TRUMP MATOU UM CARA E FOI APLAUDIDO

Roberto Saraiva

2016 foi o ano em que finalmente paramos de concordar. Todos os sinais que por algum motivo não pudemos ou quisemos compreender já estavam lá antes de 2016. Mas nunca a incapacidade de gerar consensos mínimos foi tão clara. Os fatos sempre foram alvo de disputa, mas nada no nível do que ocorre hoje tanto com os do presente quanto com os do passado.

A galera que é boa de rotular e menos boa de compreender já batizou o fenômeno de pós-verdade. Como toda expressão assídua em análises e posts do Facebook, com pretensões de explicar um fenômeno que não cabe em duas palavras, essa também já nasceu cansada, maltratada que só.

O que assusta no estado das coisas não é tanto a propensão de uns em negar sistematicamente as evidências da realidade, que existe afinal, à revelia do relativismo extremo que até ontem nunca tinha me parecido especialmente perigoso. Pior, mas parte do mesmo zeitgeist, é a nossa dificuldade crescente de discutir a partir de pontos comuns.

Quando não há uma infraestrutura compartilhada mínima, linguística ou ideológica, capaz de embasar o debate, não há debate possível. Se não pudermos concordar em coisas relativamente básicas como o fato de que a escravidão é condenável, democracias são sistemas de governo preferíveis a ditaduras e as pessoas deveriam ter direitos iguais, então nossos problemas são consideravelmente maiores do que parecem à primeira vista.

Trump acaba de ser nomeado o 45º presidente americano (e de roubar uma foto da posse do primeiro mandato de Obama para a capa do seu querido Twitter). Nele, nossa incapacidade de concordar chegou ao paroxismo.

Para mais gente do que era esperado, gabar-se de abusar sexualmente de mulheres (e ser acusado por elas) não é nada desqualificador. Não tornar público seu imposto de renda para garantir ausência de conflitos de interesse (como fizeram todos os candidatos da história moderna) não é um problema. Ofender um juiz federal por sua etnia? Tudo certo! Propor discriminar a entrada de pessoas no país baseado em suas crenças religiosas também. Zombar de veteranos de guerra igualmente.

No limite, diz o comentarista de Facebook, Trump poderia até assassinar alguém ao vivo que não faltariam pessoas prontas a contemporizar e dizer que na verdade matar pessoas nem é tão grave assim. Ou, mais extravagantemente, negar até que tenha havido homicídio.

Jogar os próprios princípios no lixo, no caso do Trump alargando os limites do que é considerado um comportamento aceitável, é uma das saídas para não cometer o maior dos pecados: se permitir mudar de opinião ou até de visão de mundo. É pagar um preço muito alto para ter aquilo que se quer (no caso, sentir-se pleno de razão e coerência).

E conforme a gente vai desaprendendo a concordar sobre os fundamentos mais básicos do que seria ético e desejável, mais as escolhas políticas drásticas parecem pechinchas. Se o vivente não é muito fã do PT, nada mais natural que apoiar um golpe parlamentar e ganhar de brinde uma crise institucional. Se o que incomoda são os muçulmanos, tá fácil, Brexit e adeus União Europeia. Talvez haja recessão e o futuro dos filhos e netos esteja comprometido, mas isso não é nada comparado à bênção de ver menos hijabs na rua.

No Trump algumas das motivações são ainda mais prosaicas. Ou você não sabia que a verdadeira praga que nos assola é o Politicamente Correto? Quem não elegeria um populista demagogo, despreparado, intelectualmente desfavorecido e racista para dar um jeito nisso?

Só que ele não é racista, é um homem de negócios bem sucedido. E digo mais, ficar xingando todo mundo de racista é bem o tipinho de vocês esquerdopatas. Já recebeu o sanduíche de mortadela hoje?

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