EU CONHECI UM SÍRIO QUE CHOROU NOS MEUS BRAÇOS POR SAUDADES DA FAMÍLIA

Cauê Marques

sso aconteceu alguns meses antes do Brexit, o plebiscito que oficializou a saída do Reino Unido da União Europeia. Um dos fatores que motivou a maioria da população britânica a optar pela saída do bloco econômico foi o argumento — falacioso — de que a presença de imigrantes estaria fazendo mais mal do que bem à economia do país. De maneira geral, pessoas mais velhas e de cidades pequenas — que não sentem a presença de estrangeiros no seu cotidiano — foram o fiel da balança na decisão pela saída.

Passei a maior parte de 2016 vivendo em um dormitório universitário na zona sul de Manchester, Noroeste da Grã-Bretanha. O Owens Park, local onde os estudantes moram, é um lugar arborizado e limpo. É um terreno enorme e murado. Tem ruas ordenadas e canteiros podados semanalmente. Os dormitórios — com exceção de um grande edifício de dez andares logo ao lado do portão principal — são pequenos prédios de dois andares com quinze quartos cada. A estrutura dos prédios varia entre os tipos de tijolos à vista — uns mais vermelhos, outros mais rosados — que compõe uns 90% das paisagens urbanas do Reino Unido. Há uma enfermaria, duas bibliotecas e uma pequena cantina no campus que tem cerca de três mil alunos-residentes.

O Owens Park fica a poucas quadras de distância de Rusholme, um bairro de imigrantes. Um trecho da rua que atravessa o bairro é chamado de Curry Mile. É, literalmente o que oferece o nome, uma milha do curry. São dezenas de restaurantes de comida indiana, síria, turca, barbearias e supermercados com produtos orientais que chamam atenção pelos luminosos coloridos e menus com escrita árabe. Eu atravessava esta milha todo dia no caminho para a universidade. Rusholme é um bairro pequeno que transformava a paisagem urbana em algo muito mais distante — mas ao mesmo tempo mais próximo — do que seria uma cidade inglesa padrão.

Esta dualidade distância-proximidade não é tão contraditória ou difícil de se explicar: se a maioria destas cidades tem suas estruturas e visuais padronizados pelos tijolinhos à vista de bairros industriais e arquitetura vitoriana, por outro lado nada pode parecer mais típico do que a presença da cultura indiana e árabe nestes espaços. À maneira deles, os imigrantes e as famílias que foram criadas após os primeiros fluxos de imigração da primeira metade do século XX colorem um cenário que é, quase que por regra, um tanto cinzento e pouco afeito a mudanças.

Nos grandes centros urbanos no Reino Unido, especialmente na Inglaterra, o que se vê em relação aos bairros formados por famílias de imigrantes é a criação de comunidades que são abertas ao diálogo mas enfrentam uma clausura velada no que diz respeito à maneira como são tratadas. Não é como se fosse um preconceito “clássico”, se é que se possa definir assim este tipo de atrocidade. E que não é impossível ouvir uma ou outra vez na rua que “esses marronzinhos estão destruindo o país”. Mas, no fundo, o que está intrínseco às relações sociais é algo que está puramente relacionado a um argumento quase ingênuo de autodefesa do tipo “será que é tão difícil pra eles não ficarem falando outra língua que não o inglês?”. Para mim, é isto que está em jogo para além da burrice óbvia de deixar um bloco econômico — porque para o revés econômico sempre há solução.

Rusholme era a maneira que eu tinha de me aproximar de coisas que, à primeira vista, pareciam brasileiras demais para se encontrar em estabelecimentos ingleses — feijão preto, limão verde fresco, coração de frango, beiju. O acolhimento quando não acontecia pelo fato de eu ser brasileiro e ser associado com futebol, música ou carnaval — o que chegou a me valer descontos na barbearia — acontecia pelo fato de eu ser estrangeiro. E em um ano em que muito se discutiu isso no Reino Unido — e no Mundo — por causa do Brexit e da candidatura de Trump, foi significativo estar nesta posição de expectador de determinados conflitos ou ter de participar de determinadas trocas apenas pela condição de não-pertencimento.

Era um sábado à tarde chuvoso quando eu estava fazendo compras pra semana escutando música brasileira nos fones e cantando em português — um hábito que eu mantive por lá que por algum motivo me fazia bem. Eu cantava um trecho de “Maria Bethânia” do Caetano quando um homem se aproximou de mim e bateu no meu braço. Eu tive que tirar os fones para ouvi-lo.

Ele me contou, com um inglês de sotaque carregado, que conhecia a música. Perguntei o porquê. Respondeu que era da Sìria e tinha saído do país no início dos anos 2000 para trabalhar como estivador em um cargueiro que fazia uma rota que saía do Mediterrâneo para o Brasil regularmente. A ideia era juntar dinheiro para tirar esposa, filho e a mãe da Síria no futuro, tentar se mudar para Líbano ou Turquia. Ficou neste emprego por mais de dez anos e em uma das viagens um amigo o presenteou com alguns CD’s velhos, entre eles uma coletânea de canções do Caetano que tinha alguma das músicas compostas em inglês. Gostava de “Maria Bethânia” porque se comunicava com a família por cartas.

Depois de 2011 perdeu contato com a família que teve de fugir por conta da Guerra Civil. Voltou para a Síria duas vezes na tentativa de encontrá-los, sem sucesso. Dois anos depois foi morar no Reino Unido a convite de um amigo e ganhou licença para pedir asilo. “Gosto muito de música e sempre que escuto os CD’s que ganhei no Brasil eu choro de saudade do que consigo entender”. E me abraçou. Choramos juntos no meio da seção de frios. Disse que tinha uma pequena kebaberia na Curry Mile mas nunca mais o vi ou procurei.

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