COTAS RACIAIS: POR QUE PRECISAMOS?

Proibido. Imoral. Intolerável. Este é o tabu delimitando e construindo barreiras sobre o que não deve ser discutido por/em uma sociedade ou cultura. Quando falamos em tabu o receio de estar cruzando limites está acompanhado de uma extensa carga histórica, que em sua maioria, sempre andou lado a lado do preconceito.
Temos tabu para o sexo, para a religião, para as drogas, para a linguagem e há quem diga que também para as cotas raciais. O que estes não consideram é que o proibido não está em falar sobre os direitos dos menos favorecidos em ter acesso à educação de qualidade, mas consiste em falar sobre quem detém os privilégios.
Imoral para nossa sociedade não é falar sobre a porcentagem consideravelmente inferior de jovens negros/as em universidades brasileiras em comparação aos números de estudantes brancos.
Quando falamos em cotas raciais, o tabu está incutido no preceito de que estes estão sendo favorecidos em detrimento de outros grupos raciais. Para cada época de vestibular escutamos um comentário sobre como “se não fosse pelas cotas, aquela vaga seria minha”.
Se não fossem pelas cotas, os 12,8% de estudantes negros/as do ensino superior seriam ainda menores dentro das estatísticas e invisíveis aos olhos de uma sociedade desigual. Ainda discutimos a necessidade de leis para inserção dessas pessoas nas salas de aula, ainda discutimos a necessidade de leis para a permanência dessas pessoas nas salas de aula e ainda discutimos a necessidade de leis para a valorização cultural dessas pessoas nas salas de aula.
O racismo está presente desde o momento em que não nos interessamos por sua história, por seu conhecimento. Quando pequenos, sonhamos em sermos grandes e nos inspiramos em profissionais modelos. Quando pequenas, as crianças negras buscam por representatividade e encontram um abismo. Quando adultas, buscam por oportunidades e encontram preconceito e falta de incentivos.
Adentrar os portões públicos de uma instituição de ensino não fornece a garantia de mais respeito, ao contrário, incute a dependência de sempre provar-se capaz. Os livros não trazem sua cultura, seus saberes. Os docentes não entendem suas necessidades. A sociedade não enxerga suas dificuldades. O mercado não acredita na sua capacidade.
Enquanto acreditamos na meritocracia, nos voltamos para uma cultura que estrutura a disparidade racial. Pregamos tabus. Desvalorizamos seres humanos e destituímos seus direitos. Neste cenário, as cotas não são privilégios, elas são meios para combater uma violência que por vezes se faz silenciosa.
