
Vitimismo ou Racismo?
Acabei de sair de casa. Esqueci de comprar a ração pro Teddy. Na verdade, não esqueci, eu não consegui encontrar tempo pra comprar. No meu horário de almoço tive que ir pagar as contas: água, luz, internet, aluguel e faculdade. Olha, vou te falar… Não é fácil viver sozinha, as coisas estão muito difíceis. Ainda bem que desde criança minha mãe me ensinou a me virar, cuidar de criança, limpar, lavar roupa, tudo pra ajudar no sustento da casa. Hoje eu sei como ganhar a vida, mas, cansa, viu?!
Eu levanto as 5h todos os dias, pego duas conduções até a primeira casa que faxino. Por volta das 10h, pego mais duas pra ir até a outra casa. Quando termino, paro pra comer. Na verdade, comer mesmo acaba sendo a última coisa que faço, porque tenho os trabalhos da faculdade pra dar conta nesse tempo - que é o único que sobra.
À tarde, sou babá de três crianças e elas não me dão um minuto de sossego. Quando chega a noite, eu vou pra faculdade, que é do outro lado da cidade. Sempre perco conteúdo por dormir na aula, mas eu fico muito cansada e não é fácil controlar o sono. Mas, olha, eu não reclamo não. Minha mãe sempre me falou que a gente que é preto só sobe na vida se for ralando muito, porque ninguém gosta de ajudar preto não. E isso eu aprendi bem.
Eu faço faculdade de Direito. Isso mesmo, Direito. Por que tá me olhando com essa cara de espanto? Eu sei, é porque sou preta do cabelo ruim, né? Tudo bem, não tem problema não. Eu tô acostumada. Quando eu era mais nova, me chamavam de preta do sovaco fedorento. A minha mãe sempre me dizia: “não se abala com isso não, porque se você ficar abalada não consegue trabalhar e sem trabalhar tu vira ‘a vagabunda’, e filha minha não nasceu pra ser vagabunda não”.
Sabe, quando eu era criança as coisas não eram fáceis. Minha mãe criava eu e minhas irmãs sozinha na favela. Ela foi guerreira, viu? Era mulher, preta, favelada, mãe solteira. A coitada sofreu. Passou por muita humilhação, repressão, preconceito. Ensinou a gente a trabalhar desde cedo. Trabalhar e estudar.
A nossa professora sempre falou que a gente não precisava de esmola, que se quiséssemos ser alguém era pra estudar igual todo mundo e tentar passar na universidade igual todo mundo. Ela me dizia que cota é esmola. Eu entendo ela, de verdade. Eu entendo vocês pensarem assim. Deve ser muito difícil se imaginarem na nossa situação.
A gente não conseguia nem chegar na escola porque não tínhamos dinheiro pro ônibus e o motorista nunca deixava a gente entrar de graça. “Sai daqui, seus preto fedido”, ele falava. Às vezes, a mãe deixava de comprar o pão pra pagar nossa passagem. E quando a gente conseguia ir, chegávamos atrasados. Era muito longe, sempre perdíamos aula. E quantas vezes fomos pra escola a pé e com fome porque a mãe não tinha dinheiro nem pro pão? Perdi as contas. Sem falar nas humilhações que a gente sofria dos outros alunos, sempre tirando sarro da nossa cor, do nosso cheiro, do nosso cabelo, das nossas roupas...
Minhas irmãs abandonaram a escola por não aguentarem passar por isso todos os dias. Eu aguentei. Aguentei até o último ano. Mas aí minha mãe morreu, e eu não consegui terminar. Fui fazer supletivo já depois de velha. E eu só fiz o supletivo porque não aguentava mais receber “não” em entrevista de emprego, era uma porta que se fechava atrás da outra.
Uma vez a dona de uma loja disse que não me contratava por causa do meu cabelo, que poderia constranger os clientes dela. Aí eu alisei, tentei ser aceita. Alisei o cabelo e comecei a usar uma maquiagem que me deixasse mais branca. Algumas vezes funcionava. Mas na maior parte do tempo eu era só a preta tentando ser branca.
Ah, você não me acha tão preta? Só moreninha? Entendi… Posso te fazer uma pergunta? Depois de tudo que eu contei, continua achando que cota é esmola? Ah, acha que eu to me fazendo de vítima?
“[…] Experimenta nascer preto na favela pra você ver!
O que rola com preto e pobre não aparece na TV […]
[…] Experimenta nascer preto, pobre na comunidade
Cê vai ver como são diferentes as oportunidades
E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim pra encobrir o seu racismo!”.
(Cota Não é Esmola — Bia Ferreira)

