GOELA ABAIXO, MAS COM JEITINHO

Zé Marques

Nunca me esqueço do susto que eu, um baiano, tomei quando estive em São Paulo pela primeira vez e percebi que aquela era uma cidade onde as pessoas gostam de se levar a sério demais. Longe de mim generalizar, mas eu estava acostumado com Salvador, um lugar capaz de transformar suas mazelas e situações adversas em momentos lúdicos.

Ainda lembro bem de um momento de choque. Ia com um grupo de amigos a um show e o único transporte direto ao local do evento era uma van clandestina. Entramos e o motorista começou a empurrar pessoas para dentro. Mais do que cabiam na van. Obviamente, começamos a reclamar, e a resposta que ouvimos do motorista (um grito, na verdade) foi: “Mano, isso aqui é meu trampo, tô ganhando meu dinheiro e vou pôr quantas pessoas eu puder no carro, entenderam? Ninguém aqui está de brincadeira não.”

Do meu canto, só conseguia lembrar: já estive em uma situação igual a essa na Bahia e o motorista fez a mesma coisa, mas lidou de forma diferente. Com o velho jeitinho. Cada vez que ele dizia “calma, galera, só mais um, aqui é que nem coração de mãe”, jogava mais cinco pessoas para dentro.

Acompanhei de longe o último sucesso da música baiana, lançado no fechar das portas de 2016, o MC Beijinho. Acho todo o furdunço em cima dele muito divertido e gosto pra caramba de “Me Libera, Nega”. É o tipo de hit que só podia estourar em uma terra que leva muito a sério a ideia de não se levar a sério.

Mas, olhando a situação de um plano um pouco maior, é fácil perceber que estamos agindo que nem o motorista da van da Bahia: sabemos que tem algo errado naquele veículo superlotado, mas preferimos encarar como se fosse um coração de mãe.

Com dúzias de regravações e elogios de Caetano Veloso, MC Beijinho foi pouco a pouco empurrado “com jeitinho” abaixo das goelas do público pelos produtores de axé — os mesmos que passaram os últimos anos renegando artistas da periferia baiana.

Volto um pouco para quem não sabe. MC Beijinho é Ítalo Gonçalves, de 19 anos, morador da Liberdade, bairro popular de Salvador. Foi preso ao roubar dois celulares e, enquanto PMs o levavam à viatura, era acompanhado pela câmera de um programa policial. Aproveitou a situação para cantar uma composição própria, chamada “Me Libera, Nega”.

A canção virou hit na internet, foi tocada por Luan Santana e Wesley Safadão em shows, até que produtores viram lucro no menino. Decidiram gravar a música, lançar videoclipe e distribuir o conteúdo.

Em época de crise do axé (em tempo: chamam de crise, mas a verdade é que há mais de dez anos o axé não vai bem. Está mais para uma lenta e agonizante morte), MC Beijinho tem sido tratado na Bahia como a “música genuína que vem das ruas”.

Mas a verdade é que a música genuína que vem das ruas de Salvador nunca parou de tocar, não é (só) MC Beijinho, e sofre preconceito da indústria do carnaval e da elite soteropolitana.

Outro dia me disseram que MC Beijinho é a volta do homem cordial. Um monte de branco (os mesmos que queriam distância de Ítalo) achando bonitinho um pobre da favela cantando uma música engraçadinha.

É verdade. Ainda mais se você olhar o contexto. “Me Libera, Nega” é um axé com uma letra inocente que dá para ser ouvida por pobres e ricos, brancos e negros, crianças e velhos.

Quem é local em Salvador sabe que o pessoal de fora chama de “axé” tem duas subdivisões: o axé, propriamente dito, que evoluiu do frevo e tem como marco “Fricote”, de Luiz Caldas, e o pagodão (ou pagode baiano), um ritmo mais percussivo.

Nos anos 2000, de forma geral, as composições de axé nasciam da elite e as do pagode, da favela. Com o tempo, pagodes menos crus, bem produzidos, mais formatados para um ouvinte padrão e com vocalistas com “imagem limpa” alcançaram sucesso nacional –como o Parangolé, com Leo Santana, ou Psirico, com Márcio Victor.

Mas só em 2015 um integrante mais representativo da música da favela conseguiu emplacar um hit que quebrou barreiras no estado.

Era Igor Kannário com “Tudo Nosso, Nada Deles” — frase repetida exaustivamente na letra, que logo foi taxada como “de ladrão”. Mas como era grudenta demais, parte da elite finalmente abraçou Kannário.

Autointitulado “príncipe do gueto”, Kannário é conhecido na Bahia por ser… polêmico. Já foi preso algumas vezes por porte de drogas, uma vez foi assaltado e reclamou na TV local que “ladrão não rouba ladrão”, cantou em uma banda que tinha letras com menção a cocaína e um público que curtia arranjar confusão. Era tido como um cara que estimulava brigas do público.

Porém, com “Tudo Nosso, Nada Deles”, Kannário conseguiu chegar a pessoas que não ouviam o seu som, e passou a ser elogiado nos meios musicais. Quase teve o trio impedido de desfilar no carnaval por causa do público, mas conseguiu após “milhares de pedidos” ao prefeito ACM Neto.

Ainda assim, continuou sendo imprevisível demais. Como tinha uma mensagem muito direta, não dava pra empacotar no mundinho de ilusões da “música baiana”. Na van do coração de mãe, não cabe a realidade do cara que está trampando (mesmo que trampe com gingado da Bahia).

Apesar de tocada exaustivamente, “Tudo Nosso…” não conseguiu, injustamente, ganhar os concursos de melhor música do carnaval. Como consolo, o cantor foi elogiado pelo prefeito em todos os eventos na periferia. Lá, Neto não podia falar mal do príncipe, ou perderia eleitores.

A partir daí, o Kannário baixou as asinhas. Disse em entrevista que queria ser como Bell Marques, ex-Chiclete com Banana e dinossauro da indústria do axé. Era o sinal de que estava atrás de conciliação.

O ano de 2016 marca uma virada na domesticação do Kannário. No carnaval, veio com um tom mais brando e uma letra que pedia ao folião para agir “com respeito e segurança, porque tem milhares de crianças”.

Essa também não venceu nenhum concurso, e não conseguiu a repercussão de “Tudo Nosso…”. Mas, meses depois, o pagodeiro ganhou: o cargo de vereador na prefeitura de Salvador, com 11 mil votos (ainda assim, em um lapso dos velhos tempos, publicou na internet um vídeo em que dizia ser o Pablo Escobar da Bahia).

Poucos meses depois, o MC Beijinho apareceu, mas foi logo amansado. Como não criou um público considerado insubordinado, pode levar o prêmio de música do Carnaval de 2017. É bom que leve, mas só foi pra frente porque tinha jeitinho.

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