Se você usa apps de relacionamento, cuidado! Um guia para usar o Tinder (e afins) sem ter seus dados roubados — Parte 1

Tinder, Grinder, Happn, OkCupid… Para as centenas de milhões de pessoas que usam plataformas de namoro on-line, o amor da sua vida ou aquele crush casual estão a apenas um clique de distância. A questão é: a que custo?

Victor Góis
digitalmente
7 min readJul 18, 2018

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http://www.raminrahni.com/animation

Eu nasci em 1993 e me enquadro naquela faixa geracional que, conforme cresceu, viu a internet evoluindo de páginas estáticas a aplicativos interativos. Nós fomos os entusiastas e primeiros adeptos das redes sociais e se você tá lendo isso e se identificou, vai entender o que quero falar com esse texto. Ao mesmo tempo que as redes sociais se tornavam populares entre os adolescentes, os sites de relacionamento começavam a pipocar World Wide Web afora. Mas ao contrário das redes sociais, estes sites tinham um perfil de usuário muito mais específico e um grande preconceito entorno, criando uma barreira limitadora para a popularização de seu tipo.

E então, aconteceu. O fenômeno da internet mobile que tomou o conta do mundo, por volta do ano de 2010: a população de aparelhos celulares com acesso a internet ultrapassa a casa do bilhão, ao redor do mundo. E nestes smartphones uma série de recursos: acesso a internet, câmera, GPS, milhares de aplicativos que realizam funções das mais variadas. Logo, a fusão de redes sociais e sites de relacionamento deu origem aos aplicativos de encontro que tanto usamos atualmente.

Estes aplicativos ainda se beneficiaram do que é chamado de gamefication, estratégias que usam os conceitos de interface e experiência de usuário, que fazem com que nós que temos esses apps nos nossos celulares, voltemos a usá-los sempre que possível. Provavelmente, vocês já ouviram falar disso, mas para aqueles que não, tenham claro que hoje em dia todo pedaço de software voltado para o mercado consumidor de massa, busca viciar seu usuário. E é aí que mora o primeiro problema: como utilizar um serviço de forma saudável, se ele foi concebido para seu uso intermitente

Os dados foram lançados

https://jimneilson.tumblr.com/

O segundo problema é ainda maior e é dele que tratarei exclusivamente neste texto. Este problema reside no que chamamos de indústria dos dados. Se a indústria do petróleo e o mercado financeiro representam a economia capitalista da modernidade, a economia contemporânea reside no comércio e controle de dados pessoais.

Os dados que entregamos a esses aplicativos de relacionamento, de bom grado, podem parecer um pequeno preço a pagar pela possibilidade real de encontrar o amor, mas o que realmente eles estão fazendo com nossas informações? A forma como os nossos dados são coletados, analisados, vendidos, negociados ou reutilizados pode ser mais complicada do que você imagina.

A indústria de corretores de dados — aqueles que compram e vendem nossos dados para terceiros — é facilitada pelas empresas que organizam nossas vidas com sistemas operacionais, aplicativos e hardware. Seu negócio é nos vender gadgets e software, ou fornecer um serviço “gratuito”, enquanto nos força a assistir alguns anúncios. No entanto, esse modelo de negócios crescente e lucrativo, como no caso dos apps de namoro, pode incluir informações que você provavelmente não queria que alcançassem muitas pessoas.

O Tinder, por exemplo, coleta e armazena os dados confidenciais de seus 50 milhões de usuários em todo o mundo. Isso inclui: todas as conversas de bate-papo (hora do dia, duração e com quem); informações obrigatórias ou que decidimos fornecer para enriquecer nosso perfil, como preferência sexual, a faixa etária que estamos interessados, bem como a origem étnica, nível educacional, visões políticas, gostos de música e comida, fotos, vídeos e localização do usuário (ou vários locais).

O Tinder também sabe que tipo de pessoa está interessada em você; Se você paga por serviços adicionais ou clica em anúncios que aparecem no aplicativo, você também está oferecendo informações financeiras, que são coletadas pelas tecnologias de rastreamento. Se você fizer login com sua conta do Facebook, outro fragmento de dados será extraído de lá, aliás, tudo que está em seu perfil público: endereços de e-mail, seus likes, data de aniversário, cidade atual, fotos, descrição pessoal, lista de amigos e informações sobre seu amigos do facebook. Por acaso o facebook já te recomendou como potenciais amigos, pessoas que você deu match no tinder? Pois é, é assim que funciona o rolê.

https://www.reddit.com/

Todas as informações que você fornece a aplicativos de namoro são compartilhadas com o Match Group, Inc. (empresa controladora do OurTime.com, BlackPeopleMeet.com, OkCupid, Twoo, POF, Meetic, Match24, MatchPort, ParPerfeito e, é claro, o Tinder). Eles também compartilham nossas informações com empresas terceiras (uma lista muito grande de empresas que não estão listadas na maioria dos Termos de Uso e podem mudar e crescer de acordo com os interesses das empresas) e, por último, nossas informações também são compartilhadas com as corretoras de dados. Os dados são retidos nos servidores da empresa por meses ou, no caso do Tinder, “desde que sejam necessários para fins comerciais legítimos”.

