Renata Ped
Dec 29, 2016 · 6 min read
Ilustração: Brett Helquist

Não teria como dar outro título para este texto. Durante a leitura, fica claro como essa filosofia é confusa e quanto mais a gente pensa, mais percebe que a única coisa que não vacila é a perfídia no mundo.

Minha relação com Desventuras em Série começou um pouco mais tarde. Na verdade, sempre lia trechos do primeiro livro quando ia à livraria, mas, como sabemos que livros são caros, minha mãe me pediu pra escolher uma série _e escolhi Harry Potter. Só li DES inteira com 14 anos, emprestado de uma amiga. Gostava do estilo mais melancólico e angustiante que a série tem, e gosto muito do número 13, e sobre isso não preciso dizer mais nada para ter começado a ler.

Lembro bem de um dia em que estávamos na escola, no intervalo, e alguém achou que seria genial acender um sinalizador fedido com fogo e jogar na caixa da mangueira de incêndio (nunca soube se tinha mesmo). Evacuaram o prédio, acho que umas pessoas até chegaram a ligar para os bombeiros e, enquanto imaginava — veja só — o prédio pegando fogo, só lembrava que estava com o livro dela na mochila e o quão irônico seria se o livro fosse queimado.

Já li essa série umas 4 vezes, mas A Gruta Gorgônea em especial, umas 7. Os livros soam diferente conforme a fase da vida em que você lê, e nesse caso não é diferente. A diferença é que você entende mais coisas conforme o seu banco de referências aumenta, assim como compreende mais a complexidade de cada personagem.

Com Desventuras em Série se aprende muitas coisas. Quem com 12 anos sabe o que é austero, gorgônea, hostil e as demais palavras que o autor vai apresentando? Esse livro, além de tudo isso, tem uma série de nomes de poetas ou escritores, que me levou a procurar sobre. Por diversos momentos a leitura se torna um pouco arrastada, mas fica evidente que aquilo é proposital, que nos coloca na mesma situação de um ciclo enfadonho igual ao dos Baudelaire. Ainda mais nesse livro,

que trata do ciclo das águas.

Mais que isso, DES é uma base para referências. Algumas das coisas você só entende mais tarde. Como o nome do Capitão Andarré, que só entendi quando li em inglês, Widdershins, e quer dizer “no sentido anti-horário”, sua etimologia significa algo como “sem sentido”, o que é bem próximo da figura que o Capitão representa, no seu modo quase descontrolado de falar. Essa palavra também é usada para lembrar algo que dá má sorte, e a isso os Baudelaire já estão acostumados. Outro exemplo, que só mais tarde percebi, é Queequeg: um personagem de Moby Dick, livro escrito por Herman Melville, que está nos uniformes dos tripulantes de tal submarino.

Percebemos em A Gruta Gorgônea Sunny desenvolvendo cada vez mais a linguagem _não que ela não conseguisse se comunicar com os irmãos, mas ela começa a falar além disso_ como o Shalom, logo no ínicio, além de palavras com sentido próprio, aglutinações, nomes e palavras em outros idiomas.

Tem duas passagens que considero muito.

A primeira é quando eles estão indo para a gruta e, por algum tempo indeterminado, percorrem um espaço que antes foi algo mais que só uma passagem cheia de água. Sempre achei fascinante a ideia de se privar dos sentidos, apenas flutuar e deixar que a corrente te levasse, algo que considerava relaxante _até assistir Stranger Things e ver o tanque de privação de sentidos.

Sempre imaginei quais seriam os desdobramentos: e se eles vissem tudo aquilo que estava escondido? Quantas vezes passamos por espaços que já conhecemos e percebemos algo novo ou, então, por uma rua conhecida na qual uma casa aparece demolida e não dá nem pra lembrar como era ou a cor da porta. E tem todo aquele espaço escondido embaixo da água, que nunca ninguém mais vai usar.

