Laura M.
Laura M.
Dec 22, 2016 · 4 min read
Ilustração: Brett Helquist

Nos meus textos anteriores falei muito sobre minhas expectativas e impressões sobre essa maratona de (re)leituras. Falei sobre como me lembrava de algumas coisas e como não fazia ideia de outras. Do que me agradava e do que chegava a quase me cansar. Agora chegou a hora de falar um pouco sobre a história dessas crianças, sobre o décimo livro e, principalmente, sobre esperança.

Segunda-feira fui assistir Rogue One nos cinemas e terça-feira comecei (um pouco atrasada, confesso) a ler O Escorregador de Gelo. O que eles tem a ver? Tudo, ou quase tudo. Ambos, livro e filme, falam sobre esperança. Foi impossível não tecer paralelos entre os dois. Tudo que acontecia com os órfãos me lembrava de alguma forma as desventuras da também órfã Jyn. Mais do que simplesmente falar sobre esperança, as duas obras falam sobre a importância de ter esperança, sobre como vale a pena acreditar que as coisas, de alguma forma, vão dar certo. A história dos Baudelaire chega nesse livro com uma mensagem que lembra muito a dos rebeldes do filme, como as meninas do Valkírias apontaram:

Em tempos tão conturbados como o que vivemos atualmente, Rogue One é exatamente aquilo de que precisamos para lembrarmos de algo que há algum tempo parecíamos ter esquecido: a esperança.

Eu não esperava encontrar nenhum consolo para as minhas desventuras pessoais nessa maratona. Também não esperava (re)encontrar os livros das minha vida. Tudo tinha sido muito despretensioso até aqui — e muito provavelmente continuará sendo. Mas o décimo livro me encontrou em um momento em que eu estava procurando sentido nas coisas ao meu redor. E eu encontrei, tanto no filme quanto no livro.

O que havíamos encontrado até aqui era uma espécie de esperança negativa. A expectativa era — e ainda é — de que tudo ficasse ainda pior do que estava. Não apenas o narrador nos leva a acreditar nisso, mas todos os desdobramentos que testemunhamos até agora nos confirmavam de novo e de novo o quanto as chances de termos um final feliz eram as menores possíveis. Mas nesse livro não, o tom da história muda:

Não vejo mal em alimentar nossas esperanças — disse Klaus — Estamos acompanhando uma corrente de água arruinada atrás de um vilão perverso na tentativa de salvar nossa irmã e encontrar a base de operações de uma organização secreta. Um pouco de esperança seria bem vindo

O mais importante desse livro — e talvez algo que lembre muito Rogue One — é a virada que temos no protagonismos dos irmãos e do trigêmeo Quigley como voluntários. Quando os órfãos saem do Parque Caligari e começam a viagem em direção às Montanhas de Mão-Morta passamos a ter mais acesso às informações que foram escondidas deles, e de nós, até então. Descobrimos muito mais sobre a C.S.C., sobre os segredos que os pais dos Baudelaire e dos Quagmire guardaram e sobre quais são os próximos passos dos vilões.

Desde que os órfãos fugiram de um hospital em chamas no porta malas do carro do Conde Olaf, nós passamos a saber muito mais do que se passa na cabeça do vilão e toda sua trupe. A proximidade das crianças com esses tipos permite que tenhamos acesso aos planos do Conde e às conversas que ele tem com sua turma. Antes nós não conseguíamos ter tanta informação simplesmente porque as crianças não passavam tanto tempo assim com o vilão. Essa proximidade trouxe um conflito sobre a tênue linha que separa um vilão lutando por uma causa que acredita e crianças desventuradas que tentam fugir de seu vilão a qualquer custo.

É nesse processo de conhecer mais sobre a própria história e refletir sobre como a luta contra Olaf despertou neles aspectos vilanescos que eles passam a decidir conscientemente que caminho querem trilhar. Quando decidem não deixar que Esmé caia na armadilha que eles mesmos fizeram, eles definem o rumo que querem para si e esse rumo os aproxima, mesmo que sem intenção clara, do que os pais deles e os voluntários da C.S.C. escolheram fazer. Jyn Erso começa sua trajetória tendo como único vínculo com a Rebelião o desinteresse e a raiva pelas dores pelas quais ela passou por uma luta que ela não reconhecia como dela. Mas com o desdobrar da história suas escolhas aproximam-na dos rebeldes sem que ela perceba. Ela não precisa escolher a força para caminhar em direção a ela. E mesmo que os órfãos não saibam ao certo o que os voluntários da organização secreta cuja sigla parece um olho faziam, suas escolhas os levam cada vez mais para perto deles.

Quando no embate com Olaf, Esmé, os dois vilões desconhecidos e toda a trupe de ajudantes, Violet, Klaus e Quigley se identificam como voluntários, a sensação que temos é de que talvez eles estejam no lugar em que deveriam estar. Esse livro é sobre esperança, mesmo no meio de tantas desgraças. É como um suspiro de alívio entre tantas coisas ruins. Como quando Sunny encontra algum prazer na culinária mesmo tendo que trabalhar em condições mais do que adversas ou quando Violet tem um momento de privacidade enquanto escala uma montanha de gelo. São pequenas coisas, minúsculas perto do que está por vir e do que já aconteceu, mas que mostram como em alguns momentos tudo o que precisamos é ter um pouco de esperança de que tudo vai ficar bem.


Pelo nosso cronograma, ontem (21/12) iniciamos a leitura do livro onze, A Gruta Gorgônea. Semana que vem teremos texto sobre a leitura desse livro. Em tempos tão difíceis, em que as desventuras dessas crianças parecem brincadeira perto da nossa realidade, vamos nos unir nessas leituras para tentar segurar as barras de se viver nesse mundão.

desleiturasemsérie

Por favor, não leia essa publicação, também não pense em reler Desventuras em Série com a gente. É tudo muito triste.

Laura M.

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Laura M.

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