MARACANÃ É OUTRA HISTÓRIA

Saulo Pereira

1º ato

O divórcio foi amigável. O Elevado da Perimetral ficou com as lembranças do passado. A Praça Mauá, com o Museu do Amanhã. Era o fim de um casamento de 56 anos. Um relacionamento abusivo sim, em que ele a escondeu o quanto pôde sob suas hoje tão famosas vigas de aço. No fim, o desquite foi melhor para os dois. O viaduto pôde finalmente descansar. Solteira outra vez, ela se empoderou.

A vida social do logradouro anda agitada. Naquela tarde de domingo, a chuva encontrou a Mauá às quatro. A procissão de sombrinhas coloridas seguia em direção à Rio Branco. De cartola e mão na cintura, o barão observava a baía e os visitantes do topo do obelisco. À sua frente, o pessoal começou a marcar posição. O melhor lugar era ali, de cara para os dois telões. Um maior, nos fundos do palco; outro menor, no topo da estrutura. De vez em quando, um camelô passava com cervejas escondidas em uma mochila. E todos ficaram ali, aguardando os fatos.
 
Se estivéssemos em Copacabana, o sol poente da tardinha deixaria uma saudade na gente. Mas estávamos no Centro. Centro não: porto, Cais do Porto. Ninguém ali era dado a sentimentalismos há muito tempo. Pelo menos, até aquele momento. Porque aí tocou o hino nacional e os mais patriotas se arriscaram a cantar.

E, depois disso, o jogo começou.

A seleção não demorou a dar pequenas alegrias. Um passe de letra do Renato Augusto no segundo minuto. Uma finalização um pouco depois. Aos 17, um tipo com a camisa azul da Itália profetizou: “Se chegar aos 21 sem tomar gol, ganha”. E, como todas as profecias, essa também não teve explicação. O clap-clap-clap dos aplausos ecoou quando o juiz marcou a falta, aos 25, na boca da área, no lado esquerdo do goleiro. E também este clap-clap-clap se revelou profético.

A grande verdade é que a seleção hoje não tem mais um grande batedor de faltas. Essa é uma tradição antiga, que remonta a craques como Zico e Ronaldinho Gaúcho. Dali, é certo que qualquer um deles faria. Bater falta é arte. Exige dom e treino. Mas o que temos hoje é Neymar. Ele toca a bola com o pé direito. Ela descreve um arco tranquilo em direção ao canto esquerdo superior do retângulo. O alemão vai para o lado certo, mas não dá. E aí, não teve jeito. Gol do Brasil.

Copos foram lançados para o alto sem nenhum pudor. Gritos, pulos, abraços. Um cara com uma dessas buzinas de gás logo atacou com o instrumento. “Maracanã é outra história”, disse um torcedor com a camisa do Neymar. E todos sabiam bem de que história ele estava falando. Naquele preciso instante, ninguém ali estava pensando no julgamento do impeachment no Senado na última semana de agosto, no desemprego acima de 11% no estado do Rio no segundo trimestre de acordo com o IBGE ou nos salários atrasados desde 2015 dos servidores fluminenses. Éramos todos apenas brasileiros, campeões e nada além disso nos interessava.

Daí em diante, tudo se resumia a uma questão de tempo. Trinta e um minutos e o torcedor, inocente, já fazia festinha para a câmera da Globo. “Olê, olê olê, olá… Neymar, Neymar…”, cantavam. “Brasil é ouro, tem como não”, cravou unzinho, com uma cerveja na mão. A coisa chegou num ponto em que o Neymar deu uma lambreta dentro da área do rival aos 40 minutos do primeiro tempo, que terminou com aplausos dos espectadores que assistiam a tudo na Praça Mauá.

2º ato

O clima era de festa no intervalo. “Caraca, moleque”, berrou Thiaguinho nos altos-falantes, onde foi sucedido por Wesley Safadão. O local, que meia hora atrás não parecia tão cheio, já estava lotado de ponta a ponta, do Terminal de Desembarque até o edifício A Noite. “Será que eu serei o dono desta festa?”, se perguntou Aroldo Melodia no sistema de som, antes do segundo tempo começar. Profético?