Por um momento, a gente quase acredita que eles terão uma paz, que finalmente estão em ~águas cartografadas~, mas, quando os quatro retornam ao Queequeg, todos no submarino foram embora, sem nem um recado, apenas deixando as bexigas do aniversário da Violet, o que nos dá uma sensação gigantesca de abandono e desamparo. Essa sensação de abandono recorrente (e de falta de proteção) é a que percorremos durante toda a série. Os irmãos do Baudelaire se tornam seu próprio lar, sua própria proteção.

A segunda passagem é a explicação do Lemony sobre a tristeza. Como ele próprio fala, é um dos maiores enigmas do mundo. Ao ler a série, chorei diversas vezes, porque mesmo sabendo que tem várias desgraças acontecendo _e o autor até nos antecipa que algo do tipo vai acontecer_ lendo os livros não tem como não se sentir um pouco como os irmãos, como sentir uma certa impotência de não conseguir curar as pequenas tragédias que existem por aí.

“Um dos maiores enigmas do mundo é a maneira como funciona a tristeza. Ficar muito triste pode ser parecido com ser queimado, não só por causa da dor descomunal, mas também porque a tristeza pode se espalhar por sua vida como a fumaça de um enorme incêndio. Você pode achar difícil enxergar alguma coisa além de sua própria tristeza, assim como a fumaça pode encobrir uma paisagem a tal ponto que tudo o que você pode enxergar é a escuridão. Você pode descobrir que as coisas felizes são maculadas pela tristeza, do mesmo modo que a fumaça de um incêndio deixa tudo com cor de carvão e cheiro de queimado. E pode descobrir também que, se alguém despeja água em cima de você, você fica molhado e perturbado, porém não curado da tristeza, assim como um corpo de bombeiros pode abafar o fogo, mas não recuperar o que foi destruído.”

Acho incrível essa explicação, porque todos já ficamos tristes um dia. E aqui colocam-se dois dos pesos dos Baudelaire, como se de alguma forma eles pudessem ser comparados, como se de alguma forma eles já não estivessem entrelaçados o suficiente.

Sobre o Conde Olaf e sua trupe, Esmé e Carmelita, não é necessário dizer que as maldades e seus lados sombrios só pioram. Mas tem algo a mais: ficamos sabendo um pouco mais sobre o Homem das mãos de gancho, e como o lado frágil dos humanos vem existir quando alguma pequena fraqueza aparece. No caso dele, era sua irmã Fiona. A única família que resta. E o Homem das mãos de gancho por momentos vacila em continuar com o Conde ou seguir com sua irmã. Mas quem vacila, ao final, é Fiona. Vacila com os Baudelaire, mas não abandona seu irmão. Quando ela vai embora, parece que não é possível que os Baudelaire vão se permitir confiar em mais alguém além deles próprios.

Só quando chegamos ao final, quando eles entram no táxi e encontram a Kit _que vinha por trás dos panos seguindo e observando os Baudelaire, assim como o Lemony_ parece que finalmente vamos ter um pouco mais esperança, de confiança e tranquilidade nas vidas desses 3 irmãos.

Amo ler Desventuras em Série porque toda vez percebo alguma coisa que nunca tinha notado, tenho uma relação diferente com alguma questão ou entendo algo que talvez nunca tenha existido. Mesmo sabendo a história, tem sempre algo a mais para descobrir e sentir. São livros que me confortam de alguma forma e, por estar sempre relendo, consigo me lembrar de pensamentos que tive nas diversas fases da vida em que li.

Lembrem-se sempre: Aqui o mundo silencia.


Pelo nosso cronograma, ontem (28/12) iniciamos a leitura do livro doze, O penúltimo perigo. Semana que vem teremos texto sobre a leitura desse livro. Em tempos tão difíceis, em que as desventuras dessas crianças parecem brincadeira perto da nossa realidade, vamos nos unir nessas leituras para tentar segurar as barras de se viver nesse mundão.

desleiturasemsérie

Por favor, não leia essa publicação, também não pense em reler Desventuras em Série com a gente. É tudo muito triste.

Renata Ped

Written by

UX/UI Designer @ GPA

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Por favor, não leia essa publicação, também não pense em reler Desventuras em Série com a gente. É tudo muito triste.

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