A esquecida arte da cinematografia financeira
Recentemente, precisei pedir a microfilmagem de um cheque. Tendo me tornado uma pessoa economicamente ativa durante o crepúsculo dos talões de cheque, toda a cultura relacionada a essa forma rudimentar de transações financeiras me é um pouco mística. Logo, quando precisei fazer essa solicitação, não tinha muita noção do que receberia exatamente e, intrigado pelo esotérico conceito de microfilmagem, fiquei pensando sobre como seria esse processo em questão.
“Cinco dias úteis. Após esse prazo, você pode vir aqui e retirar a microfilmagem do seu cheque diretamente comigo.”
Assim que eu me levantasse da mesa do atendente, ele imediatamente iria se dirigir aos fundos e bater em uma velha e castigada porta no canto mais ermo da agência. Ao ser atendido por um senhor semi-calvo e de postura curvada, entregaria de forma displicente o protocolo da minha solicitação:
- Seu Justiniano, um homem das cavernas passou na minha mesa hoje e fez o pedido dessa microfilmagem. Caso tenha esquecido, já que a última solicitação provavelmente foi feita quando o senhor ainda tinha cabelos, o prazo continua o mesmo. Você ainda faz questão de estar presente na entrega?
- Ah Taumaturgo, meu jovem, você bem sabe que gosto de fazer um trabalho exemplar do começo ao fim e não abro mão dos meus velhos rituais. Tem algo de mágico na maneira em que os olhos deles brilham quando recebem suas microfilmagens. Você, com seus números e tarifas, nunca entenderia!
O velho senhor tentava explicar para o jovem bancário, que se afastava sem nem ouvir o final da sentença, ao mesmo tempo em que colocava os óculos, bem maiores do que a largura de sua cabeça, para enxergar o número do cheque em questão.
Adentrando sua sala, observaria com saudosismo os inúmeros gabinetes lotados de folhas e papéis. Todos os cheques já emitidos pela agência 0190 devidamente organizados e aguardando serem documentados pelos olhos atentos de um artista como ele. Ainda que o volume de solicitações hoje fosse muito menor, ele continuava executando seu trabalho com o amor dos anos de glória da sua profissão.
Como o artista com respeito irrestrito pela matéria-prima de sua obra que é, ele localizaria a cópia do meu cheque e a retiraria cuidadosamente do envelope em que estava guardada, acondicionando-a em uma mesa bastante iluminada. Com essa mesma delicadeza, abriria sua maleta de ferramentas e tiraria de lá a menor câmera de filmar já vista por qualquer ser humano.

Quase que como em um transe, Seu Justiniano começa a filmar e movimentar sua câmera com a fluidez de um felino, não perdendo um detalhe sequer do protagonista da sua obra: as ranhuras da textura do papel; o picote semi rasgado; as curvas da assinatura. As nuances do preenchimento eram meticulosamente capturadas, criando suspense ao revelar vagarosamente se o nominal estava ou não indicado; ou ressaltando o contraste entre o azul vivo e as falhas da tinta da caneta com o intuito de evidenciar uma possível hesitação do emitente. Tudo era capturado de forma que a essência daquele pedaço de papel outrora tão valioso estivesse perfeitamente representada. “É preciso honrar o tempo que as pessoas perdem preenchendo esses garotões aqui! Cada detalhe conta!” — Nessas horas, sempre lembrava do lema de quando comandava a equipe de microfilmagem mais eficiente da região central de SP (um feito notável, dada a quantidade de bancos do local).
Terminados os dias de captura e, posteriormente, a igualmente cuidadosa edição desse material, seria hora de finalizar e transferir o produto final para a mídia da vez. Antigamente, ele faria a transferência para uma fita VHS tão pequena quanto sua câmera, mas hoje em dia, se viu obrigado a render-se ao digital e passar tudo para cartões micro SD.
Cinco dias úteis passados, lá estaria eu, de frente com Taumaturgo e o seu Justiniano, pronto para receber minha microfilmagem diretamente de suas mãos. Com o cartão micro SD em meu poder, não conseguiria conter minha surpresa ao notar que, embora ele aparentasse encaixar em qualquer leitor padrão, me parecia deveras menor e mais leve do que os outros cartões que eu via por aí. O velho artista, percebendo minha reação, abriria um sorriso, ajeitaria seus óculos gigantes uma última vez e voltaria para seu cada vez mais esquecido cantinho com a satisfação de ter feito outro bom trabalho. Com a certeza de que, ao chegar em casa e assistir aquele vídeo com impressionantes 19 x 10 pixels de resolução, o cliente não se arrependeria de ter contratado os serviços de um profissional cujo talento se encontrava esquecido, mas que nunca deixou de acreditar na qualidade da verdadeira e incontestável microfilmagem de um cheque.
Nem preciso falar o tamanho da decepção que tive quando fui pegar o negócio e o atendente (que, infelizmente, não se chamava Taumaturgo também) me imprimiu uma folha que parecia ser o fax de uma xerox do meu cheque original.