1 a 0 é sempre muito pouco. Vencer por 1 a 0 no futebol é como gastar o salário inteiro e terminar o mês sem mexer no cheque especial. Não é vantagem, é obrigação. Mas mesmo quem gasta o salário todo às vezes se ilude e pensa que nunca vai se endividar. Foi mais ou menos isso o que aconteceu com o Brasil.

Aos 58 minutos e 36 segundos, uma bola resvalada no meio da área, um chute de primeira e um goleiro que caiu errado nos colocaram o vermelho. Dois anos depois, três palavras conhecidas

Só um homem comemorou o feito em toda a vasta e populosa planície da Praça Mauá. Seu nome é Heinz Andreizak. Trata-se de um alemão típico, desses que usa óculos, tem cabelos brancos e assiste futebol com uma indefectível cornetinha de som agudo, que ele sopra conforme a ocasião. “Game very nice. Brazil is a good team. Germany too. But it’s another team, not that one”¹, se prontificou a dizer. Maracanã é outra história, não aquela. “Germany’s team always fight”. I see.

Foi então que começou o sofrimento. Cada chance deles era motivo de gritinhos de desespero nossos e sopros na cornetinha de Heinz. Cada lance complicado para o Brasil era um sorriso amarelo dele. Quando o juiz não deu um lateral aos 86 minutos, um camarada de boné e voz fina e meio rouca se desesperou: “Meu Deus do Céu!”. Três minutos depois, o amigo de azul e fone no pescoço implorou: “Toca, pela amor de Deus”. Mas eles não tocaram. Não teve jeito. Prorrogação.

3º ato

A prorrogação é algo anti-natural. A vida não tem prorrogação. É da natureza do que começa, a seu tempo, terminar, sem se estender para além disso. Ninguém que vive tem uma doença, entra em coma, joga dois tempos de 15 minutos e, se não consegue resolver, bate cinco cobranças para decidir. Mas o futebol, arte maldita dos homens, insiste em contrariar as regras do universo. Eliminou a morte súbita. Matou o mata-mata. Mas manteve a prorrogação. Por quê?

“Bate cruzado”, gritou o homem com a blusa do Brasil debaixo do Barão. O perverso dos pênaltis é que eles são o anúncio da própria derrota. Ninguém começa a cobrar pensando que vai ganhar. E isso é o suficiente para que ninguém queira bater. Neymar no ataque. 105 minutos de aflição. “Vai, vai, vai”, dizem todos. Neymar não vai. “Volta, Romário”, pede um gaiato com uma Brahma na mão. Para nossa desgraça, Romário virou senador, não volta mais. Um cruzamento para o nada aos 108 minutos arranca do fala-fino um sinceríssimo “Isso é hora?!”. Nove minutos depois, o Brasil perdeu sua última chance. A praça sussurou um longo “Uhh…”. Não teve jeito. Que viessem os pênaltis.

As nossas pernas e as pernas deles estavam cansadas. Mas eles precisavam jogar e nós precisávamos ficar de pé para vê-los. O primeiro foi Ginter. Gol. O segundo, Renato Augusto. Todos comemoraram numa festa de segundos. Porque logo veio Gnabry, que também marcou. E depois Marquinhos, que devolveu na mesma moeda. Brandt. Lá dentro. Rafinha. Idem. Süle. Fez. Luan. Brilhou. Como pode ninguém errar numa hora dessas? Finalmente, Petersen. E Petersen errou. Sabe lá o que passou pela cabeça de Petersen neste exato momento. Só sei que em nós uma flor nasceu no asfalto. Seu nome é esperança. E quis o destino que a decisão estivesse a seus pés. Neymar, o mito, o herói, aquele a quem a bola procura.

O tempo parou. Depois, tudo explodiu num grito só. Um banho de cerveja caiu sobre as nossas cabeças. Alguém ali, anônimo no meio da multidão, pensou: “O Brasil finalmente é campeão olímpico de futebol”. E o mais louco de tudo era ver as pessoas cumprimentando Heinz. Mães posicionando os filhos e pegando o celular para tirar fotos. Já era noite quando fizemos as pazes com a vitória.

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