Pequenos grandes talentos

Todo mundo sempre achou que poderia entrar para o Livro dos Recordes


O William era um amigo da minha infância que, certa vez, me disse ter feito xixi por ininterruptos 47 segundos e que havia batido o recorde de mijada mais longa do Guinness Book. O único detalhe era que ninguém estava lá pra cronometrar e, por isso, seu feito nunca seria registrado. Lamentavelmente, ele teve a oportunidade de receber a maior honra que qualquer criança dos anos noventa poderia almejar, mas deixou que ela escorresse por entre seus dedos: entrar pro Livro dos Recordes.

Naqueles tempos, para crianças vivendo em uma época pré-internet, ter um Guinness Book nas mãos era como navegar no YouTube hoje em dia. Ali, provavelmente, era sua única oportunidade de vislumbrar uma aranha do tamanho do ombro de um indivíduo ou desmistificar o imponente título de “Homem Mais Alto do Mundo” ao perceber que isso só significava ser ultra magro e levar uma vida mais sofrida por causa de algum distúrbio hormonal ou genético. Em uma época cuja principal fonte de conhecimento, a enciclopédia, era impregnada de um tom formal e sisudo demais para se desassociar das obrigações escolares, o Guinness servia como portal para um universo de informações que eram tão impressionantes e bizarras quanto eram inúteis, mas que, em sua celebração das singularidades da raça humana, nos faziam crer que todos podíamos ser especiais de alguma maneira.

“Para cada 113,76 km andados, há outros
113,75 km superados.”
- FURMAN, Ashrita

Tudo bem se você nunca se tornasse o homem mais forte do mundo ou não tivesse colhões pra deixar um eventual tumor na próstata chegar ao tamanho de um potro! A mera existência de um comitê formal para validar oficialmente qualquer realização, por mais estapafúrdia que fosse, alimentava a certeza de que, seja otimizando a organização do porta-malas de um carro ou bebendo um copo de Coca em uma golada, alguma habilidade nunca antes desempenhada com tanta proficiência lhe estava reservada. Entrar no Livro dos Recordes significava assinar seu nome em um segmento muito particular e específico da história, finalmente atestando ao mundo que, sim, você era único e insubstituível.

Com o passar dos anos, comecei a desconfiar que o William tivesse inventado aquela história toda. Nunca consegui comprovar a existencia do recorde que ele mencionou, mas os míticos 47 segundos que pareciam uma eternidade para nossas joviais e potentes bexigas se tornaram deveras curtos perante as dramáticas mijadas resultadas da combinação entre o consumo do álcool e a gradual perda de pressão urinária que começa aos 25 anos. Ainda assim, nem mesmo a mácula de uma mentira infantil foi o suficiente para invalidar essa percepção e, até hoje, em tempos que a Internet banaliza todo e qualquer feito extraordinário, sigo apreciando a magia existente nesses pequenos grandes talentos latentes em cada um de nós.