Em outubro de 2011, uma investigação conduzida por Jonathan Mayer, um candidato a Ph.D. em ciência da computação na Universidade de Stanford, revelou que a OkCupid estava vendendo informações dos usuários sobre abuso de drogas e álcool. Após as alegações, a empresa disse que eles deixaram de fazê-lo.

Agora pense no Grindr, um aplicativo de encontros gay com 3,3 milhões de usuários, que também inclui pessoas trans, bissexuais e queer. As informações solicitadas, ou que você entrega voluntariamente para construir seu perfil, incluem: status de HIV ou “data do último teste”, escolhas sexuais desprotegidas e preferências sexuais, imagem pessoal, nome de exibição, status de relacionamento, etnia idade ou data de nascimento, dados de geo-localização, e aí eu faço um parênteses (este recurso foi desativado para proteger os usuários em alguns países extremamente homofóbicos como a Rússia, mas outros aplicativos como Tinder ou Happn ainda usam e podem colocar em risco a comunidade LGBTQI), endereço de e-mail, altura, peso, links de redes sociais e muito mais.

Independentemente de o usuário sair ou excluir o aplicativo, todas essas informações confidenciais ainda podem ser retidas pelo Match Group e por qualquer afiliado com o qual já tenham sido compartilhadas. Se os dados foram liberados para os parceiros, eles podem ter sido usados ​​como marketing direto ou vendidos como um pacote de informações para um intermediário de dados. Qualquer informação que você forneceu para criar seu perfil também existe na forma de um registro mantido por um número desconhecido de terceiros.

Paul-Oliver Dehaye, fundador da ONG suíssa PersonalData I/O, juntamente com o advogado de direitos humanos Ravi Naik e a jornalista Judith Duportail, analisaram os dados pessoais do perfil do Tinder da jornalista depois de pedirem que a empresa os enviasse para ela. Eles conseguiram 800 páginas de toda a sua atividade no aplicativo, bem como aplicativos conectados a seus perfis de mídia social, como o Facebook. Segundo Dehaye, os dados coletados pelo aplicativo e compartilhados com terceiros são usados ​​para criar perfis e podem afetar sua vida ao pedir um empréstimo, candidatar-se a um emprego, uma bolsa de estudos ou seguro médico. No caso do Grindr, ou outros aplicativos LGBT como Her, Gayromeo, entre outros, pode ser muito perigoso se você acabar preso em um aeroporto em um dos 10 países que punem a homossexualidade com uma sentença de morte.

Vídeo do Portal Intervozes sobre a PLC53 sobre Dados Pessoais

No Brasil, a Constituição Federal já fixa a privacidade e a liberdade como direitos fundamentais. O Marco Civil da Internet também estabelece como princípios a proteção da privacidade e dos dados pessoais. Ainda sim, o projeto de lei que protege os dados pessoais só foi aprovado no senado há pouco mais de uma semana (10/7) e segue para sanção presidencial. Segundo o site do senado:

O PLC 53/2018 também proíbe, entre outras coisas, o tratamento dos dados pessoais para a prática de discriminação ilícita ou abusiva. Esse tratamento é o cruzamento de informações de uma pessoa específica ou de um grupo para subsidiar decisões comerciais (perfil de consumo para divulgação de ofertas de bens ou serviços, por exemplo), políticas públicas ou atuação de órgão público.

O texto aprovado pelo senado ainda prevê a criação de um órgão regulador: a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), vinculada ao Ministério da Justiça.

A gente está apenas entrando nesta era onde direito, economia, psicologia, dentre tantas outras áreas da sociedade convergem para o mundo digital. Encontrar soluções para estes desafios é uma das tarefas extraordinariamente difíceis que nossa sociedade tem nas mãos. No próximo artigo dessa sequência, falarei um pouco mais sobre o que fazer para evitar ter os dados utilizados de forma maliciosa, seja por hackers, seja por corretoras de dados.

Este artigo foi inspirado pelo projeto OurDataSelves, e seu artigo Data and Dating: Who else wants your love? e pela Coalização Direitos na Rede.

Continua na parte 2 (em breve).

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Victor Góis
digitalmente

Pesquiso e produzo sobre cultura digital. Me interesso pela convergência entre comunicação, filosofia, arte, política e tecnologia.