Vamos (não) falar de sexo?

Não me considero uma pessoa muito sexual. Pra falar a verdade, não me considero nem uma pessoa um pouco sexual. Não me entendam errado, não sou frígido — já consegui transar ouvindo Lana Del Rey e foi uma transa perfeitamente OK. Mas quando penso em mim mesmo, não me vem a palavra “sexo” na cabeça. (E nem na cabeça de ninguém, se a minha frequência de atividade sexual for alguma evidência.) Simplesmente não sou uma pessoa que evoca esse tipo de sensação, e não vejo problema nenhum nisso. Devo admitir, porém, que é uma faca de dois gumes. (E não uma espada de dois gumes, que era o que eu havia escrito antes do Google graciosamente me corrigir. Faz sentido, uma espada de dois gumes é uma espada qualquer.)

Por aí.

Por um lado, aprecio o elemento surpresa que eu tenho quando vou pra cama com alguém pela primeira vez. Absolutamente ninguém na história da humanidade resolveu dormir comigo pensando “me dei bem, amanhã eu não vou conseguir nem levantar”. Ninguém. Então eu já chego na situação com uma espécie de benefício da dúvida estendido. As expectativas estão tão baixas — muito possivelmente as expectativas de ambas as partes — que o resultado daquela situação, seja ele qual for, não vai causar decepções. (Mas também não me desafio, né? Como diz Falcão, “não subestime a sua incapacidade”.) Então se a experiência for medíocre ou ruim, tudo bem, era o esperado mesmo. Mas se rolar uma química especial e o negócio rolar direito, é capaz de sair até uma boa história pra contar, uma conchinha, uma carta de recomendação pros círculos sociais dos envolvidos, etc.

Pelo outro lado (pa-dum-tss!), costumo ter que lidar com uma situação bem desfavorável de oferta e demanda. Encontrar alguém que esteja disposto a transar com uma pessoa que aparenta não ser mais que ‘mais ou menos’ é uma tarefa deveras ingrata, quase hercúlea. Afinal, sexo é uma coisa muito trabalhosa. Quando eu penso em toda a higiene pessoal especial que é necessário fazer, na decisão da melhor roupa e cueca, na ansiedade de ter que inventar uma desculpa possivelmente bem meia boca e constrangedora pra sair da situação depois que o problema estiver resolvido, dá uma preguiça tão grande que é como se a Netflix (e o XVideos) estivesse gritando desesperada por mim. “Não se vá! Não vale a pena!” Imagino que seja assim pra maioria das pessoas, então não culpo quem não mostra interesse em comprar o que eu estou vendendo.

A verdade é que eu não tive lá a criação mais liberal nesse sentido e nunca aprendi a me sentir tranquilo discutindo o assunto. Ninguém na minha infância se sentia confortável conversando sobre qualquer coisa remotamente relacionada a sexo. Lembro bem que eu e vovó tínhamos o hábito de assistir ao Programa do Ratinho juntos e ela perdeu totalmente a cabeça numa certa vez que ele resolveu passar imagens de dois jumentos machos fornicando. Eu até queria ver, mas nada ia convencê-la a permitir isso. Acho que era um misto de desconforto com a ideia de sexo em geral e o medo de que eu fosse gay. (Esse navio já havia zarpado há muito tempo, mas a esperança é a última que morre mesmo.) Mamãe também não lidava bem com o assunto. Uma vez quando eu já estava no auge da adolescência ela viu alguma coisa sobre masturbação na TV ou em alguma revista e veio me perguntar, com o tom de quem te pergunta se você afogou um recém-nascido num balde de urina, se eu me “fazia aquilo”. E eu, aos 14 ou 15 anos (!), respondi nervosamente que não (!).

Isso provavelmente me deixaria meio travado também.

Mas há evidências ainda mais antigas que podem explicar o fenômeno! Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, despertou em mim a curiosidade sobre o corpo humano. Conversa vai, conversa vem, eu e dois coleguinhas da escola — uma menina e outro garoto — chegamos a um acordo tipo ‘mostra o seu, que eu mostro o meu’. Pois bem. Óbvio que aquilo seria mal visto pelas nossas professoras, então tivemos que cometer nosso crime rápida e sorrateiramente. Nos reunimos numa parte pouco movimentada da escola na hora do recreio e fizemos um círculo. Eu ainda ia demorar uns dois anos a aprender a desabotoar meu short do uniforme, mas acho que a adrenalina ajudou a minha coordenação motora e eu consegui me despir. Assim fez também o meu coleguinha. Desconsiderando o doce sabor do perigo de estar cometendo tamanha infração, essa parte não foi lá tão interessante. OK, eu também tenho um desses. Não é igual, mas é parecido o suficiente, confere.

Depois foi a vez da nossa coleguinha fazer a parte dela do combinado. Ela já tinha a informação que interessava a ela, então agora só lhe restava cumprir com a palavra. Pra mim, essa era a parte mais importante. Eu sabia que ela tinha um Pipiu™ ali, mas eu nunca havia visto um de perto, então aquela era a maior novidade da operação inteira. Porém, quando foi a vez dela mostrar com o que ela estava trabalhando, ela deu pra trás. Ao invés de honrar nosso contrato verbal, ela resolveu que aquilo estava ficando perigoso demais e saiu procurando nossa professora, anunciando nosso crime. Eu e meu coleguinha nos vestimos às pressas, vermelhos feito tomates, já temendo a horrível punição que receberíamos. Acabou que a professora também não sabia como lidar com aquele tipo de situação e ficou tudo por isso mesmo. Mas a experiência não pode ter me feito bem, o medo perdurou por dias.

Eis que os três participantes desse causo tiveram os seguintes destinos: a garota morreu (uma tragédia, ela se redimiu dessa dedurada e era uma pessoa maravilhosa), o garoto se mudou pra Roraima e hoje é travesti e eu sou eu. Ou seja, talvez esse tipo de curiosidade naquele ponto da infância não sugira lá um futuro muito ortodoxo — afinal, dos três, só um deu certo na vida (e me refiro aqui à colega travesti. Acho que já está claro que eu não “dei certo”). Óbvio que eu não acho que qualquer uma dessas situações seja o motivo exato para eu ter essa visão específica sobre um assunto que devia ser natural para uma pessoa da minha idade nos dias de hoje, mas elas podem ser sintomas da forma como a minha cabeça sempre funcionou, talvez porque simplesmente funciona assim. O que eu sei com certeza é o seguinte: posso estufar o peito e orgulhosamente chocar a família tradicional brasileira falando que a forma como lido com sexo é influenciada por uma experiência que tive com uma travesti. E tecnicamente não estarei mentindo.

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