Palavras de uma profissional sobre a depressão
Ainda que ouvimos falar sobre ela ou vivemos a experiência da depressão, precisamos entender que o ponto de vista de um profissional sobre o assunto é muito mais importante e esclarecedor, seja para orientar ou para tratar. Com o objetivo de nortear nossas discussões sobre a doença que acomete cerca de 322 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), convidamos Eliane Rose Maio* para falar, de forma breve, sobre o tema.
Desnudando: Sabe-se que a depressão é uma doença que age de forma silenciosa e que facilmente pode ser confundida com outras enfermidades. Quais são os sintomas iniciais da depressão?
Eliane: Quando a gente fala quais são os sintomas iniciais da depressão, pra cada pessoa é diferenciado. É difícil a gente generalizar. É um momento de melancolia, de querer ficar perto das pessoas ou pode ser de choro, pode ser não comer, comer demais. Cada pessoa vai ter um jeito de agir, mas geralmente é aquilo que foge do cotidiano dela, um sentimento de angústia muito forte, dor no peito, taquicardia, sudorese. O corpo vai reagir para cada pessoa de forma diferente.
D: Há motivos específicos para a ocorrência desta doença? Há uma faixa etária — ou um grupo social — que está mais propensa a ser atingida?
E: Não, não há uma faixa típica. Também não dá pra elencar os motivos. Porque é muito individual, mesmo, como a pessoa reage. Pode ter sido uma dor profunda emocional guardada, um “trauma”, que não deixaram esta pessoa expôr, então ela vai, sabe assim, juntando, aglutinando e aí um dia o corpo explode. Pode ser criança, adolescente, adulto e na velhice. Quaisquer pessoa se encaixam, quaisquer faixas etárias, infelizmente.
D: Como nós podemos estar preparados para identificar os sintomas da depressão em uma pessoa próxima e, até mesmo, fortalecer as ações de prevenção?
E: É vendo as mudanças daquela pessoa alegre, divertida, que “topa tudo”, e de um dia pro outro ela é introvertida, silenciosa, não quer mais saber. Então, questionar o que pode estar acontecendo. No começo pode parecer um quadro de ansiedade, que vai passar. Mas não, ela vai cada vez mais se fortificando. Prevenir é melhor, mas como fica difícil, então agir e acolher esta pessoa.
D: Segundo a OMS, cerca de 18,6 milhões de brasileiros sofrem com transtornos de ansiedade (dados de 2017). Existe relação entre a depressão e a ansiedade? Até que ponto um quadro avançado de ansiedade pode ocasionar uma depressão?
E: Tem diferença entre a ansiedade e a depressão. A ansiedade é, por exemplo, eu vou fazer o vestibular e eu fico uma semana ansiosa, eu vou fazer uma prova, vou tirar carteira de motorista. Isso, até são fatores benéficos, porque, a gente pode falar que são coisas que esquentam por dentro. Mas a depressão não, eu vou fazer a carteira e não consigo levantar da cama, porque eu não tenho energia emocional. A depressão tira essa energia física e a ansiedade não, ela te motiva até. Tem diferença sim.
D: A dependência química e o vício em drogas ílicitas podem ser consideradas consequências de um quadro de depressão?
E: Sim. Infelizmente é uma fuga. As pessoas acabam utilizando porque te dá uma pequena paz, uma pequena tranquilidade. Podem ser causas, consequências de um quadro depressivo, infelizmente.
D: Como é feito o tratamento com uma vítima da depressão? A solução é se isolar ou encarar a rotina normalmente?
E: Primeiro é entender que tem depressão, já ajuda muito, e procurar atendimento psicológico/psiquiátrico. Isolar não vai resolver nada, é acolher e ficar por perto. A pessoa que cuida de uma pessoa depressiva, não é fácil, tem que ficar por perto. A pessoa que fica por perto, tem que estar bem, porque o depressivo ele pode agredir verbalmente. Acompanhar, fazer de tudo para que esta pessoa aceite os tratamentos e estes tratamentos, como vou repetir, psicológicos/psiquiátricos. Só assim a gente pode contribuir para esta pessoa depressiva.

*Eliane Rose Maio é graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), mestre em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Assis) e doutora e pós-doutora em Educação Escolar pela UNESP/Araraquara. Também é professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação na UEM e tem experiência na área de Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: psicopedagogia, aprendizagem, sexualidade, gênero, diversidade sexual e educação em sexualidade. (Elaborado a partir das informações que constam no Currículo Lattes da profissional — Disponível em: http://lattes.cnpq.br/9562371036022440)

