UM AVIÃO QUE CAIU

Eduardo Santaella Malaguti

Nada mais trágico que um brasileiro triste. Um povo dado ao barulho e que sempre acha humor, do leve ao cáustico, do pavê a discordância política recente, se encontra finalmente unido num silêncio sepulcral, em uníssono, nesta tristeza coletiva.

Precisou de uma narrativa dramática perfeita, dessas feitas de caso pensado para chorar: um time simpático de futebol de uma pequena cidade, contra tudo e todos indo a uma final por mérito e competência, embarca num avião que cai e leva consigo a vida de dezenas de jovens e junto a alegria de milhões.

Uns varando a madrugada numa ansiedade de informação. Outros acordando e vendo as notícias. Um dia longo, cada vez mais quieto. O rol de aplicativos e múltiplos canais contemporâneos de comunicação, no início da manhã fervendo, vão se calando, parando de apitar, a nação sentindo o peso da morte alheia, voltando seus olhos para a pequena cidade, do time simpático, depois voltando os olhos para o mundo e suas homenagens de todos os cantos.

O mundo também sente a nossa tristeza, afinal, apesar de tudo que aconteceu nos últimos tempos, sempre damos um jeito de rir, galhofar, partidarizar, construir as próprias versões na ironia, no deboche, no “a internet não perdoa”. 
Hoje não, hoje é só tristeza, silêncio e reflexão, uma reflexão doída de ver que não tem como petralhar ou fascistar um avião que caiu, numa fatalidade. Num acaso. Num azar.

Uma reflexão doída de que é isso, um oceano inteiro de clichês que estão certos: a vida é breve. A vida é um mistério. A vida ensina. Ame os próximos, ame como se não houvesse amanhã, diga que se importa e tudo isso que sabemos e não ligamos muito, até se deparar com um murro no estômago de ter um dia como esse, num ano como esse, num País como esse e num País como está, e de não poder fazer mais nada a não ser desejar Força.
 
Força Chape, Força a você também que está lendo e teve um ano de merda, aos seus amigos e familiares que tiveram um 2016 de merda, as pessoas que você não liga e não gosta e que tiveram um ano de merda também.

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