The Ander & Son Show — I

Tudo que é bom dura o tempo necessário para se tornar eterno.

Um compilado de textos pequenos demais para virarem artigos no Medium.


Fui criado dentro da cultura do “IIIIIIIIÉÉÉÉ!!!”, que assim como seus análogos “VIIIIIIIIIIIIIXXXX” ou “APAVORÔ!!”, compunha o coro que validava quando um fora havia sido dado em alguém.

Lembro que, quando moleque, o fora era meio que o termômetro pra definir quem tomava a dianteira de uma discussão na classe. Era o equivalente retórico da tontura no Street Fighter: o momento em que seu oponente, sem reação, lhe permitia iniciar uma sequência devastadora que poderia finalizar o assunto de vez. Tem uma galera que, hoje em dia, chama isso de burn; mas me recuso a adotar esse anglicismo quando existe um termo bem brazuca pra gente usar.

— Deixa de ser otário, moleque!
— Sou otário, mas sou feliz. Otário é quem me diz!

(a estrutura clássica de um fora básico)
De vez em quando, os participantes da discussão se mostravam particularmente escolados nessa arte da retórica juvenil e a classe inteira era agraciada com uns ralis emocionantes:
— Foda-se!
— Senta no meu pau e (sic) acomoda-se!

A galera já prepara o “IIIIÉÉÉÉ”, mas o outro prontamente emenda:
— MEU PAU É DE AÇO. SENTA NELE QUE EU TE ARREGAÇO!
E aí vinha aquele “VIIIIIXXXXX” reverso ainda mais vigoroso.

Hoje, mais velho, fico um pouco preocupado que isso esteja completamente impregnado na minha essência e eu nunca vá me acostumar com o vazio na alma causado pelo maduro silêncio após se presenciar um belo apavoro verbal. Pior ainda é sentir falta de um corinho te levantando a moral quando o moço do banco te diz que “essa conta tá vencida e só pode ser paga em um Bradesco” e você, já esperando essa resistência e todo certo de si, responde com um resoluto (e previamente ensaiado na sua cabeça):

“Mas, grande, dá uma lida ali embaixo que tá dizendo ser pagável em qualquer banco até amanhã”.

Eu curto muito as progressões harmônicas do Deafheaven.
Tem umas horas que o bagulho consegue virar uma justaposição esmagadora de texturas opressivas e, ao mesmo tempo, te confortar com um agonizante senso de esperança trazido pelas melodias das guitarras e pelos berros do vocalista.

Os caras meio que sustentam por vários minutos o momento da realização de se estar tão na bosta que, à partir de agora, é preciso reagir pois não tem mesmo mais como piorar. É trilha sonora pra se estar em um penhasco, assistindo de longe sua casa pegando fogo com sua família dentro, e jurar pros céus e pra todos os deuses que, mesmo que lhe custe seu último suspiro, você caçará os responsáveis por essa tragédia.


Algumas músicas, independente do gênero ou da sua preferência pessoal, tem o potencial de grudarem na cabeça como uma bola de Ping Pong (o chiclete) grudava na sua cara após você a estourar.

Ontem, no mercado, começou a tocar “O Segundo Sol” da Cássia Eller e eu sabia que, como de costume, ficaria com aquela praga repetindo na cabeça o resto do dia.

Felizmente, meu corpo parece ter desenvolvido um mecanismo de defesa bastante eficiente pra impedir que a mera execução de uma música seja suficiente pra macular o resto do meu dia. Infelizmente, esse mecanismo de defesa consistiu em permanecer tocando até agora um loop mental infinito do refrão de “Wasn’t Me” do Shaggy.


“Você viu esse último episódio de The Leftovers?”

“de The Leftovers”. Acho que nesses casos super podiam oficializar o uso do apóstrofo supressor como em “d’água” ou “d’Angola”, né? Segunda temporada d’he Leftovers. Os personagens d’he Walking Dead.

Só assim, quem sabe, podemos começar a pensar em abordar assuntos mais linguisticamente complexos como o cancelamento de The Defenders.

Mais importante ainda, é um passo inicial pra se tentar resolver a clássica problemática do The Flash.

Aquela agonizante tensão de quando o âncora do jornal anuncia o correspondente externo com um “Bom dia, fulano!” e o repórter continua ali na tela, olhando fixamente pra câmera, sem resposta e esperando uma deixa que já foi dada. O apresentador, irredutível, se mantém em silêncio por intermináveis segundos, estendendo o momento até o limite do insuportável, provavelmente na esperança de que seu companheiro eventualmente se manifeste e ele não precise oficializar o vácuo que tomou em rede nacional:

“Parece que estamos tendo alguns problemas técnicos. Logo voltaremos com a Ana Paula e as informações sobre a grande liquidação de rua em Salvador.”
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