
Pele
Decidi fazer um curso superior. Falando assim, até parece que foi de um dia para o outro que essa ideia apareceu e que aconteceu de um jeito fácil. Conquistar esse lugar que tanto sonhei exigiu muito mais do que meu conhecimento. Precisei ter coragem, vontade e tive que lutar muito.
Antes de chegar até aqui, preciso dizer como é chegar até aqui. Preciso falar do meu caminho, meu processo, meu acesso. É necessário falar de um sistema que ao invés de tentar me excluir, colaborou para que eu estivesse dentro de uma universidade.
As cotas existem desde os anos 2000, a partir de uma ação pioneira da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade de Brasília (UnB). O objetivo era diminuir as desigualdades econômicas, sociais e educacionais entre pessoas de diferentes etnias raciais, porém, a ideia só ganhou legitimidade a partir da Lei 12.711 (Lei de Cotas), sancionada em 2012, que instituiu a obrigatoriedade de cotas, tanto raciais quanto sociais, nas instituições de ensino federais. De lá pra cá, mais de 150 mil estudantes negros conseguiram fazer cursos de graduação.
Foi por causa desse tipo de movimento que eu consegui vencer tantas barreiras e me tornar estudante universitário/a. A questão aqui não é apenas a cota, mas a oportunidade, o acesso e a permanência dos/as negros/as nas universidades. Infelizmente, esse sistema não está em todas as instituições e talvez este seja um dos motivos para que muitos e muitas não estejam aqui também.
Eu me faço presente pela minha cor, pela minha cultura, pela minha história. Faço parte de uma maioria que tem uma minoria de oportunidades e espaços. Faço parte de quem vive e sente na pele a discriminação.

