Capítulo 2: achados e perdidos

Tá bom, Destinatário, estou quase 8 semanas atrasada. Se fosse uma menstruação seria com certeza indícios que o bebê estaria a caminho rsrs. Estou falando é da promessa dos textos semanais que ainda não ocorreram. Ainda. Você poderia me dizer o porquê da gente deixar as coisas perderem o foco que ganharam? Nossa, está complicado e tentei aliviar com o capítulo dois das “Crônicas sem Data”. Isto mesmo, toda esta série de capítulos já possui um nome. E não vou falar mais nada por enquanto pra não dar spoiler, vai ler o que tem abaixo, por favor. =***

- Sumiu.

- Apareci.

- Você é o Liro, correto?

- Isto mesmo. E você a Dayane.

- Sim — ela soltou um sorriso e ficou meio vermelha por ele ter lembrado o nome dela também.

- Olha, o primeiro papo que tivemos foi ótimo e surpreendente, agora não se assuste no que você vai escutar. Ao conversamos aqui ou em qualquer outro tipo de situação, é tudo por pura amizade. Já estou no segundo casamento e ela é a mulher da minha vida.

- Oi??? Hahahahahahahahaha Dayane soltou uma gargalhada alta — Fiquei vermelha, pois não é todo mundo que guarda meu nome.

- É isto mesmo que você escutou. Já percebi que quando nos encontrarmos teremos conversas regadas a assuntos profundos, afinal é impossível ficar dentro de um prédio de 30 andares, oito horas por dia, e não soltar sem querer algo que venha da alma.

- Nossa, que poético você, hein, Liro. Fique tranquilo — Dayane termina de enrolar o pacote de biscoito integral que tinha em suas mãos — me casei no ano passado e também estou com a pessoa que desejo passar o resto da minha vida. Já que você foi tão detalhista e profundo logo de cara, a pessoa que é o amor da minha vida é um homem.

- Uai, se fosse mulher eu não veria problema algum, hehe — Liro acende o cigarro que estava nas mãos desde que entrou na varanda do pilotis.

- Sim, claro, mas fui na lógica do tipo de papo que você começou para cima de mim.

- É, tá certa. E nossa, um casamento recente, que bacana viu? Namoraram muito tempo?

- Por quatro anos. Sabe como é, né… Juntar as escovas de dente quando realmente se tem dinheiro.

- Meu primeiro casamento — Liro disse balançando a cabeça para cima e para baixo em tom afirmativo — Não quer dizer que o seu vá acabar também, viu?

- Hahahahahaha mas gente, você é meio pé da letra demais e sistemático, hein? — Dayane trocou a perna que estava de apoio.

- É, infelizmente sou — Liro mudou o semblante para um pouco de desespero.

- Não, Liro, calma, desculpe. Você está meio perdido nestes dias?

- Digamos que um pouco.

- Aconteceu algo grave? Algo profundo? Putz, é a terceira vez que citamos a palavra ‘profundo’ neste diálogo.

- São nas profundezas que nos perdemos e também nos encontramos. Por isto não gosto de gente superficial, que não abre o coração porque tem medo de demonstrar fraqueza ao fazer isso.

- Gente, você é escritor? Qual é mesmo seu trabalho? Por que tanta sensibilidade assim precisa ser mostrada para o mundo.

- Hahaha obrigado. Sou escritor não. Sou fotógrafo.

- Fotógrafo, você? Seu nome me diz que você fazia algo no meio musical hehe não podia perder a piada.

- Esperado. Meus filhos falam o mesmo.

- E como funciona este trabalho de fotografia? É CLT? Fichado? Freela?

- Sim, a firma comprou minha ideia.

- Hum — Dayanne levantou um pouco as sobrancelhas e prosseguiu — especialidade em crianças, animais, produtos, celebridades?

- Produto — Liro deu uma baforada longa, talvez a mais prolongada daquela conversa.

- Qual? — Dayane trocou a mão que segurava o pacote de biscoito integral.

- Calendário.

- Ahhh, agora o motivo da reflexão da primeira conversa.

- Sim. E acho que também o desta que soltei agora a pouco.

- Hum?

- É que mandaram uma funcionária lá da empresa embora. E ela era super sensível e sonhadora.

- Nossa, qual foi o motivo? Você poderia falar? Não comento para ninguém. Aliás — Dayane olhou em direção ao vidro fume que escondia os dois na varanda do Pilotis — você é a primeira pessoa que consigo conversar melhor aqui neste prédio.

- Legal, bom saber. Então, motivo de corte de gastos, né? A famigerada crise que come o dinheiro de todos, principalmente o nosso, meros proletariados.

- Ahhh com certeza. Chato é que aqueles que são sonhadores não podiam ser desligados. Por mais que eles vivem às vezes desligados do que todos acabam fazendo de forma igual e sem vida — Dayane franziu as duas sobrancelhas no sentido de espanto com o que acabou de dizer.

- Olha, muito boa esta reflexão sua, se uma amiga minha estivesse aqui iria querer usar em algum livro hahaha.

- Hehe obrigada — Dayane voltou a ficar com o rosto vermelho.

- Vixi, os materiais chegaram. Vixi não, que bom — Liro interrompeu de súbito o assunto ao checar rapidamente o whatsapp no celular.

- Eu preciso subir também — Dayane disse abrindo a porta de vidro fume.

- Vixi que a conversa se encerra agora — Liro estendeu o braço em ato cavalheiro para Dayane entrar primeiro.

- Grata. Bom trabalho — ela balançou a cabeça em tom afirmativo.

- Valeu. Até um novo dia, tchau! — Liro terminou de colocar o isqueiro dentro da calça jeans enquanto passava pela porta, fechando-a.

>>>ATENÇÃO: a história continua, viu? ; )