador Ersatz, respectivamente, o quinto e o sexto livros da série, em grande parte porque, em minha memória, eles são o ponto em que tudo muda — em que deixamos de esperar um ciclo sem fim de desventuras (os Baudelaire têm um novo tutor, há esperança de melhora, o Conde Olaf aparece, pavor e mais pavor e mais pavor, os Baudelaire são engenhosos e se salvam por um fio, o Conde Olaf escapa, e de novo e de novo) e entendemos realmente que a história é muito maior, que nada é tão simples quanto um supervilão asqueroso que deseja roubar dinheiro de órfãos especialmente inteligentes, que não estamos lendo historinhas macabras infantis, que os comentários misteriosos que o autor-persona faz sobre sua amada Beatrice não são desvinculados da dor dessas crianças. O Elevador Ersatz sempre esteve na minha memória como o equivalente a Harry Potter e o Cálice de Fogo: o momento em que nós e nossos protagonistas somos forçados a crescer e enfrentar o perigo, tão maior e mais real do que esperávamos.

Inferno no Colégio Interno, portanto, é o último livro antes dessa mudança de fluxo narrativo, o último em que o que está em jogo é a segurança dos órfãos e nada mais. E o fato de que se passa em um colégio interno foi mais um elemento no meu interesse em escrever a respeito dele aqui, porque estou escrevendo algo que um dia será um romance e que também se passa em um colégio interno. A noção do internato como ambiente para uma narrativa é atraente, para mim, por algumas razões: o isolamento de quem vive, estuda e socializa no mesmo ambiente, sem contato com o lado de fora; o estranho glamour imaginário de uma vida em que crianças e adolescentes vivem com seus amigos e sem seus pais, uma fantasia que provavelmente passou pela cabeça de quase todo mundo em algum momento da vida; o microcosmos da infância e da adolescência gerado por um ambiente em que eles são maioria, em que eles são protagonistas, em que tudo gira ao redor deles.

Enquanto Harry Potter, por exemplo, mostra Hogwarts, seu internato, como o mundo idílico e fantasioso das crianças e adolescentes construindo seu próprio poder, explorando seus limites e desenvolvendo laços fortes de amizade na falta de dependência familiar, Inferno no Colégio Interno nos apresenta o internato como a encarnação de um pesadelo infantojuvenil. As regras e punições são ilógicas e cruéis, o aspecto acadêmico é risível de tão inútil e entediante, as interações sociais são permeadas de maldade e rejeição, e as condições de vida em si são deploráveis: os órfãos são obrigados a dormir em montes de feno em um barraco de zinco, cercados por fungo e caranguejos; a principal forma de punição envolve ser privado de utensílios ou do uso das mãos nas refeições; Sunny, ainda um bebê que não fala, é forçada a trabalhar em condições insalubres (além de surreais, como se espera de um livro de Lemony Snicket). O quinto livro da série — e o sexto, em seu ambiente de aparente segurança material e emocional — continua uma das grandes tradições narrativas de Desventuras em Série: virar de ponta-cabeça fantasias infantis de segurança, diversão e liberdade, revelando adultos e responsáveis que não são confiáveis e crianças que se veem, a cada novo acontecimento, desamparadas e sem esperança.

Pensando bem, talvez eu devesse ter seguido meus instintos iniciais de rejeição apavorada dessa série. Acredite nas palavras de Lemony Snicket: Desventuras em Série causará desespero, dor e sofrimento.


Pelo nosso cronograma, hoje (23) continuamos a leitura do livro seis, O Elevador Ersatz, para, em seguida, ler o livro sete, A Cidade Sinistra dos Corvos. Semana que vem teremos texto da Seane Melo sobre a leitura desses livros. Em tempos tão difíceis, em que as desventuras dessas crianças parecem brincadeira perto da nossa realidade, vamos nos unir nessas leituras para tentar segurar as barras de se viver nesse mundão.

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