OS PÁSSAROS

Willian Vieira

Era uma luta desigual, a do passarinho que ele ouvia do quarto, pela fresta da janela, contra o marulhar dos carros na avenida lá embaixo. Na cidade inteira, com suas cordas vocais milimétricas, os pássaros duelavam com o barulho de carros e ônibus, caminhões e motos, monstros mitológicos sem carne e sem osso, só lata e borracha, fumaça e grunhidos. Ele só ouvia os carros.

Por que, se havia tanta beleza naquele som de bicho vivo, tanto quanto haveria numa fazenda ou na natureza, onde ele pudesse vê-lo ou distinguir seu som do resto da loucura? Ele nunca percebera o canto − se percebera, nunca aproveitara. Mas que relaxante podia ser o canto de um pássaro (que pássaro seria, perguntava-se agora que levantava do colchão jogado no chão) mesmo que afogado pelo zunido da rotina. Ele olhou o celular; o livro; a maconha em flor no pote de geleia; os tampões de ouvido sujos. Abriu a porta e saiu.

O ruído da cidade ensurdece qualquer ser humano com algum grau de sensibilidade e ele era sensível como essas plantas que murcham ao toque, ou esses suicidas incompreendidos, confusos com o barulho do inferno de todo dia, que se matam aliviados jogando-se de sacadas de arranha-céus apenas em busca de um punhado de silêncio dentro da cabeça. Mas os pássaros não temem por nada. Eles não se alteram. Ele, na rua, perdia a noção de espaço e de tempo, temia pela própria vida − que ela continuasse assim −, mas os pássaros, eles seguem cantando, tentando nos fazer felizes (agora fora longe demais, quase fora atropelado ao sair do portão do prédio, males do pensamento livre). 
 
Um abrigo, sempre. À direita ou à esquerda há um parque, praça, árvore solitária ou canto no telhado de uma casa com um pássaro cantando, quase uma praga urbana. Há sempre a outra metade do copo para um pássaro. Já ele reclamava do ruído, da confusão dos sentidos, da agressão quase tátil que rouba do espírito a capacidade de fazer algo bom, de pensar, existir com certa consciência. Ele reclamava dos carros que quase o atropelavam porque ele insistia em vê-los, em admiti-los ao mundo dos sentidos ao atribuir-lhes uma falta de sentido qualquer. Eles o detestavam, pedestre, presos aos pés. E não livre para voar, como um pássaro. O motorista ama a beleza do pássaro ou o fato de ele voar longe de seu belo carrão recém-comprado em prestações? 
 
Um pombo atravessou seu caminho, parado bem faixa de pedestres. Parecia assustado e relaxado, um pombo com felicidade de pombo e medo de homem. Havia restos de biscoito no chão. E o som de uma criança que se ia. O pombo tateia o chão com os pés alaranjados à esquerda e à direita, numa dança improvável, mas sóbria. Sem tempo para julgamentos, põe-se a bicar o chão, comendo o biscoito de chocolate (o chocolate não pertence ao horizonte do pombo, mas ele o devora, ele o aceita, ele vive nele sem ressalvas). Quanta beleza ontológica há num pombo que come os despojos do homem. Ele pode voar para longe, para uma natureza perdida no tempo, atávica como o movimento. Mas não − voa no máximo até a próxima cidade. O pombo nunca abre a porta e sai, porque isso não faz o menor sentido.
 
“Por que você não olha por onde anda?” Depois do encontrão, os olhos negros piscam velozes no rosto contraído. Ele se desculpou, por onde andava a cabeça, o excesso de barulho o deixava zonzo. Devia então morar no campo, debaixo de uma árvore, ouvindo os pássaros. A cidade não era lugar para os fracos, nem para os sensíveis. Que belo sorriso, pensou. Desarmada a armadura, era um ser glorioso. Ela é que havia esbarrado nele, pedia desculpas, mas ele não devia ficar acocorado na faixa, poderia ser atropelado. Ninguém pode ficar bravo com um ser tão desprotegido, pensou ela. Como um pássaro que acaba de sair do ovo e ainda não sabe o que lhe espera do lado de fora. “Por que não tomamos um café e esquecemos esse encontrão?” Porque não, disse a japonesa, muito bonita, sem sentimentos no rosto. 
 
Os pombos seguiram arrulhando e comendo na faixa de pedestres de uma rua qualquer da cidade, até que uma BMW rasgou a cena buzinando a 80 km/h. Foi o tempo de ele se jogar para trás e cair sentado. De volta a si, viu apenas a traseira do carro apequenando-se no horizonte, os faróis apagados. E os pedestres em volta, congelados, mortos de medo e curiosidade com a quebra na rotina. E viu, por fim, o rastro de carne e penas, o patê de pombos colado ao preto e branco do asfalto. Era um domingo vazio de sentido e agora dominado pelo silêncio já atávico após a passagem de um carro. 
 
No café ele o esperava. Tremendo por um cigarro, levantou rápido e o cumprimentou com um beijo, a caminho da porta. “Pede pra mim outro bolo, um café, e um pouco de paciência, porque não está fácil.” Migalhas na mesa. Um pombo, pensou, um pombo se alimentaria delas com louvor, se achando o próprio Espírito Santo. A vida não era para os sensíveis, não ali naquela selva de pedra. Nem para os pombos. As pessoas esquecem sua natureza tão rapidamente quanto o que comeram ontem, não sabem a que vem, nem por quê. Então não se incomodam em deixar-nos esperando. “Dois bolos, dois cafés, e um pouco de paciência com a gente, porque não está fácil.” 
 
A garçonete sorriu. Ela entendia tudo. Desde que o rapaz de barba desabou sobre a poltrona, meia hora atrás, ela sabia que algo de muito importante podia acontecer. Já estava anunciado. Era um belo homem, e ela o embalaria nos braços, o nutriria e dele cuidaria como de um bebesão. Mas o outro não entendia nada, o outro tinha as próprias dúvidas, o outro sequer percebera as migalhas sobre a mesa, que ela agora cuidadosamente retirava com um pano macio de feltro laranja, depositando-as no avental.

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