Qual era a idade dos Cavaleiros do Zodíaco? Você lembra quantos anos o Seiya tinha? Convenientemente, tendemos a esquecer que o Cavaleiro de Pégaso, nosso grande bastião da perseverança do homem médio, tinha apenas 13 anos. Que dentre os cavaleiros de bronze, o mais velho era o Ikki do alto dos seus 15 anos, enquanto a idade dos imponentes e sábios cavaleiros de ouro girava em torno de 18 e 20 anos.
“Ah, Anderzão, mas tem muito moleque de 13 anos que já sabe muito bem o que faz!”
E é justamente aí que a questão fica ainda mais complexa, já que, se formos analisar suas histórias, esses moleques nunca tiveram realmente uma escolha.
Como é mostrado no anime, a Fundação Kido adotava órfãos com o intuito de treiná-los por anos (aparentemente, não se importando de tratá-los como lixo nesse processo) para que um dia fossem aos lugares mais perigosos do planeta lutar e, caso sobrevivessem, se tornarem gladiadores de luxo em um torneio organizado pelo seu fundador, o milionário Mitsumasa Kido.

E aí, já começamos a nos perguntar: que tipo de autoridade é conivente com o fato de um velho excêntrico tirar crianças da rua, fazer da vida delas um inferno por anos e, quando chegarem na adolescência, dar perigosas armaduras de metal para elas se porrarem em rede nacional? Que sociedade é essa que retira prazer de uma luta como aquela entre o Seiya e o Shiryu, em que duas crianças que cresceram juntas se vêem obrigadas a quase se matar numa batalha sangrenta e perdem mais sangue do que um búfalo adulto poderia suportar perder? E que tipo de pessoa sou eu por não ter me questionado antes sobre toda essa natureza dúbia da Guerra Galática?

À luz desses fatos, a Saga do Santuário transforma o Pégaso, símbolo máximo da determinação e honra dos cavaleiros, em uma figura trágica e quebrada pelos anos de abuso e escolhas que fez. Ao longo dos episódios, vemos aquela criança, que só havia tomado parte nessa insanidade para que pudesse reencontrar sua irmã (de quem foi separado pelo próprio Mitsumasa), começar a arrancar a orelha dos oponentes, parar o coração de outras crianças com motivações tão válidas quanto à dele e, basicamente, trilhar um caminho de violência que culmina na sua própria autodestruição.
Agora, anos depois, cabe a cada um de nós, telespectadores, questionar nosso conformismo diante da maneira com que Mitsumasa Kido se apropriou do amor e inocência de uma criança, fez dela refém desse amor e usou isso para transformá-la no guarda-costas de uma menina mimada com delírios de grandeza.
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