HÁ URGÊNCIA EM ESTAR VIVO

Stefano Maccarini

Uma vez por ano, pelo menos, minha mãe dá um jeito de me ligar pra duas coisas: a primeira é pra perguntar se eu to usando droga e se os meus amigos usam droga e a segunda é pra dizer que eu não tenho foco, que atiro pra todos os lados, não faço nada direito, to sempre pulando de emprego em emprego e que claramente não estou apto a viver na sociedade do consumo.

Por volta de fevereiro de 2016 recebi essa mesma ligação após o meu pior período profissional na cidade de São Paulo. Com dívidas no banco, me sentindo sozinho e numa paralisia criativa que me fazia perder o sono. Eu não tenho uma formação massa nas áreas em que atuo, nunca fiz nenhum curso de cinquenta mil reais na New York Film Academy, não sou uma pessoa muito extrovertida e odeio essa lógica de panelinha que impera em São Paulo. Não é difícil imaginar que muitas vezes me sinto isolado.

Comecei a tomar remédio pra depressão e ansiedade mais ou menos na semana da votação do impeachment na câmara dos deputados. Naquele dia nefasto, após o show de horror na TV Câmara, fui agredido na frente do MASP por brutamontes com a bandeira do Brasil. Consegui fugir de bicicleta pela contramão após ser derrubado e chegando em casa senti pela primeira vez que as coisas dali pra frente não iam melhorar. Com o país se desmanchando na merda e a minha vida pessoal mais ou menos no lixo, recorri aos meus para se não me ajudar ou ajudar o país/mundo, pelo menos tentar escrever sobre isso.

A ideia de falar, em um zine, sobre a experiência de um grupo de pessoas em um determinado espaço de tempo já me tinha ocorrido. Tentei sem sucesso organizar um tipo de hackathon, fazer todo o conteúdo de uma revista em 24 horas. Ideia ótima, todos disseram, mas nas duas vezes que tentei marcar a missão foi abortada em cima da hora por problemas de agenda. Frustrado, comecei a contemplar outros intervalos de tempo. Foi quando a ideia de uma publicação anual apareceu pela primeira vez na minha cabeça, já nesse formato. Em agosto mandei os primeiros e-mails pedindo colaborações pra DEZESSEIS e agora ela existe.

Após me recuperar da depressão e ter parado com a medicação, comecei a abrir a minha vida com a minha a família e tentar compartilhar mais com eles. Eis que quando comecei a fechar esse zine minha mãe me liga, de novo perguntando se eu to usando droga e me pressionando pra ganhar dinheiro, ser alguém na vida, etc. É louco como tudo que eu sentia antes de começar a tomar remédio voltou na hora: o sentimento de fracasso, a falta de pertencimento, a síndrome de impostor.

Todo o processo de fazer essa publicação me ajuda muito a sair do isolamento e a afirmar uma série de valores. Sei que vou ficar feliz pra caralho se eu conseguir reunir uma vez por ano esses textos todos, e me aproximar de pessoas que eu admiro através de uma ideia. Se alguém ler, então é o que eu chamaria de lucro. Sendo bem egoísta é bem esse o motivo pelo qual eu faço zines e vou continuar fazendo até o dia em que isso deixar de ser verdade. 
Se você chegou até aqui, parabéns, leia tudo e passe pro seu amigo. Em seguida, mande-o passar pra outro amigo. Nas próximas páginas tem alguma coisa parecida com uma retrospectiva que evita olhar pra trás enquanto tenta manter uma cronologia dos acontecimentos. Nos vemos na DEZESSETE e se você quiser colaborar é só mandar um email pra oi@tefo.press

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